O nível de precipitação atmosférica registado durante os meses de Janeiro e Fevereiro em toda a Península Ibérica, que debitou para as albufeiras públicas e privadas um confortável volume de água, está a alimentar as expectativas dos que aspiram ao alargamento das áreas para culturas regadas.Com o solstício de Verão à porta e os modelos meteorológicos a preverem mais uma onda de calor no Sudoeste da Península Ibérica, com temperaturas que podem ultrapassar os 40°C, as reservas de água nas albufeiras públicas monitorizadas pelo Sistema Nacional de Recursos Hídricos armazenavam, no dia 15 de Junho, 11.779hm³ (89%).“Se há mais água, tem de haver mais regadio”, sustentam os comentários no mundo rural alentejano e ribatejano, e até do outro lado da fronteira, na Extremadura espanhola.Mas, mesmo antes de o comboio de tempestades ter varrido a Península Ibérica, o Governo publicou o Despacho n.º 423-A/2026, de 14 de Janeiro, que oficializa o “aumento do volume das retiradas de água” em Alqueva, alegando a necessidade de “satisfazer as actuais necessidades resultantes da elevada adesão ao regadio”, dando corpo à reivindicação dos agricultores para ter acesso a maiores consumos de água.Assim, dos actuais 620hm³ (590hm³/ano para rega e 30hm³/ano para abastecimento público e industrial), o despacho do Ministério do Ambiente e Energia (Maen) e do Ministério da Agricultura (Magrim) veio reforçar o volume das captações para 730hm³/ano (dos quais 690hm³/ano destinados à rega e 40hm³/ano ao abastecimento público e industrial).Posteriormente, a 15 de Maio, o Governo decretou o levantamento de restrições ao licenciamento de furos em massas de água subterrânea no aquífero Moura-Ficalho, na Região Hidrográfica do Guadiana, e em todas as massas de água na Região Hidrográfica das Ribeiras do Algarve, medida que se tornou extensível às massas de água da Bacia do Tejo-Sado (margem esquerda). Também aqui foi permitido o acesso a novas captações, como reivindicaram as organizações de agricultores ribatejanas, que já regam cerca de 115 mil hectares a partir dos lençóis freáticos.O entusiasmo dos agricultores pela abundância de água mereceu uma chamada de atenção de José Núncio, presidente da Federação Nacional de Regantes (Fenareg). “Choveu bastante, mas não foi o dilúvio”, afirmou, destacando o lado positivo: “Deixaram a esmagadora maioria das barragens a transbordar.” O problema, reconhece o presidente da Fenareg, é que “só teremos água para ano e meio ou dois anos, se não chover, entretanto”, dando conta de que as barragens hidroagrícolas “não têm a capacidade de armazenamento que têm as hidroeléctricas”.Acresce ainda a constatação de que “há muito menos água para rega que nos anos 1970”. A explicação reside na área ocupada pelas culturas regadas, que “é mais do dobro” da que existia no final do século passado, um constrangimento que, para José Núncio, exige a “construção de mais barragens e a recuperação de muitas das que já temos”.Em reforço desse argumento, o presidente da Fenareg, que tem sido uma das vozes mais activas na defesa da construção de transvases e de novas barragens, alega que tanto a seca extrema como a escassez de água só podem ser combatidas com “uma interligação entre bacias hidrográficas”.Subsiste, contudo, uma aparente contradição, tendo em conta a informação publicada na estratégia nacional “Água que Une”, ao apresentar um diagnóstico da situação hídrica a nível nacional, bem como as previsões de consumos e disponibilidades futuras: “Portugal tem disponíveis perto de 51 mil milhões de metros cúbicos por ano de água, dos quais são captados anualmente 4324 milhões de metros cúbicos. Até 2040, está prevista uma quebra de 6% nas disponibilidades hídricas, acompanhada de um aumento de 26% nos consumos.” Os que defendem a instalação de transvases alegam que a água está mal distribuída, estando mais a norte que a sul, onde o seu consumo é muito superior devido ao regadio intensivo.Relatos de EspanhaDo outro lado da fronteira, na Extremadura, os apelos a mais regadio também se fazem ouvir. Julián Mora Aliseda, professor de Gestão Territorial da Universidade da Extremadura, descreveu ao PÚBLICO o quadro actual dos recursos hídricos na região espanhola: “Os últimos três anos, caracterizados por elevadas chuvas, geraram reservas significativas, sobretudo em sistemas fluviais como o Tejo e o Guadiana, o que nos permite considerar cenários para a expansão das terras irrigadas, aliados a sistemas que reduzam o consumo de água.”No entanto, as realidades hidrológicas, “por serem diferentes” em Portugal e Espanha, “devem ser analisadas à escala da bacia hidrográfica, e não em termos estritamente nacionais”, sugere Julián Mora, explicando como fundamenta a sua interpretação: “Portugal apresenta uma dependência estrutural dos contributos a montante [água vinda de Espanha], o que introduz uma assimetria na disponibilidade do recurso.”Daí que advogue “uma visão ibérica do sistema hídrico, onde a chave é a gestão conjunta, e não a disponibilidade isolada”. Já a ocorrência de sucessivas tempestades na Península Ibérica não é, na sua opinião, “um fenómeno anómalo”, mas sim uma “manifestação típica do regime climático mediterrânico com influências do Mediterrâneo continental (o caso espanhol) e oceânico (o caso português)”. Nestas circunstâncias, “os anos chuvosos podem concentrar uma parte significativa da precipitação anual em apenas alguns meses”, acentua Julián Mora.
Com as albufeiras cheias, sobe a pressão para expandir o regadio
Organizações de agricultores e investigadores acreditam que há recursos hídricos suficientes que justificam a construção de mais barragens e a expansão de novos blocos de rega.
Governo português aumenta limite de retirada de água em Alqueva (+110hm³/ano) e remove restrições a furos em aquíferos, respondendo pressão agrícola. Abundância é passageira (18 meses sem chuva esgota reserves): infraestrutura hídrica deficitária para 2× mais zona irrigada que em 1970.










