Obras melhoraram áreas turísticas e houve abertura de mais negócios, mas alagamentos ainda afetam bairros pobres e hotéis não atingem lotação prevista Parque da Cidade, em Belém, erguido para a COP30; mais de R$ 5 bilhões foram aplicados na capital paraense e em seu entorno e 30 obras foram entregues — Foto: Alexandre Costa/Ag. Pará Em novembro de 2025, o Pará recebeu o mundo para um dos eventos internacionais mais importantes do ano, a COP30. A cúpula climática da ONU deixou para trás obras, recordes de turismo e uma projeção internacional sem precedentes para o Estado. Seis meses depois, o legado incontestável é a visibilidade. O desafio que se impõe agora é convertê-la em desenvolvimento duradouro - e fazê-lo chegar de forma equânime. Quando Belém foi selecionada para sediar o evento, a expectativa era tornar o Pará porta de entrada da Amazônia para turismo, negócios e investimentos, especialmente em bioeconomia. Mais de R$ 5 bilhões foram aplicados em Belém e seu entorno - “o maior investimento que já foi feito na capital e toda sua existência”, segundo Valter Correia, secretário extraordinário da COP30 no governo federal. Antes do início da conferência, 30 obras foram entregues - entre elas requalificação do complexo Ver-o-Peso e do Mercado de São Brás, Porto Futuro II, parques da Cidade e Linear da Tamandaré, modernização do aeroporto e o Terminal Portuário de Outeiro para receber navios de cruzeiro. “Esse é um conjunto de investimentos que vai muito além do que foi para conferência”, diz Correia. Obras de macrodrenagem e saneamento, uma das maiores necessidades para quem vive na cidade, ainda estão em fase de conclusão. O BNDES investiu R$ 1,5 bilhão em intervenções em 12 canais na periferia de Belém, dos quais 7 já foram entregues. Quando concluídas, essas obras devem beneficiar mais de 500 mil pessoas. “A COP fez com que Belém pudesse sair da invisibilidade aos olhos do mundo e de todos”, diz o prefeito Igor Normando. “Lógico que o pós-COP é desafiador porque o evento passa, mas os gargalos de uma cidade amazônica ficam.” O limite do legado urbano ficou evidente em abril. Uma chuva de 150 mm em 24 horas, a maior em dez anos, transbordou córregos, deixou 42 mil desabrigados e levou o governo a decretar estado de emergência. Um dos bairros mais atingidos foi o Tapanã, onde um projeto de macrodrenagem deveria ter sido iniciado em 2024, mas foi interrompido por problemas no projeto da gestão anterior. “As reformas feitas para COP melhoraram muito a estética da cidade, porém não solucionaram o principal problema, que são os alagamentos”, diz Fabiano Moraes da Silva, morador de Tapanã que teve sua casa afetada. A prefeitura anunciou em maio a retomada das obras de macrodrenagem local. O prefeito diz que a COP trouxe obras estruturantes, mas reconhece ser preciso avançar após décadas de crescimento sem planejamento urbano. “Não é uma tarefa que se faz da noite para o dia, mas é algo que a gente precisa enxergar com olhar de futuro.” Suane Barreirinhas, liderança da Vila da Barca, comunidade de palafitas no centro da cidade, expõe o legado desigual. Enquanto a Nova Doca era construída ao lado, uma estação de tratamento de esgoto foi erguida na comunidade para atender bairros nobres vizinhos. Vila da Barca não foi conectada, e a rede de esgoto prometida para abril ainda não havia sido entregue em maio. “É fato que a COP trouxe algumas melhorias, mas a gente está vivendo um pós-COP onde as coisas estão se mostrando. Hoje não tem recurso na cidade, que está um deserto, um grande vazio”, afirma Barreirinhas. O setor privado no Estado é alavancado obviamente pela COP” Para Correia, os investimentos na capital transformaram-se em “um verdadeiro motor de crescimento”. Citando estudo realizado pela FGV em parceria com o governo do Pará, ele afirma que foram movimentados quase R$ 12 bilhões, com geração de 12 mil postos de trabalho diretos e indiretos: “Mais de 72% dos ganhos econômicos permaneceram no Estado”. O governo estadual busca atrair mais público com um plano de captação de grandes eventos voltado para esportes, turismo, ciência, cultura e bioeconomia. No entanto, para Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador da rede de hotelaria Vila Galé, a visibilidade do Pará como destino turístico ainda precisa se concretizar. O hotel inaugurado em outubro de 2025 com investimento de R$ 180 milhões ficou lotado na COP, mas opera hoje com ocupação de 30% a 40%. A meta de 50%, projetada para 2026, deve ser alcançada apenas em 2027. “Não vou mentir dizendo que Belém está cheia de turistas, mas nota-se que houve uma melhoria do destino e da procura - só que também há mais hotéis”, afirma. “O que falta em Belém é não ficar convencida de que bastou a COP, mas continuar trabalhando para alimentar essa demanda." Por outro lado, a ilha do Combu, polo gastronômico e cultural que foi uma das áreas mais visitadas durante a COP, ganhou mais clientes mesmo após a conferência. “Agora a gente também vê mais pessoas querendo fazer projetos voltados para a comunidade e para o entendimento do que temos aqui da bioeconomia do que antes”, diz Daniele Raiol, presidente da Associação das Mulheres Extrativistas do Combu (AME). Mas investimentos em setores mais intensivos, como a indústria, ainda enfrentam resistência do setor privado por questões de logística e conectividade, reconhece Camille Bemerguy, secretária-adjunta de Bioeconomia do Pará. “O desafio que a gente tem para a bioeconomia é a escala e a comunicação de que isso é uma oportunidade única no Estado", diz ela. “Existem alguns gargalos que interferem desde o micro e pequeno empreendedor”, diz Alex Carvalho, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa). “A competitividade dos nossos produtos precisa ser tamanha a ponto de vencer as distâncias e encontrar os grandes mercados consumidores”. Ainda assim, o Observatório da Indústria da federação identificou impacto líquido de 37% a mais na abertura de empresas em oito setores estratégicos em comparação ao cenário sem o evento. “O Pará se consolida como porta de entrada da Amazônia”, afirma Carvalho. Segundo a diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, o investimento privado no Pará saltou de R$ 6,7 bilhões para R$ 17,44 bilhões quando comparado o período do governo anterior ao atual. “O setor privado no Estado é alavancado obviamente pela COP, mas também por outros interesses”. “Nós não éramos vistos. E agora começamos a ser vistos”, resume o prefeito Normando. “O grande desafio é que essa visibilidade se transforme em ações concretas. Já vieram muitas [empresas], mas a gente acredita que pode vir mais.”
Belém ainda precisa transformar visibilidade em legado concreto
Obras melhoraram áreas turísticas e houve abertura de mais negócios, mas alagamentos ainda afetam bairros pobres e hotéis não atingem lotação prevista








