Embora seja visto com naturalidade por alguns, uso de cannabis para induzir sono não é indicado 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pessoas buscam cannabis para aliviar os sintomas da insônia — Foto: Unsplash RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 20:38 Especialistas Alertam: Riscos do Uso de Maconha para Dormir O uso de maconha como indutor de sono, apesar de comum, não é recomendado por especialistas. A dependência de cannabis pode ser insidiosa, com muitos usuários subestimando os riscos. Cerca de 10% dos usuários desenvolvem transtorno por uso, número que aumenta entre os que consomem diariamente. A interrupção do uso pode provocar sintomas como insônia e irritabilidade. Além disso, remédios para dormir, como benzodiazepínicos, também apresentam riscos de dependência. A insônia deve ser tratada com alternativas não químicas, como hábitos de sono saudáveis e atividade física regular. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Outro dia, disse nas minhas redes sociais que sou contra a ideia de usar maconha como indutora do sono. O que veio depois me surpreendeu: o assunto gerou um engajamento enorme, muito além do que eu esperava, e isso me fez pensar que o interesse pelo assunto talvez seja bem maior do que poderia imaginar. Por isso, vale recorrer não só aos mais de 40 anos de experiência clínica em dependência química como também à ciência para trazer alguma luz a esse tema. Há muita desinformação quando se fala de dependência, e uma das maiores é que ela se dá em linha reta, ou seja, um dia se fuma um baseado, no outro dia dois, no terceiro três e assim por diante. Também é um equívoco imaginar que a maconha é necessariamente a porta de entrada para outras drogas. Se existe uma situação em que cada história conta algo diferente é nas dependências. No caso da maconha, a progressão é mais lenta do que a de outras drogas, e é justamente por isso que ela se torna traiçoeira. A frequência de uso é um dos maiores fatores de risco para a dependência, mas nem todo usuário se torna dependente. Estimativas apontam que cerca de 1 em cada 10 usuários desenvolva transtorno por uso de cannabis. O número sobe para perto de um terço a metade entre os que usam diariamente. Porém, esse caminho é irregular, individual e silencioso; daí o problema raramente ser notado quando ainda é pequeno. É importante entender o que caracteriza a dependência. Não se trata apenas da lógica “quanto mais se usa, maior o problema”. A questão central é outra: o que acontece quando a droga é retirada? Será que aquele baseado já se tornou necessário para dormir bem? Estudos mostram que aproximadamente metade das pessoas que fazem uso da cannabis com regularidade e depois param de usá-la costumam enfrentar inquietação, irritabilidade, entre outros sintomas, algo que chamamos de efeito rebote. Uma revisão de estudos científicos publicada em 2025 aponta que o sono — e aí está o paradoxo — é justamente o mais prejudicado quando se retira a maconha: além de levar mais tempo para dormir, dorme-se menos. E os sonhos costumam ser muito intensos ao ponto de geralmente perturbar. Ou seja: o desconforto causado pela interrupção do uso da maconha não é coincidência, é a própria dependência se revelando. E aqui nos vemos frente a outro paradoxo: a insônia causada pela abstinência é um dos principais motivos de recaída. Quem acha que apenas um baseado antes de dormir não faz mal, pode estar se expondo ao risco de, com o tempo, tornar-se dependente. Condenar a maconha não significa que dou aval aos remédios para dormir. Pelo contrário. Os hipnóticos, como os benzodiazepínicos e os indutores de sono mais modernos (alguns deles estão entre os mais vendidos, inclusive) podem causar tanta ou mais dependência. A tolerância aos benzodiazepínicos pode surgir em até duas semanas. Já a outra classe de drogas, chamadas de “z”, recebeu da Academia Brasileira de Neurologia um alerta vermelho no fim de 2025. Tanto a maconha quanto essas pílulas se baseiam no mesmo mecanismo perverso: podem até aliviar o sintoma hoje mas, no longo prazo, desorganizam o sono e prendem o usuário na dependência. Nada disso é pouco caso com quem não dorme. A insônia é um sofrimento real, e quem recorre ao baseado ou ao comprimido quase sempre está apenas tentando enfrentar mais um dia sem se sentir exausto. O ponto é lembrar que muitas vezes há outros caminhos que não pela via química. Por isso, vale investigar o que está roubando o sono. Será que essa pessoa tem hábitos regulares de sono? Pratica regularmente atividade física? Passa horas na tela antes de dormir? Não há fórmula mágica, mas quase sempre há alternativas que não dependem de uma substância que vai cobrar caro lá na frente.