No podcast, Luciana Batista, hoje no comando da Coca-Cola, fala sobre os desafios que moldaram sua liderança Para Luciana Batista, nossas trajetórias de carreira não são como uma linear crescente. Elas têm altos e baixos. “Muitas vezes, no longo prazo, a resiliência aos erros e a momentos difíceis faz mais diferença do que o tamanho dos acertos”. Ela diz que também não é preciso tirar dez na profissão o tempo todo. Em 2023, ela assumiu a presidência da Coca-Cola no Brasil, quarto maior mercado da companhia no mundo. É a primeira mulher a ocupar o cargo, onde lidar com desafios faz parte das ferramentas de trabalho. Há três anos, enfrentou, por exemplo, o fechamento da planta de mil funcionários da multinacional de bebidas no Rio Grande do Sul, durante as chuvas que devastaram o estado. “Nunca na história da empresa uma fábrica ficou debaixo d’água por um mês”, relata Batista para Stela Campos, editora de Carreira do Valor, e Thiago Barbosa, gerente de produtos digitais da CBN, no podcast “CBN Professional”. Foi um momento marcante porque é uma história de gestão de crise, destaca. “Ninguém foi demitido nesse período, mesmo com a unidade fora de operação durante tanto tempo. Isso fala sobre pessoas. De mapear como cada funcionário estava e como a gente apoiaria as famílias.” A preocupação com o pilar social faz parte da trajetória da gestora, graduada em administração, com extensão na European School of Economics, na Itália, e dona de um MBA pelo Insead, na França e em Cingapura. Quando estava na Bain & Company, onde ingressou como consultora e saiu como sócia sênior, liderou um projeto de inclusão feminina no mercado de trabalho que cobria toda a América do Sul. “Primeiro, passamos muito tempo entendendo por que havia poucas mulheres nas consultorias”, conta. Aos poucos, fomos tirando barreiras de acesso, como recrutar profissionais apenas em faculdades de engenharia, historicamente ocupadas por alunos homens, explica. “Temos ótimos consultores que vêm da administração. Por que não expandir o recrutamento em cursos com maior equidade de gênero?” Batista diz que a iniciativa começou centrada nas mulheres, mas acabou beneficiando todos os funcionários da Bain. “Em algum momento, aprovamos a licença-paternidade estendida”, afirma. “Depois, a ação deixou de ser uma batalha só das executivas e passou a ser sobre um ambiente de trabalho bacana para todos.” Luciana Batista: “A maternidade tornou a minha carreira mais sustentável, porque aprendi a colocar limites” — Foto: Rogerio Vieira/Valor O clima de mudança envolveu a própria executiva, que decidiu construir uma família, mas sem largar a rotina corporativa. “Eu me perguntava ‘será que dá para conciliar um trabalho tão demandante, que eu adorava, com a maternidade?’”, reflete. Ela pensava que se for para ser mãe, era melhor agir logo, porque não iria mudar de empresa grávida, lembra. “Recebi apoio dos meus líderes, tive a primeira e depois a segunda filha.” A nova situação “mexeu” nas decisões profissionais de Batista. “A maternidade tornou a minha carreira mais sustentável porque aprendi a colocar limites. Eu queria estar em casa e ter tempo com as crianças”, sustenta. “Então, me tornei uma pessoa que prioriza melhor o trabalho, faz escolhas. Virei uma profissional menos ‘workaholic’, sabendo fazer o ‘balanço’ entre vida pessoal e o expediente. Não foi fácil o tempo todo, mas fui aprendendo.” Quando foi convidada para a Coca-Cola, acumulou a direção da companhia com a presidência do Instituto Coca-Cola, organização que objetiva contribuir com o desenvolvimento socioeconômico do país. “Dá gosto gastar tempo com ele porque é focado na formação de jovens e na empregabilidade”, explica. Na principal cadeira da fabricante global no país, Batista tem lidado com novos desafios, como o debate sobre as bebidas açucaradas, diante de uma demanda cada vez maior de opções saudáveis, e das peculiaridades do comprador brasileiro. “Temos que dar opções para o consumidor escolher algo que se adequa ao seu estilo de vida”, afirma. O Brasil tem liderado mundialmente o crescimento da Coca Zero, uma opção para quem busca redução calórica ou de consumo de açúcar, aponta. “E crescemos muito nas categorias que chamamos de ‘stills’ ou não carbonatadas [sem gás], como águas, sucos e chás.” Para quem está começando a trilhar uma carreira no mundo executivo, Batista, que também atua no Mover, programa de equidade racial, e é conselheira da Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil), recomenda autoconhecimento e resiliência. “Entendi que liderar era sobre não ser unanimidade, não agradar a todos”, sugere. Chefiar envolve escolhas difíceis e tomar decisões nem sempre unânimes, acrescenta. “Nós, mulheres, temos essa ‘formação’ de querer agradar a todo mundo. É libertador quando você entende que é preciso fazer coisas aderentes aos seus valores, ao que acreditamos ser o melhor para a companhia e às equipes, mesmo que, eventualmente, deixamos algumas pessoas frustradas no caminho.” No episódio completo do podcast, disponível no site da CBN, nos streamings Spotify e Apple Podcast e nos canais do YouTube do Valor e da CBN, Batista também fala sobre a influência dos pais, ambos físicos, na construção da sua carreira, e da importância da exposição à experiências internacionais - ela residiu na Europa e nos Estados Unidos. “Todas as vezes em que morei fora, aprendi algo novo. Não só sobre uma outra cultura, mas sobre mim mesma.”
‘Não é preciso tirar nota dez o tempo todo’, diz executiva
No podcast, Luciana Batista, hoje no comando da Coca-Cola, fala sobre os desafios que moldaram sua liderança











