Ciclo prolongado de juros altos e inadimplência corporativa crescente ampliam o estoque de ativos estressados e aceleram movimentos de cessão no mercado financeiro. Felipe Rassi — Foto: Divulgação O Brasil chega a 2026 com um cenário que combina dois fatores historicamente associados ao crescimento do mercado de créditos estressados: taxa de juros elevada por um período prolongado e inadimplência corporativa em alta. O resultado é um estoque crescente de NPLs (Non-Performing Loans) no sistema financeiro, com bancos e credores acelerando a cessão de carteiras para fundos especializados em recuperação de ativos. O especialista em créditos estressados, Felipe Rassi, observa que o mercado brasileiro nunca teve um pipeline tão robusto de ativos disponíveis para negociação, e que o momento exige dos investidores tanto capacidade técnica quanto preparo jurídico para extrair valor dessas carteiras. Por que o ciclo de juros altos pressiona o mercado de NPLs? A relação entre taxa de juros e inadimplência corporativa é direta. Quando o custo do crédito sobe e permanece elevado por um período prolongado, empresas que operam com margens apertadas começam a ter dificuldade para honrar seus compromissos financeiros. Esse processo se intensificou no Brasil a partir de 2024, quando a política monetária voltou a apertar as condições de crédito, e seus efeitos se acumularam ao longo de 2025 e chegaram a 2026 com força total. Nesse contexto, setores com alta dependência de crédito, como varejo, construção civil e logística, concentram grande parte das carteiras problemáticas em circulação. Felipe Rassi ressalta que o perfil dos ativos disponíveis hoje é distinto do que se via em ciclos anteriores: há mais dívidas corporativas de médio porte, com estruturas de garantia mais complexas e histórico jurídico mais extenso, o que exige análise técnica mais aprofundada por parte dos compradores. Como os fundos estão posicionando estratégias de aquisição? O apetite dos fundos especializados por carteiras de NPLs cresceu na mesma proporção que o volume de ativos disponíveis. Gestoras nacionais e internacionais ampliaram suas estruturas de análise e passaram a competir por carteiras que antes tinham poucos compradores. Esse movimento aumentou a liquidez do mercado secundário de crédito estressado, mas também comprimiu os deságios praticados nas cessões mais disputadas. Diante disso, a diferenciação entre os fundos passa cada vez mais pela capacidade de recuperação, não apenas pela capacidade de aquisição. Felipe Rassi examina que fundos com estrutura jurídica interna ou parceiros especializados em recuperação de ativos conseguem precificar carteiras com mais precisão e extrair valor em situações que outros investidores descartam por complexidade. Essa vantagem operacional se traduz diretamente em retorno ajustado ao risco. Além disso, a escolha da estratégia de recuperação, se extrajudicial, judicial ou por meio de reestruturação da dívida, impacta diretamente o prazo e o custo da operação. Em 2026, com o judiciário ainda pressionado por um volume elevado de execuções e recuperações judiciais iniciadas nos dois anos anteriores, a via extrajudicial ganhou ainda mais protagonismo como caminho preferencial para quem busca eficiência na recuperação de crédito não performado. Quais setores concentram os maiores volumes de crédito estressado? O ciclo atual de NPLs no Brasil tem características setoriais bem definidas. O varejo físico, que já enfrentava pressão estrutural da digitalização do consumo, foi duramente atingido pelo custo do crédito elevado e pela queda do poder de compra das famílias. A construção civil acumula passivos oriundos de obras paralisadas e contratos renegociados. O setor de saúde, que expandiu capacidade instalada durante a pandemia, enfrenta agora o peso de dívidas contraídas num ambiente de juros mais baixos e que vencem num cenário completamente diferente. Felipe Rassi contextualiza que a concentração setorial do estresse financeiro cria oportunidades específicas para investidores com conhecimento do setor. Uma carteira de NPLs do varejo exige abordagem diferente de uma carteira da construção civil: os tipos de garantia, o perfil dos devedores e as estratégias de recuperação disponíveis variam de forma significativa entre os segmentos. O que define o sucesso de uma operação em créditos estressados? No mercado de NPLs, a diferença entre uma operação bem-sucedida e uma mal precificada costuma estar nos detalhes da due diligence. A qualidade da documentação original da dívida, a situação das garantias reais, o histórico de negociações anteriores com o devedor e o estágio de cada operação no sistema judicial são variáveis que determinam o valor real de uma carteira, muitas vezes de forma mais decisiva do que os números superficiais sugerem. Diante de um mercado mais competitivo e de ativos mais complexos, 2026 consolida uma tendência que vinha se desenhando nos anos anteriores: o sucesso em créditos estressados depende cada vez menos de acesso a carteiras e cada vez mais de capacidade técnica para recuperá-las. Felipe Rassi pontua que esse é o fator que vai definir quais fundos e estruturas se consolidam nesse mercado e quais ficam pelo caminho nos próximos anos.
Especialista em créditos estressados, Felipe Rassi analisa por que 2026 é o ano de maior pressão sobre carteiras de NPLs no Brasil
Ciclo prolongado de juros altos e inadimplência corporativa crescente ampliam o estoque de ativos estressados e aceleram movimentos de cessão no mercado financeiro.






