A sanção presidencial que libera a venda de spray de pimenta para autodefesa foi recebida com comemoração, inclusive por mim. Qualquer recurso não letal que ajude uma mulher a se defender é bem-vindo. Mas é bom ter claro que entregar uma latinha e desejar boa sorte não é política pública; é um atestado de falência do Estado, se não vier acompanhado de outras medidas que reduzam a violência.
Relatórios do Departamento de Justiça dos EUA confirmam que o spray tem alta eficácia em lugares públicos e contra estranhos. Serve para conter uma importunação no ônibus, no metrô ou garantir valiosos segundos para a fuga num ataque na rua. Mas as mesmas pesquisas não registram impacto na redução de homicídios por parceiros por uma razão estrutural. Cerca de 80% das agressões graves e feminicídios ocorrem em casa, em momentos de convivência, onde a pimenta na bolsa não serve para nada.Nesse sentido, a venda dos sprays cai no mesmo alçapão da pauta do porte de armas defendida pela direita: armar as mulheres e decretar que a sobrevivência delas depende da capacidade individual de reagir. Como se a violência de gênero fosse um duelo de faroeste, ignorando que, no ambiente doméstico, a presença de uma arma só aumenta a probabilidade de a mulher acabar morta.











