Do outro lado, diversos países acreditam que a UE funciona melhor desde a saída do Reino Unido 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Homem agita simultaneamente a bandeira do Reino Unido e a bandeira da União Europeia em frente ao Parlamento, durante um protesto contra o Brexit no centro de Londres, em 2016 — Foto: JUSTIN TALLIS/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/06/2026 - 16:44 Brexit: 56% dos Britânicos Consideram Saída da UE um Erro Após 10 Anos Dez anos após o Brexit, muitos britânicos agora consideram a decisão de sair da União Europeia um erro, com 56% dos entrevistados em uma pesquisa recente afirmando isso. A economia britânica enfrenta desafios, como inflação e dívida, e há debates sobre um possível retorno à UE. A renúncia de Keir Starmer intensifica a instabilidade política, enquanto Andy Burnham desponta como possível novo premier, sem prometer retorno imediato à UE. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Uma parte considerável dos britânicos ainda se questiona se a decisão de sair da União Europeia (UE), resultado do referendo celebrado há 10 anos, foi correta ou não. Uma pesquisa recente do instituto YouGov mostrou que 56% dos entrevistados afirmam que foi um erro. E 62% consideram um fracasso. Essa mudança de opinião levou alguns comentaristas a imaginar novas expressões inspiradas no termo "Brexit" para descrever o fenômeno oposto, um hipotético retorno do Reino Unido à UE: "Bregret" (arrependimento), "Breturn" (retorno), "Breunion" (reunião)... Além dos jogos de palavras, essa mudança está alimentando intensos debates políticos no país sobre a estratégia a seguir. — O referendo do Brexit criou duas novas tribos políticas. De um lado, os partidários da saída (Leavers) e, do outro, os da permanência (Remainers). Dez anos depois, as identidades seguem muito fortes e amplamente enraizadas. Quase dois terços dos britânicos se identificam como Leavers ou Remainers, e os vínculos são muitas vezes mais fortes do que a lealdade aos partidos políticos — explicou à AFP Sara Hobolt, professora de Instituições Europeias e diretora do Departamento de Governo da London School of Economics (LSE). Pouco antes do fatídico referendo britânico sobre a permanência na União Europeia, o governo da época fez um alerta contundente: votar pela saída do bloco provocaria um "choque imediato e profundo" na economia. Por uma margem estreita, 51,9% dos eleitores votaram pela saída mesmo assim. Os alertas econômicos estavam errados, mas apenas quanto ao momento em que se concretizariam. O Brexit prejudicou a economia britânica, e os custos vêm se acumulando de forma constante na última década, superando em muito quaisquer benefícios, segundo economistas. De forma mais visível, o Brexit desencadeou uma onda de instabilidade política: o país terá em breve seu sétimo primeiro-ministro desde a votação de 23 de junho de 2016, após o anúncio da renúncia de Keir Starmer na segunda-feira. Essa turbulência gerou um sentimento de arrependimento: em uma pesquisa recente, quase metade dos britânicos afirmou que o Brexit estava indo pior do que o esperado — um aumento acentuado em relação a cinco anos atrás. Outra sondagem revelou que pouco mais da metade da população apoiaria o retorno à UE. Apesar disso, é difícil precisar o custo do Brexit, dados os outros impactos sofridos pela economia britânica desde o referendo, incluindo a pandemia de Covid-19, as tarifas impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e as guerras na Ucrânia e no Irã. Enquanto a economia britânica enfrenta dificuldades devido à inflação persistente, ao pesado fardo da dívida e aos custos mais elevados de empréstimo, a ideia de reverter alguns dos efeitos do Brexit tornou-se mais atraente. O favorito para assumir o cargo de primeiro-ministro, Andy Burnham, classificou a saída da UE como "prejudicial". Burnham, até agora prefeito da Grande Manchester, não falou abertamente sobre a possibilidade de um retorno imediato à UE. Em maio, durante a campanha para vencer uma eleição suplementar que o levaria novamente ao Parlamento, o provável próximo premier disse ao canal ITV que existe um "argumento de longo prazo" a favor do retorno à União Europeia. Apesar disso, ele ressaltou que não defenderia a posição durante as eleições suplementares no noroeste da Inglaterra, que acabou vencendo. — A questão interessante é saber se Burnham vai querer ir além de Starmer em seu desejo de se aproximar mais da Europa ou se, pelo fato de representar um distrito eleitoral que apoiou a saída da União Europeia, será mais prudente — declarou à AFP Catherine Barnard, professora de Direito da União Europeia e Direito do Trabalho na Universidade de Cambridge. Na opinião de Barnard, ainda existe um trauma profundo em torno do Brexit e o eleitorado continua dividido. Também não está claro se a UE aceitaria o retorno do Reino Unido. A AFP consultou meia dúzia de diplomatas europeus, todos os quais afirmaram que seus países acolheriam tal possibilidade, mas apenas se os britânicos estivessem dispostos a fazer concessões, algo que muitos duvidam. — Eles não estão preparados para aceitar as obrigações que acompanham a adesão à UE — comentou um deles. Sem pressa No ano passado, o governo de Starmer realizou uma cúpula com líderes europeus para "reiniciar" a relação. No entanto, mais de um ano depois, o progresso tem sido lento e irregular. Embora busque uma relação mais estreita, o Partido Trabalhista descartou o retorno ao mercado único e à união aduaneira da Europa, bem como a permissão para a livre