Brasil sofre com ambiente propício à irresponsabilidade financeira, cuja solução passa por regras de ‘fair play’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A abertura da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos — Foto: Patrick T. Fallon / AFP A Copa do Mundo demonstra a importância dos times locais na descoberta de talentos futebolísticos. Mesmo que depois venham a disputar a inglesa Premier League, a alemã Bundesliga, a espanhola La Liga ou a francesa Ligue 1, os craques voltam à seleção nacional de seus países de origem na hora da Copa. Manter times financeiramente saudáveis, capazes de assegurar a reprodução desses talentos, tem sido um dos principais desafios do Brasil, cuja estatura nos gramados da Fifa tem enfrentado limites ditados pela capacidade das equipes locais. Por isso é saudável a evolução administrativa propiciada pelas regras conhecidas como fair play financeiro, similares às adotadas na Premier League ou na Ligue 1. O futebol passa a contar com uma espécie de “lei de responsabilidade fiscal”, com o objetivo de evitar arroubos de cartolas que compram reforços milionários, conquistam campeonatos, mas implodem as finanças do clube. As normas serão aplicadas pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), criada pela CBF como órgão autônomo para fiscalizar a gestão financeira dos clubes. Haverá um período de transição para o acerto de dívidas antigas, e inicialmente as sanções serão leves. Mas, da mesma forma como noutros países, a má administração financeira poderá levar à perda de pontos ou até ao rebaixamento. É imperioso, como disse ao GLOBO Caio Resende, primeiro diretor da Anresf, evitar a repetição do que aconteceu nos últimos dois anos: as receitas dos clubes aumentaram 35%, mas os gastos cresceram 40%, puxados por investimentos em contratações que deram um salto de 140%. O resultado é que a dívida consolidada dos clubes passou de R$ 7,8 bilhões em 2022 para mais de R$ 14 bilhões neste ano. Em 2021, por inspiração europeia, passou a vigorar no Brasil um outro modelo de gestão além do clube associativo: a Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Na Série A, clubes associativos ainda são maioria, e entre eles estão Flamengo e Palmeiras, equipes mais fortes nos campeonatos nacionais. Entre as SAFs estão Botafogo, Cruzeiro, Vasco da Gama, Bahia e Atlético Mineiro, em diferentes estágios de desenvolvimento. Os resultados da experiência brasileira com a SAF são ambivalentes. O Cruzeiro reorganizou as finanças, enquanto o Vasco se envolveu em disputa judicial com seu principal sócio na SAF depois de crise financeira. O Botafogo foi campeão brasileiro e da Libertadores depois que criou sua SAF, mas foi prejudicado por problemas financeiros na holding de que ela participa, a Eagle, e chegou a ser posto à venda em anúncio de jornal com outros times. O fair play financeiro, diz Resende, poderia evitar desequilíbrios como o ocorrido no Botafogo. As novas regras são um passo importante no rumo da profissionalização do nosso futebol e do consequente resgate de sua liderança no mundo.