Os economistas discordam sobre a elevação da meta de inflação, mas concordam sobre a necessidade do ajuste fiscal de forma urgente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Economia brasileira — Foto: Montagem com fotos Agência O Globo e Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/06/2026 - 20:57 Economistas debatem ajuste fiscal e meta de inflação no Brasil Economistas divergem sobre aumentar a meta de inflação de 3% para 4,5%, enquanto há consenso sobre a urgência do ajuste fiscal. Sérgio Werlang defende a elevação, já Arminio Fraga prefere alongar o prazo de convergência para evitar uma crise de crédito. Bráulio Borges considera a discussão um tabu necessário. A redução do gasto público é vista como essencial para cortar juros e estabilizar a economia. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO É uma boa ideia aumentar a meta de inflação para 4,5%, em vez dos atuais 3%, ou essa é uma proposta inflacionista? O economista Sérgio Werlang, que implantou o sistema de metas de inflação em 1999, defendeu que seja elevada. Arminio Fraga, que era presidente do Banco Central quando foi adotado o sistema, discorda de Werlang. Prefere que se discuta o “alongamento da convergência”, ou seja, que o prazo para que a meta seja atingida seja maior do que os atuais 18 meses. Arminio teme uma crise de crédito. O economista Bráulio Borges me disse que a mudança da meta é a discussão que ninguém gosta de ter, e a chamou de tabu. A ideia de mudar a meta pode parecer equivalente a trocar o termômetro para ver se a febre cai. Em ano eleitoral, com a inflação em alta, ameaçando ser 5%, e com o governo federal, estados e municípios ampliando os gastos, a proposta pode parecer uma forma de aceitar mais inflação. O economista Sérgio Werlang, em entrevista ao Estado de S.Paulo de ontem, defendeu a mudança com o argumento de que “a meta de inflação de 3% não tem a menor condição de funcionar”. Arminio Fraga, que foi chefe de Werlang no Banco Central, na época da implantação do sistema de metas, há 27 anos, não gosta da ideia. — O Sérgio (Werlang) é competente, mas não acho que é uma boa proposta. Normalmente quando se adota o aumento da meta o resultado é instantaneamente aumentar a inflação. O melhor seria, e também correndo algum risco, alongar um pouco o horizonte de convergência. Mas isso na expectativa de que a política fiscal vai entrar em campo, porque senão a gente está num caminho que vai acabar mal. Bráulio Borges acha que nunca se fez uma discussão adequada sobre o tema. A meta era 4,5% e foi reduzida para 3% no governo Michel Temer. Se a meta fosse 4,5%, a inflação estaria abaixo no chamado “horizonte relevante”, ou seja, 18 meses à frente, e os juros poderiam cair mais. O Banco Central mira esse tempo de um ano e meio ao tomar suas decisões. Borges acha que a discussão sobre a mudança da meta será bem-vinda quando vier. — Nunca se fez uma discussão séria e adequada para definir se 3% realmente é uma meta para um país como o Brasil que tem o fiscal ainda muito frágil, que tem várias outras questões de indexação. Em 2018, tomou-se a decisão de reduzir a meta para 3%. Muita gente hoje acha que foi um erro, inclusive no mercado financeiro. Mas essas pessoas preferem não falar publicamente, pelo medo de serem taxadas de heterodoxas, de inflacionistas. Eu sou favorável ao regime de meta de inflação, sou favorável à autonomia do Banco Central, mas acho que a nossa meta de inflação de 3% é muito baixa. Na verdade, cada um tem um ponto. Pode-se discutir a mudança, mas agora seria ilusório e arriscado. No fundo tanto a proposta de Werlang (subir a meta) quanto a de Arminio (alongar o horizonte de convergência) permitiriam reduzir a Selic. Porém, a forma mais eficiente de cortar juros é diminuir o gasto público. E as despesas têm aumentado este ano. O país terá que fazer um ajuste fiscal no ano que vem. Arminio teme uma crise de crédito, ou seja, uma onda de inadimplência generalizada. — Do lado do crédito, a coisa começou com as famílias, tem aí 80 milhões, 90 milhões de inadimplentes, isso é um número estratosférico. Pegou o varejo na sequência. No fim, essa crise de crédito vai chegar no governo. A sequência é: famílias, varejo, empresas em geral e governo. O economista Mansueto Almeida, em entrevista recente, me disse que incluindo tudo, mesmo os itens que o governo tem deixado fora da conta fiscal, o déficit primário deste ano será de 0,4% do PIB. No primeiro ano, foi de 2,4%. Há contas mais pessimistas no mercado, e há uma grande concordância de que o país teria que ter superávit primário. Em resumo, os juros estão altos e isso alimenta uma crise de crédito, o que é muito perigoso. Alguns economistas admitem que houve avanços na política fiscal, como o arcabouço, por exemplo. Só que tantos itens de despesa têm ficado fora da estatística que o instrumento está perdendo a credibilidade. Entre eles, o gasto tributário, que precisa ser reduzido. Voltar a meta de inflação para 4,5% pode até ser uma discussão relevante, mas não em ano eleitoral, e não sem enfrentar o problema das contas públicas, como o próprio Werlang alertou.