Com a chegada do Verão, a maioria das barragens portuguesas apresenta níveis de armazenamento entre 80% e 100% – mais precisamente, 59 albufeiras das 80 que semanalmente são monitorizadas pelo Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH).“A situação nas barragens é confortável para o Verão, para o consumo humano e para as actividades agrícolas, industriais e do turismo”, explicou em Maio a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, no decorrer de uma conferência de imprensa sobre os recursos hídricos nacionais. “Nós estamos na melhor situação de sempre. Nunca estivemos assim. Temos as albufeiras literalmente cheias”, garantia, por seu turno, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), José Pimenta Machado.No entanto, a referência a uma “situação confortável” já tinha sido observada no boletim publicado pela APA em meados de Junho do ano passado, sem que o país tivesse sido fustigado pelo comboio de tempestades que se registou entre Janeiro e Fevereiro deste ano. Naquela altura, curiosamente, a reserva de água superou em 194 hectómetros cúbicos (hm3) a que foi registada na última segunda-feira, contrariando, assim, a informação veiculada por Pimenta Machado, durante a conferência de imprensa há cerca de um mês.O volume de água contabilizado nas 80 albufeiras nacionais em meados de Junho do ano passado, 11.973 hm3 (90%), supera o que foi agora registado no boletim da APA de 15 de Junho de 2026, que apresenta uma redução para os 11.779 hm3 (89%). A capacidade total de encaixe das 80 albufeiras nacionais atinge os 13.238 hm3.Um outro dado interessante reside nos volumes de água armazenados este ano nas albufeiras a norte do Tejo (5909,3 hm3) e a sul (5772,1 hm3) — ficam de fora desta contagem apenas Fratel e Belver, as duas únicas barragens construídas sobre o leito principal do rio, com água em ambas as margens —, apesar de Alqueva apresentar, nesta altura do ano, um volume de armazenamento (3709 hm3 – 89%) inferior ao período homólogo do ano anterior (4015 hm3 – 97%).Números surpreendentes a SulUma situação invulgar verifica-se na bacia do Sado: nesta altura do ano, e a meia dúzia de dias do solstício de Verão, as dez albufeiras dispersas pela região mantêm uma reserva de água entre 80% e 100%.No entanto, as surpresas maiores residem nos volumes actualmente armazenados na albufeira de Monte da Rocha, que, durante mais de uma década, manteve cotas abaixo dos 20% e agora o seu volume atinge os 90%. Com esta reserva de água fica garantido o consumo humano por vários anos e também o abeberamento do gado numa região onde a pecuária tem um grande impacto económico e social, além do regadio, que já se alastra até à fronteira com a região algarvia.No Algarve, a albufeira da Bravura apresenta um quadro de abundância de recursos hídricos que, há dois anos, se considerava impossível de poder vir a ser observado, quando o espelho de água estava transformado num charco; agora, encontra-se praticamente cheia (95%).Um pouco mais a norte, a pouco mais de meia centena de quilómetros, estará terminado, por alguns anos, o pesadelo dos produtores de frutos vermelhos no perímetro de rega do Mira. A barragem de Santa Clara está praticamente cheia (97%). E, tal como nas albufeiras de Monte da Rocha e Bravura, o comboio de tempestades, desta vez, não se esqueceu da zona mais seca e árida de Portugal continental: a parte sul da bacia do Sado, a bacia do Mira e o barlavento algarvio.“Água para ano e meio a dois anos”É essa recuperação de Santa Clara que está agora a mudar as regras do jogo para quem depende da água do Mira para regar. Após vários anos de restrições no acesso à água, vai ser aplicado um novo modelo de distribuição hídrica no aproveitamento hidroagrícola do Mira, já na campanha de Primavera-Verão de 2026.A Associação de Beneficiários do Mira (ABM) publicou no seu boletim informativo, na passada semana, que o perímetro de rega “deixa formalmente de estar em situação de contingência devido à seca”, determinando, assim, que sejam levantadas “as restrições à rega que vigoraram nos últimos anos”.No entanto, as novas orientações na gestão dos recursos hídricos armazenados na albufeira de Santa Clara vêm acompanhadas de uma advertência: “O actual contexto de maior disponibilidade hídrica deve ser encarado como uma oportunidade para consolidar práticas eficientes, não para as abandonar”.Nas culturas permanentes e protegidas, “as novas inscrições para rega ficam sujeitas a aprovação prévia pela ABM e Autoridade Nacional do Regadio”, e só pode ser inscrita a área “que está efectivamente em produção e sujeita a rega”. Serão enviados avisos aos regantes quando atingidos 50%, 90% e 120% do volume atribuído; quando o agricultor estiver a consumir para além do contratualizado, “o fornecimento será suspenso”.Mas mesmo esta abundância tem prazo de validade. A maioria das barragens com fins agrícolas, mesmo quando cheias, “só garantem água para ano e meio a dois anos”, explicou ao PÚBLICO José Núncio, presidente da Federação Nacional de Regantes (Fenareg). A experiência que já acumula do contraste entre a abundância e a escassez de água, nomeadamente a sul do país, suscita-lhe uma premonição: “Agora falamos de abundância de água nas albufeiras, mas da próxima vez que o PÚBLICO me contactar será para falar da seca.”
Barragens públicas mantêm praticamente o mesmo nível a norte e a sul do Tejo
Pelo segundo ano consecutivo, as albufeiras públicas nacionais apresentam um volume total de armazenamento na casa dos 90%.











