Enquanto o craque hermano empilha recordes com a leveza de quem já não deve nada, o Brasil transformou o passado em cobrança e a abundância em fome permanente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Messi assumiu a artilharia histórica da Copa do Mundo nesta segunda — Foto: Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/06/2026 - 08:57 Argentina Desfruta Futebol Leve; Brasil Encara Pressão Constante A Argentina joga com leveza e desfruta do futebol após conquistas recentes, enquanto o Brasil transforma sucesso passado em cobrança constante. Messi brilha, acumulando recordes, e a seleção argentina joga sem o peso da obrigação, diferentemente do Brasil, que vive sob a pressão de vencer sempre. A serenidade argentina, com Messi livre para errar, contrasta com a fome insaciável do Brasil por vitórias. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na semana passada, antes da estreia da Argentina, escrevi na newsletter Que Jogo É Esse — que o leitor pode assinar no site do GLOBO — sobre uma ideia que me incomodava como rival: eu invejava a capacidade dos argentinos de desfrutar. Não de jogar, ganhar ou ter Messi. De desfrutar. Sete dias e cinco gols dele depois, minha inveja só aumentou. Não sou desses brasileiros que adotaram a Argentina como segunda seleção. Sempre achei essa moda esquisita. Gosto de rivalidades. Torcer a favor é delicioso, mas torcer contra também tem seu charme. Novela, política e futebol precisam de antagonista, e poucos foram tão importantes para a identidade futebolística de um país quanto Brasil e Argentina foram um para o outro. O que me inquieta nesta Argentina é a leveza. Foram 36 anos sem uma Copa e 28 sem um título, entre finais perdidas, eliminações traumáticas e pressão sobre Messi. Mas, enquanto as taças não vinham, os argentinos preservaram algo que nós fomos perdendo: o vínculo entre torcida e seleção. A equipe perdia, e o amor continuava ali. Às vezes, até crescia. Quando a Copa América 2021 chegou, seguida pelo Mundial de 2022, a sensação não foi apenas de alívio. Foi de recompensa. Como se uma longa e sofrida história de amor tivesse encontrado seu casamento de final de filme. E a lua de mel não acabou. A Argentina desembarcou nesta Copa como quem estende a comemoração da anterior. Messi já tem sua taça. Scaloni está na história. A geração escreveu seu capítulo. Claro que quer ganhar de novo. Nenhum argentino entra numa Copa para passear. Mas existe uma diferença enorme entre desejar um título e precisar desesperadamente dele. Os dois primeiros jogos transformaram essa impressão em imagem. A Argentina fez 3 a 0 na Argélia e 2 a 0 na Áustria. Messi marcou os cinco gols, assumiu sozinho o posto de maior artilheiro da história das Copas e virou o personagem principal do torneio. A Copa, até aqui, é da Argentina; e a Argentina é de Messi. Contra os austríacos, ele ainda perdeu um pênalti antes de marcar duas vezes. Nem o erro parece pesar. É como se a seleção, depois de sobreviver à obrigação de vencer, tivesse conquistado até o direito inalienável de errar. O Brasil viveu o caminho inverso. Fomos a três finais entre o tetra e o penta. Ganhamos duas Copas em oito anos, além de uma coleção de títulos. Mas transformamos abundância em fome permanente. Cada eliminação virou tragédia, como se fosse obrigação de quem ganhou um dia vencer para sempre. Fizemos do passado uma cobrança, não um patrimônio. Muita gente talvez já não se lembre de como comemorou os gols de Ronaldo contra a Alemanha, mas guarda perfeitamente o rosto do vilão da última derrota. E aqui mora o perigo. A serenidade é uma aliada poderosa neste esporte. Na Argentina, ela se soma a uma comissão técnica longeva, um elenco que se conhece de olhos fechados, uma identidade consolidada e Messi, às vésperas de completar 39 anos, começando a Copa como se o tempo fosse um adversário comum. Na edição mais recente da newsletter, tentei organizar o espanto em um texto que chamei de “Os 12 trabalhos de Messi”: foram seis recordes batidos e seis ampliados numa tarde. Hércules precisou cumprir 12 trabalhos para conquistar a imortalidade. Messi fez os seus aos 38 anos, quando, em tese, já não precisa provar nada a ninguém. A lista já nasceu sob ameaça. Toda vez que terminamos de registrar um feito, ele marca outro gol e obriga a ampliar os recordes, os textos e os espaços. Messi já não cabe em um só lugar. Precisa estar no papel, na newsletter, no site, onde for possível contar o que está fazendo. Mas o que mais amedronta um brasileiro não cabe nas estatísticas: é que uma seleção que já realizou seu maior sonho passa a jogar sem medo de despertar. E Messi, livre até para errar, continua sonhando acordado.