É inegável que o Brasil é um país preso na chamada armadilha de renda média, cuja principal característica é a incapacidade de sair desse nível de riqueza para o patamar das nações mais avançadas. Há décadas a renda per capita brasileira flutua na faixa de 20-30% da norte-americana, e, com o crescimento potencial do PIB brasileiro estimado de 1,5-2,5% ao ano, a convergência, se houver, se dará em período longuíssimo.PUBLICIDADEAcelerar de forma contundente a convergência exige a aplicação de uma agenda de reequilíbrio fiscal estrutural, recuperação da capacidade do Estado de investir de forma robusta sem comprometer o equilíbrio das contas públicas, reformas microeconômicas para aumentar a produtividade e um grande salto na qualidade da educação.Em termos políticos, candidatos mais ou menos identificados com essa agenda vêm recebendo nos últimos anos 4-5% dos votos em eleições presidenciais. Michel Temer, que adotou um programa com algumas dessas características, deixou o governo com recordes de impopularidade do período da redemocratização.Não se enxerga no horizonte, portanto, a saída do Brasil da armadilha da renda média. Por outro lado, como se constata pela leitura da nota técnica do IPEA "Pobreza e Desigualdade no Brasil no Curto e no Longo Prazo", de Pedro de Souza e Marcos Hecksher, o Brasil teve avanços sociais notáveis em três décadas.Entre 1995 e 2024, a renda domiciliar per capita (a preços de 2024) cresceu quase 70%, saindo de R$ 1.191 para R$ 2.015. Dado o longo tempo decorrido para que isso acontecesse, não chega a ser uma façanha.PublicidadeMas a fotografia melhora quando se olha o coeficiente de Gini (que é inversamente proporcional à desigualdade), que saiu de 0,615 para 0,504 naquele período. A extrema pobreza (pessoas vivendo com menos de US$ 3 por dia) caiu de 25,2% para 4,8% da população entre 1995 e 2024. Já a taxa de pobreza (linha de US$ 8,30 por dia) caiu de 61,2% para 26,8% no período.Os números do trabalho mostram que as transferências assistenciais tiveram um papel destacado nesse avanço social. O coeficiente de Gini em 2024 sobe para 0,541 num cenário contrafactual sem as transferências; e a extrema pobreza, no mesmo cenário, sobe para 11,2% em 2024.Tanto no caso do Gini como no da extrema pobreza, a diferença entre o cenário real e o contrafactual sem transferências aumentou substancialmente nos últimos anos, refletindo a ampliação de programas sociais, especialmente do Bolsa Família.O estudo indica que a melhora dos indicadores sociais se concentrou em dois períodos: de 2003 a 2014, e na retomada pós-pandemia, entre 2021 e 2024. Segundo os autores, "os ganhos distributivos dos últimos anos foram impulsionados, em igual medida, pelo aquecimento do mercado de trabalho e pela expansão das transferências assistenciais, que se tornaram mais efetivas no combate à pobreza e à desigualdade".Essa melhora social com importante componente de transferências indica, na visão da coluna, que o Brasil vem se adaptando à armadilha de renda média. Na impossibilidade de crescimento robusto sustentado, que eleve de forma exponencial a renda média, o País transfere renda para manter boa parte da população acima de níveis de vida muito indignos.PublicidadeÉ verdade que o aquecimento do mercado de trabalho também contribuiu para a melhora social dos últimos anos, mas sem crescimento concomitante da produtividade, essa alavanca vai esbarrar fatalmente em limites intransponíveis.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/6/2026, quarta-feira.