Banco afirma ter 'compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competente' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 PF faz operação contra o Banco Digimais — Foto: Aloisio Mauricio/Fotoarena via Agência O Globo) RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/06/2026 - 12:00 Banco Central Alerta MPF sobre Irregularidades no Banco Digimais O Banco Central alertou o Ministério Público Federal sobre suspeitas de irregularidades no banco Digimais, controlado por Edir Macedo, três meses antes da operação da Polícia Federal. O BC descobriu que o Digimais inflou em quase dez vezes o valor de cotas de fundos em seu balanço de 2023. O banco alega compromisso com a transparência e colaboração com as autoridades. A operação Miragem investiga crimes de gestão fraudulenta e informações falsas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Deflagrada na terça-feira pela Polícia Federal, a operação que teve como alvo o banco Digimais teve como base um alerta enviado pelo Banco Central ao Ministério Público Federal (MPF) em 10 de março. Na ocasião, a autoridade monetária apontou suspeitas sobre operações realizadas pela instituição controlada por Edir Macedo, líder da Igreja Universal. Um complemento das informações foi enviado ao órgão de investigação no dia 8 deste mês. O alerta do regulador bancário ao MPF foi feito a partir de indícios de irregularidade encontrados no processo de supervisão bancária do Digimais. Segundo a apuração, o banco inflou artificialmente em quase 10 vezes o valor de cotas de fundos em seu balanço ao longo de 2023, contabilizando ativos que valiam R$ 71 milhões por R$ 741,348 milhões. A diferença é de R$ 670 milhões, justamente o montante autorizado para bloqueio na Operação Miragem. A PF vê indícios de crimes de gestão fraudulenta, de prestação de informações falsas em demonstrativos contábeis para “manter a aparência de riqueza”, de indução a erro ao investidor quanto à higidez de suas finanças e de fazer operação de crédito com controlador ou administrador. O Digimais afirmou, em nota, que está à disposição das autoridades para dar explicações e colaborar com a Justiça. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes", afirmou o banco, em nota. A investigação do BC é citada na representação da PF à 7ª Vara Criminal Federal para autorizar a operação. De acordo com o documento, a “manobra contábil” teve início quando o Digimais passou a deter cotas do Hermon Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios não-padronizados, termo usado para classificar ativos financeiros com características de difícil precificação, como precatórios ou indenizações judiciais. Foram essas cotas que foram registradas no balanço do banco pelo montante de R$ 741,348 milhões. Os valores são referentes à aquisição de direitos de crédito originados de uma ação de indenização ajuizada no ano de 1967 por herdeiros de uma família em face da União, que foram comprados em etapas. De acordo com a investigação, na primeira compra, em fevereiro de 2023, o ID112 Fundo de Investimento em Direitos Creditórios não-padronizados adquiriu uma parcela de 7,7% pela quantia de R$ 9 milhões. Em seguida, essa parcela foi transferida para o fundo Guidare, quando o ativo foi reavaliado para R$ 100 milhões. Depois, em junho de 2023, outra parcela foi adquirida, agora no valor de R$ 22 milhões, reavaliada posteriormente para R$ 130 milhões. “Tal fato resultou na apuração de rendas no valor de R$ 199.000.000,00, com o reconhecimento desses valores na contabilidade do BANCO DIGIMAIS S.A. em função da valorização das cotas do fundo”, diz a PF. Em outra etapa, em setembro de 2023, o fundo Hermon comprou mais duas cotas de direito de crédito da mesma família, cada uma no valor de R$ 20 milhões. Em reavaliação posterior, essas cotas foram infladas e passaram a valer R$ 174,6 milhões cada. “Novamente, as aquisições passaram por procedimento de reavaliação e atingiram a monta de R$ 174.590.281,80 cada, o que elevou o registro de patrimônio do fundo para o patamar de R$ 741.348.945,70, muito embora o custo de aquisição dos ativos perfizesse a soma de apenas R$ 71.000.000,00", diz a investigação da PF. De acordo com a representação da corporação, o BC identificou a infração às normas em suas atividades normais de auditoria e determinou a correção do balanço no dia 26 de outubro de 2023, conforme documento assinado na data. O Digimais, por sua vez, solicitou o parcelamento do impacto no balanço ao longo de cinco anos. Apesar disso, no dia 29 de dezembro de 2025, o Digimais celebrou contrato de compra e venda a prazo das referidas cotas com a sua controladora, a B.A. Empreendimento e Participações, pelo exato valor que constava erroneamente, segundo o BC, de R$ 741.348.945,70. Não houve ingresso de valores no caixa do banco, já que a previsão de pagamento era de 2032, mas mesmo assim o Digimais desfez as provisões determinadas pelo BC para corrigir a irregularidade no balanço. Para a autoridade monetária, essa operação foi uma “burla à determinação de correção” antes proferida pelo órgão. “Por conseguinte, a equipe de fiscalização verificou que o contrato de alienação de cotas resultou na manutenção dos valores gerados pelas reavaliações de ativos nos demonstrativos de contabilidade do BANCO DIGIMAIS, com o registro sob a rubrica de valores a receber do controlador, o que funcionou como via de burla à determinação de correção outrora proferida”, destacou a PF na representação da operação. Além disso, a fiscalização do BC apontou que a operação entre Digimais e a controladora superou a exposição de crédito prevista nos normativos do Conselho Monetário Nacional (CMN), que estabelece um teto de 10% do Patrimônio Líquido Ajustado (PLA). A extrapolação foi de quase 95% do contrato, de R$ 699,635 milhões. Outra irregularidade apontada foi que a operação financeira previu uma taxa de IPCA + 0,5% ao ano, o que caracteriza o negócio como financiamento ao controlador, reforçando os inícios de operação vedada pela lei de crimes contra o sistema financeiro. Isso porque, diz a PF, a adoção de um indexador inflacionário somado a juros reais caracteriza típica remuneração de capital no tempo, elemento essencial das operações de crédito. Ainda, ao conceder prazo para pagamento, o Banco estaria financiando o controlador no tempo, assumindo o risco de crédito decorrente do prazo, passando o controlador a ser devedor do Banco.