A ata da última decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central mantém os cortes dos juros na mesa e afasta a ideia de novas altas no curto prazo Os juros futuros encerraram o pregão desta terça-feira (23) em forte queda em meio aos ajustes nas expectativas dos investidores para a taxa Selic, após a ata da última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manter os cortes na mesa e afastar a ideia de novas altas do juro básico no curto prazo. Além disso, houve uma descompressão de prêmios de risco que foram acrescidos à curva na semana passada, por conta de pontos do comunicado do Copom que causaram ruídos no mercado e foram melhor esclarecidos na ata. Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2027 cedeu de 14,215%, do ajuste da véspera, para 14,185%; a do DI de janeiro de 2028 caiu de 14,70% a 14,53%; a do DI de janeiro de 2029 recuou de 14,775% para 14,63% e a do DI de janeiro de 2031 foi de 14,715% a 14,58%. Na ata da reunião deste mês, o Copom manteve o seu diagnóstico conservador para as condições econômicas, reconhecendo um balanço de riscos com assimetria altista para a inflação e a deterioração recente das expectativas, que se afastam cada vez mais da meta de 3%. Mas, ao mesmo tempo em que não indicou de forma clara se prosseguirá com o ciclo de cortes da Selic, afastou a possibilidade de uma virada brusca da política monetária que leve a novas altas de juros, como o mercado precifica na curva a termo de juros. Ao julgar como “mais adequadas” trajetórias de Selic que não se distanciem das expectativas dos agentes econômicos por não adicionarem “volatilidade excessiva” aos ativos e indicadores, o BC revelou uma postura mais acomodadora que evita reagir de forma tempestiva aos atuais choques de oferta que atingem a economia, avalia Luís Cezario, economista-chefe da Asset 1. Para ele, a próxima decisão do Copom, em agosto, será “apertada” entre a manutenção da Selic em 14,25% ou um novo corte de 0,25 ponto percentual, e dependerá da evolução do cenário até lá. Por ora, na sua avaliação, o comitê demonstra certa preferência por prosseguir com os ajustes, a menos que haja uma nova deterioração das expectativas de inflação até lá. “Há duas mensagens importantes na ata: a primeira é que o BC não parece ter planos de subir os juros, e não está confortável com o que o mercado coloca na curva; e a segunda é que o comitê vê muitas incertezas e choques de oferta e, por isso, não precisa ‘reagir integralmente’, justificando o corte (da semana passada) e também deixando em aberto a próxima decisão”, diz Cezario. A mensagem do Copom se refletiu nos preços de mercado, e os investidores reduziram a precificação de alta da Selic no curto prazo — agora, a curva a termo indica um juro básico abaixo de 15% em meados do ano que vem. Já no mercado de opções digitais, a probabilidade de um novo corte em agosto subiu de 27% a 31% — ainda bem abaixo, contudo, da chance de 61% de manutenção da Selic. Sobre o ponto mais controverso do comunicado do Copom da semana passada, em que o comitê diz que “cenários alternativos” para a taxa Selic entregam a meta de inflação no primeiro trimestre de 2028, um trimestre à frente do horizonte relevante utilizado na reunião passada, Cezario entende que a ata esclareceu que o Copom não vai passar a trabalhar com uma convergência mais longa da inflação. Na prática, isso afasta os questionamentos recentes do mercado acerca da função de reação e da credibilidade do BC. “A única coisa que ele está dizendo é que tem muita incerteza no cenário, com choques que já aconteceram e outros que estão por vir, e por isso pondera que não vai reagir de forma tão intensa às projeções de inflação na vírgula. Vai manter a flexibilidade por causa da natureza da piora das projeções”, explica Cezario. Por outro lado, com as expectativas de longo prazo acima da meta, o economista diz que é justo que o mercado questione se o momento atual é o mais adequado para acomodar os choques de oferta ou se o Copom deveria adotar uma postura ainda mais conservadora a fim de frear a deterioração destas expectativas. “Eles optaram por não ser mais duros. Há um sinal de preferência por acomodar um pouco esse choque de oferta, mas sem estender o horizonte relevante”, conclui. — Foto: Declan Sun/Unsplash