Estudo australiano mostra que, apesar de melhorar indicadores do sono, a quetiapina reduz o estado de alerta e piora o desempenho em testes de direção no dia seguinte O horário de tomar cada remédio é um tema ainda muito discutido — Foto: Freepik RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/06/2026 - 11:20 Uso off-label da quetiapina para insônia eleva riscos à segurança Estudo da Universidade Flinders alerta sobre o uso off-label da quetiapina para insônia. Embora melhore a qualidade do sono, o medicamento reduziu o estado de alerta e prejudicou o desempenho em testes de direção no dia seguinte. Isso representa um risco à segurança, já que os usuários podem não perceber a sonolência residual, levantando questões sobre sua prescrição para problemas de sono. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Pesquisadores da Universidade Flinders, na Austrália, alertaram para a prescrição off-label, ou seja, uma finalidade diferente daquela que consta na bula, do antipsicótico quetiapina para casos de insônia devido ao seu efeito sedativo. Segundo um novo estudo conduzido pelos cientistas e publicado na revista científica Annals of the American Thoracic Society, a prática pode ter riscos. “Há uma crença crescente de que a quetiapina em baixa dose é uma forma relativamente inofensiva de ajudar as pessoas a dormir. Nossos resultados mostram que não é tão simples assim. Embora os participantes tenham dormido por mais tempo e acordado menos durante a noite, seus tempos de reação foram mais lentos e seu desempenho em um simulador de direção foi visivelmente pior na manhã seguinte”, diz a autora principal do trabalho, Cricket Fauska, doutoranda da Universidade Flinders, em comunicado. A quetiapina é um antipsicótico que atua em receptores de diferentes neurotransmissores no cérebro, como a dopamina e a serotonina, aprovado para o tratamento de esquizofrenia, transtorno bipolar e, em alguns casos, transtorno depressivo maior. Porém, devido à prescrição cada vez mais comum para casos de problemas para dormir, os pesquisadores australianos decidiram investigar se esse uso pode de fato ajudar e se há riscos para o indivíduo. Para isso, conduziram um ensaio clínico com 15 pacientes diagnosticados com apneia obstrutiva do sono e queixas para manter o sono. Os participantes passaram duas noites no laboratório da universidade, com um intervalo de uma semana entre elas. Numa, tomaram 50 mg de quetiapina antes de dormir e, na outra, receberam um placebo – sem saber quando estavam recebendo o remédio ou não, para evitar a influência nos resultados. Estudos completos do sono foram realizados durante a noite e, na manhã seguinte, os participantes realizaram uma tarefa em simulador de direção e um teste de vigilância para medir objetivamente o estado de alerta. Em comparação com o placebo, a quetiapina de fato reduziu o número de interrupções respiratórias durante o sono e melhorou a sua eficiência, sem piorar os níveis de oxigênio. No entanto, esse descanso melhor não se traduziu em um funcionamento mais alerta durante o dia. O uso do remédio provocou tempos de reação mais lentos, mais falhas de atenção e pior controle da direção durante a simulação, indicadores que são fortemente associados a um maior risco de acidentes no mundo real. “O que foi particularmente preocupante é que algumas pessoas não se sentiram especialmente sonolentas no dia seguinte, apesar de terem apresentado pior desempenho nos testes objetivos. Essa discrepância entre como as pessoas se sentem e como realmente funcionam representa um sério risco à segurança, especialmente quando se trata de dirigir”, afirma Cricket. O professor da Universidade Flinders Danny Eckert, autor sênior do artigo, avalia que os resultados dos testes suscitam questões importantes sobre as práticas atuais de prescrição do medicamento para casos insônia: “Nosso estudo mostra que, embora a quetiapina possa fazer o sono parecer melhor superficialmente, ela pode, na verdade, tornar as pessoas menos seguras no dia seguinte".