Não é Messi, a taça ou o futebol. É a forma como os argentinos aprenderam a perder... e, agora, a ganhar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Argentina conquistou a Copa do Mundo de 2022 — Foto: Kirill KUDRYAVTSEV / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/06/2026 - 11:16 Argentina Celebra Jornada no Futebol, Brasil Sente Pressão de Vitória O artigo reflete sobre a forma como os argentinos aprenderam a lidar com derrotas e vitórias no futebol, destacando a capacidade de desfrutar a trajetória, mesmo em meio a fracassos. A Argentina, após anos sem títulos, preservou um forte vínculo emocional entre torcida e seleção, culminando em conquistas recentes que trouxeram serenidade. Em contraste, o Brasil vive preso à obrigação constante de vencer, transformando passados gloriosos em peso. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Não sou desses brasileiros que adotaram a Argentina como segunda seleção. Confesso que sempre achei um pouco esquisita essa moda. Gosto de rivalidades. Elas fazem bem ao futebol. Torcer a favor é delicioso, mas torcer contra também tem seu charme. Novela, política e futebol: para ficar interessante, é preciso sempre haver um antagonista. E poucos antagonistas foram tão importantes para a construção da identidade futebolística de um país quanto Brasil e Argentina foram um para o outro. E o motivo que me faz escrever esta primeira newsletter extra em tempos de Copa é simples: há algo neles que eu gostaria de ver um pouco mais em nós. A Argentina estreia nesta Copa do Mundo carregando uma sensação que nós, brasileiros, parecemos ter desaprendido: a capacidade de desfrutar. Não apenas da vitória, mas também da própria trajetória. Foram mais de 28 anos sem conquistar uma Copa, 18 sem um título qualquer. Três décadas de finais perdidas, eliminações traumáticas e uma pressão crescente sobre Messi. Uma estreladíssima geração em jejum. Em muitos momentos parecia que a espera tinha se transformado numa obsessão nacional. Mas, curiosamente, enquanto os títulos não vinham, os argentinos conseguiram preservar algo importante: o vínculo emocional entre torcida e seleção. A equipe perdia, e o amor continuava ali. Às vezes, até crescia. Quando a Copa América de 2021 finalmente chegou, seguida pelo título mundial de 2022, a sensação não foi apenas de alívio. Foi de recompensa. Como se uma longa história de amor na baixa tivesse finalmente encontrado seu final feliz na alta. E é por isso que esta Argentina chega tão diferente hoje à Copa de 2026. Há algo de celebração permanente em torno daquela conquista no Catar. A impressão é que eles chegam a outro Mundial no fim de uma longa turnê comemorativa do último. Os amistosos preparatórios foram discretos, os adversários pouco empolgantes e o ambiente geral parece distante da ansiedade que costuma cercar candidatos ao título. É como se jogadores, dirigentes e torcedores compartilhassem o mesmo sentimento: aconteça o que acontecer daqui para frente, a missão principal já foi cumprida. Messi já tem sua Copa. Scaloni já entrou para a história. Essa geração já escreveu seu capítulo. Claro que eles querem ganhar de novo. Não há argentino, jogador ou torcedor, que entre numa Copa para passear. Mas existe uma diferença enorme entre desejar um título e precisar desesperadamente dele. O Brasil, por outro lado, parece ter vivido preso à lógica oposta. Fomos a três finais, conquistamos duas Copas em oito anos, em 1994 e 2002, além de uma coleção de Copas América e Copas das Confederações. Mas transformamos a abundância em fome permanente. Cada eliminação vira uma tragédia, como se fosse obrigação de quem ganhou um dia vencer para sempre. Cada campanha sem título passou a ser tratada como fracasso absoluto, mesmo quando não havia trabalho, geração ou sinal concreto de que aquele time pudesse ser campeão. Obcecados pelos fracassos recentes, transformamos o passado em obrigação e não em patrimônio. Ficamos tão acostumados a cobrar a próxima taça que talvez não tenhamos aproveitado devidamente a felicidade das anteriores. Passou tanto tempo que muita gente já esqueceu como comemorou o penta, mas ainda se lembra perfeitamente do rosto do vilão da última eliminação. E aqui mora o perigo, falando agora como rival. Porque a serenidade costuma ser uma aliada poderosa no esporte — a estreia nervosa do Brasil contra o Marrocos mostrou o outro lado dessa moeda. E, na Argentina, ela se soma a outros fatores bem concretos: uma comissão técnica que trabalha junta há anos, um elenco que se conhece de olhos fechados, uma identidade de jogo consolidada e, por mais veterano que esteja, Lionel Messi. Não sei se a Argentina será campeã novamente. Copa do Mundo é um torneio cruel demais para qualquer previsão tão ousada. Mas sei que existe algo ameaçador numa equipe que já conquistou tudo o que precisava conquistar e, por isso mesmo, entra em campo mais leve que as outras. Seria uma ironia cruel para nós. O Brasil, angustiado por não voltar a vencer. A Argentina, vencedora outra vez justamente porque soube suportar melhor os anos sem vitória e, depois, aprender a saborear a própria glória. Como rival, não gosto nem um pouco dessa possibilidade. Porque há algo inquietante numa seleção que já realizou seu maior sonho: ela passa a jogar sem medo de acordar.
Que Jogo É Esse: O que eu invejo na Argentina
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