circulação de pessoas através das fronteiras. Analistas também apontam que há pouco interesse, por parte de Bruxelas, em renegociar profundamente a relação com o Reino Unido. Do outro lado, 27 Estados-membros não demonstram urgência em reabrir a questão. Diversos países acreditam que a UE funciona melhor desde a saída do Reino Unido e não sentem falta das disputas que costumavam prejudicar o bloco quando o Reino Unido ainda era membro. “É mais fácil” desde que Londres saiu, afirmou outro diplomata, “porque não precisamos mais gastar tempo negociando exceções para cada caso”. O Reino Unido nunca adotou o euro nem aderiu ao Espaço Schengen e, durante o governo de Margaret Thatcher, chegou a negociar um desconto na sua contribuição para o orçamento da UE. Sébastien Maillard, especialista do think tank Chatham House, destaca que, com a saída do Reino Unido, os países da UE que favorecem o liberalismo econômico ou que estão mais alinhados com os Estados Unidos perderam um contrapeso às ambições soberanas da França. Sem o Reino Unido, a União Europeia embarcou, nos últimos anos, num compromisso firme com a “autonomia estratégica” e numa defesa mais explícita da “preferência europeia” em setores-chave. — O Reino Unido desconhece a extensão das mudanças que a UE sofreu nestes 10 anos — insistiu o especialista. Embora a pandemia da Covid-19, a presidência de Donald Trump e a guerra na Ucrânia tenham influenciado essa transformação, um terceiro diplomata argumenta que a saída do Reino Unido também impulsionou a Europa a se reformar para evitar que outros parceiros seguissem o mesmo caminho. A consequência implica algum sucesso, visto que a maioria dos movimentos populistas ou de extrema direita já não defende a saída da UE, mas sim a sua modificação interna. Após vários pontos de discórdia nos últimos meses — relativos à indústria de Defesa, ao aumento das tarifas europeias sobre o aço e à promoção de produtos "Made in Europe" — alguns acordos poderão ser alcançados durante uma cimeira entre Londres e Bruxelas — que estava programada para julho mas foi adiada após a renúncia de Starmer. No entanto, estes serão avanços modestos, como medidas para facilitar a mobilidade dos jovens ou o comércio de produtos alimentares. Muito longe da grande reconciliação com que alguns no Reino Unido sonham. Economia britânica está menor Em 2016, o governo britânico presumia que uma votação pela saída significaria uma ruptura imediata dos laços comerciais do país com os outros 27 membros da União Europeia. Em vez disso, houve anos de negociações. O Reino Unido só deixou o bloco oficialmente no final de janeiro de 2020 e, mesmo assim, houve um período de transição de 11 meses. Isso obscureceu os efeitos econômicos, pois as regras comerciais não mudaram fundamentalmente até 2021 — quatro anos e meio após a votação. A pandemia de Covid, a crise energética e outros eventos dificultaram para os economistas isolar o efeito do Brexit na economia. No entanto, muitos tentaram fazê-lo. Um estudo amplamente citado, liderado por Nicholas Bloom, professor de Stanford, estimou que o Brexit reduziu o Produto Interno Bruto (PIB) do Reino Unido em até 8%, "com o impacto se acumulando gradualmente ao longo do tempo". Embora outros economistas questionem a metodologia desse estudo, há um consenso geral de que a economia britânica está entre 4% e 6% menor do que seria se o país tivesse permanecido na União Europeia — uma perda substancial de produção. Isso significa menor arrecadação de impostos para financiar gastos públicos e uma melhora mais lenta no padrão de vida da população. O Office for Budget Responsibility (órgão independente de supervisão fiscal do Reino Unido) estima que o Brexit reduzirá em 4% a produtividade de longo prazo do país — indicador que já vinha apresentando desempenho inferior ao de outras grandes economias desde a crise financeira global. Novos acordos comerciais não compensaram perdas A maior parte do custo econômico derivou do aumento de entraves comerciais nas relações com o mercado de 450 milhões de pessoas situado às portas do Reino Unido. Um acordo comercial firmado em 2021 manteve as tarifas praticamente zeradas, mas criou outras barreiras ao comércio ao introduzir exigências burocráticas adicionais, controles de fronteira e novas regulamentações. O Brexit reduziu as exportações britânicas de bens e serviços para a União Europeia em cerca de 12% e as importações provenientes do bloco em cerca de 16%, segundo o grupo de pesquisa Centro para a Reforma Europeia (CER). As exportações britânicas de produtos agrícolas e alimentícios foram particularmente afetadas, registrando uma queda de quase 30%, constatou o CER. Para alguns setores, como o de produtores de mariscos, os controles de fronteira adicionais tornaram a exportação inviável. Muitas pequenas empresas, em particular, reduziram seus esforços para conquistar clientes europeus devido ao aumento de tempo e custos envolvidos. O comércio de serviços do Reino Unido teve um desempenho melhor. No entanto, a maioria dos economistas atribui isso à pandemia, período em que houve um pico na demanda por serviços, especialmente aqueles prestados online. Prestadores de serviços britânicos já bem estabelecidos, incluindo empresas de consultoria e escritórios de advocacia, foram beneficiados por esse cenário. (Com AFP e New York Times)
Breturn? Enquanto esperam novo premier, britânicos mostram desejo de voltar à União Europeia dez anos após o Brexit
Do outro lado, diversos países acreditam que a UE funciona melhor desde a saída do Reino Unido













