Mercado de trabalho e programas sociais levam baixa renda ao menor nível desde 2012, diz consultoria Bruno Imaizumi: “O crescimento da economia não é positivo só para um grupo” — Foto: Gabriel Reis/Valor A participação dos brasileiros nas classes D e E caiu para o menor nível em 2025, segundo levantamento da consultoria 4Intelligence. Atualmente, 19,4% da população vive em domicílios com renda de até R$ 760 por pessoa, o equivalente a cerca de 41 milhões de pessoas, configurando os estratos de mais baixa renda do país. A série histórica da consultoria tem início em 2012, quando as classes D e E representavam 31,6% da população brasileira. O percentual atingiu o pico em 2021, chegando a 34%, em meio à pandemia de covid-19. A melhora do mercado de trabalho e os programas de transferência de renda contribuíram para a redução dessa parcela da população e para que famílias migrassem para faixas de renda mais elevadas, afirma o economista Bruno Imaizumi, responsável pelo levantamento. Apesar da melhora, Imaizumi destaca que a ascensão social das classes mais baixas para as classes intermediárias é geralmente frágil. Ele explica que a maioria dessas pessoas não conseguiu acumular patrimônio ou reservas suficientes para sustentar essa melhora de forma independente, o que significa que ainda dependem de um cenário econômico favorável, por meio do trabalho e da renda, mas também da inflação controlada e dos juros baixos, por exemplo. Boa parte das famílias que saíram recentemente da pobreza ainda vive em vulnerabilidade financeira elevada” No topo da pirâmide social, a classe A ampliou sua participação. O grupo passou de 2,7% da população em 2012 para 3,8% em 2025. Nessa faixa estão os brasileiros que vivem em domicílios com renda superior a R$ 7.989 por pessoa. Esse grupo superou o total de 8 milhões de pessoas em 2025. O percentual de domicílios classificados na classe A também cresceu, de 3,9% para 4,9% no mesmo intervalo. Já a participação dos domicílios nas classes D e E recuou de 25,3% para 15,8%. “O crescimento da economia não é positivo só para um grupo, mas para a população no geral. Obviamente, tem gente que se beneficia mais do que as outras, mas, em termos marginais, o crescimento da economia acaba sendo benéfico para todos”, avalia Imaizumi. Apesar da redução da população nas classes mais baixas, a diferença de renda domiciliar per capita média entre os grupos sociais permanece elevada. O indicador é resultado da divisão da renda total do domicílio pelo número de moradores. Em 2025, o rendimento domiciliar per capita médio foi estimado em R$ 453 por pessoa entre as famílias das classes D e E. Na classe A, o rendimento domiciliar per capita médio chegou a R$ 14.214 por pessoa, valor cerca de 31 vezes superior ao registrado entre as famílias da base da pirâmide social. Classe C dominaA maior parte da população do país está concentrada nas classes C2 e C1, que, juntas, representam cerca de 56% dos brasileiros. Em 2025, o rendimento domiciliar per capita médio foi estimado em R$ 1.104 na classe C2 e em R$ 1.921 na classe C1. Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos do Desenvolvimento do Nordeste, do FGV Ibre, avalia que, para a camada mais pobre, o Bolsa Família foi o principal vetor de melhora, permitindo algum consumo básico que antes era inviável. Para uma camada logo acima, como a classe C, afirma o economista, o mercado de trabalho foi mais determinante, especialmente o mercado informal e de serviços, que absorveu contingentes expressivos de trabalhadores pouco escolarizados. “A mobilidade ocorreu, mas foi principalmente uma mobilidade de base, ou seja, um deslocamento das famílias que estavam abaixo da linha de pobreza para uma condição de pobreza moderada ou de baixa renda. O que ainda não se consolidou de forma clara é a transição para uma classe média estável, com acesso a educação de qualidade, saúde e capacidade de poupança”, afirma Ataliba. O pesquisador também considera que a saída da pobreza ainda é “frágil e reversível" e que será necessário, por exemplo, que o crescimento econômico gere empregos de melhor qualidade. “Boa parte das famílias que saíram da pobreza recentemente ainda vive em situação de vulnerabilidade financeira elevada, com pouca ou nenhuma reserva para absorver choques, altamente dependente da continuidade do emprego informal e da manutenção dos benefícios sociais. Os dados de crédito mostram que esse grupo também foi atingido pela expansão do crédito de curtíssimo prazo, incluindo o crédito consignado para beneficiários do Bolsa Família, o que pode ter comprometido parte do ganho de renda com serviço de dívida”, afirma Flávio Ataliba. Na 4Intelligence, o levantamento é utilizado para estimar o rendimento domiciliar per capita médio e, assim, medir o potencial de consumo das famílias brasileiras. Com essas informações, as empresas conseguem identificar a capacidade de consumo de bens e serviços entre diferentes grupos da população, explica Imaizumi. O cálculo do rendimento domiciliar per capita médio da consultoria utiliza metodologia semelhante à da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) para realizar recortes por unidades da federação, com atualização anual dos tetos de renda pela inflação medida pelo IPCA. A classificação também considera informações sobre aquisição de bens duráveis, como motos e veículos, entre 2016 e 2019, e dados da pesquisa anual Pnad Contínua: Rendimento de Todas as Fontes.
Classes D e E encolhem e já são menos de 20% da população do Brasil
Mercado de trabalho e programas sociais levam baixa renda ao menor nível desde 2012, diz consultoria














