As versões sobre a postura de setores da esquerda durante o Mundial em meio a ditadura militar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cena do filme 'Pra frente, Brasil', que teve como pano de fundo a Copa de 70 — Foto: Reprodução Não foram 90 milhões em ação na histórica Copa de 1970, no México. Talvez um pouquinho menos. O filme de Roberto Farias (1932-2018), “Pra frente, Brasil” (o mesmo nome da música de Miguel Gustavo, espécie de hino oficial que embalava a campanha do tricampeonato do Brasil no Estádio Azteca), ajuda a explicar melhor o clima daqueles tempos. Com um elenco estrelado, formado pelo irmão do diretor, Reginaldo Faria, Antônio Fagundes, Carlos Zara, Natália do Vale, Cláudio Marzo, Elizabeth Savala, entre outros, o filme mostra a explosão de alegria nacional com os gols de Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres na final daquela Copa contra a Itália, enquanto, nos porões da ditadura, opositores eram presos, torturados e mortos. Temerosos de que a vitória da seleção fortalecesse ainda mais o regime comandado pelo general Emílio Garrastazu Médici, houve brasileiros que torceram pela Itália naquela partida. Segundo o historiador Carlos Fico, estudioso da ditadura militar (1964-1985), houve, sim, militantes de esquerda que torceram contra o Brasil como forma de não fortalecer o regime. Mas, segundo ele, foram poucos. O pesquisador conta que Lídia Guerlenda, antiga militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), revelou que houve essa orientação, “só que não há outros depoimentos que a confirmem”. A maioria dos relatos, prossegue ele, fala da impossibilidade de torcer contra, ainda que houvesse essa disposição, por causa da emoção causada pelos jogos da nossa seleção: “Alguns antigos presos políticos relatam que havia torcida nas prisões e celebração quando dos gols ouvidos em ‘radinhos’ de pilha”. O jornalista Cid Benjamin, tido como responsável pelo setor armado do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e que participou do sequestro, em 1969, do embaixador norte-americano Charles Elbrick, estava preso durante aquele Mundial: “Eu não consigo me lembrar de algum preso que tenha torcido contra o Brasil”. Aliás, para ele, essa história de torcida contra “tem mais lenda do que verdade”.. Cid conta que assistiu, no Dops do Rio, ao primeiro jogo do Brasil contra a Tchecoslováquia — vitória da seleção por 4 a 1 — na TV de um policial chamado “Milton”, que estava preso ali por corrupção e tinha regalias. Carlos Fico conta, entretanto, que entrevistou o então coronel Otávio Costa, chefe da Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP) durante o governo Médici: “Ele me disse que aproveitou o desempenho da seleção para fomentar a propaganda política do regime e garantiu que o famoso slogan ‘Ninguém mais segura este país’ foi dito pelo próprio presidente em relação ao time e aproveitado pela AERP”. Em tempo... Lançado em 1982, o filme “Pra frente, Brasil” foi distribuído pela Embrafilme, antiga estatal de fomento ao cinema. Ao tomar conhecimento disso, a ditadura demitiu seu presidente, o jovem diplomata Celso Amorim — este mesmo que, depois de ser ministro nos governos Itamar Franco, Lula e Dilma Rousseff, é hoje o principal assessor do presidente na área externa. Antes de ingressar na diplomacia, Amorim teve uma breve carreira cinematográfica. Trabalhou com Ruy Guerra em “Os cafajestes” e com Leon Hirszman em “Pedreira de São Diogo”, um dos episódios de “Cinco vezes favela”. Mas isso é outra história.