“O camarada começa a ver um pivete levando choque, spray de pimenta no ânus, no escroto, dentro da boca e não sente pena nenhuma. Pelo contrário, ele ri, acha engraçado. E tem um motivo: nesse momento que o mais antigo pega o pivete e começa a fazer isso, se você ficar sentido, comovido por aquela prática, pode ter certeza que vai virar comédia no batalhão, vai ser tido como fraco. Vai ser tido como inapto para o serviço policial. E aí você vai começar a ser destacado, a ser visto como um elemento discordante desse ideal que a tropa criou.”

— Rodrigo Nogueira, em Como nasce um miliciano, de Cecília Olliveira (Bazar do Tempo)

A citação é brutal. E ajuda a nomear uma das lutas centrais do Brasil e do mundo: impedir que a violência se transforme em rotina, piada ou método.

A literatura pode contribuir — e muito — para esse esforço. Os escritores russos do século XIX talvez sejam o melhor exemplo. Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov são os nomes que primeiro saltam aos olhos, mas Gogol e Turguêniev também integram essa constelação. Todos, cada um à sua maneira, buscavam curar pela literatura.

Tchekhov, médico, sanitarista e epidemiologista, transformou o levantamento que realizou na distante ilha de Sacalina — onde funcionava uma das maiores e mais terríveis prisões czaristas — em uma obra-prima da literatura russa. Mas não se deteve ali. Em Os mujiques (Todavia), ingressa no terrível e perigosíssimo universo das relações afetivas abusivas.