Quando a professora anunciou que ia apagar algumas das luzes da sala, eu senti o alívio de quem tinha chegado no limite do atraso, mãos frias do maio gelado paulistano no lado de fora. A partir dali, poderia cair meu filho na escola ou cair o governo de Cuba, e eu só saberia depois do "savasana" (posição do ioga).

Talvez essa fosse exatamente a sensação que mais buscava naquela aula e em todas de ioga que venho fazendo há alguns anos: a libertação, mesmo que efêmera, de um estado de prontidão.

Essa libertação é ansiada por motivos óbvios para mim, uma mulher 40+ nessa metrópole "relaxante", e editora na BBC News Brasil num país e num mundo em que se morre de tudo, menos de tédio.

Mas esse estado mental não dura nem perto de 60 minutos, no meu caso. São só alguns instantes, no meio do todo, em que uma postura ou outra funciona como uma rédea, forçando corpo e pensamentos a andar numa mesma linha.

No mais, eu sigo sendo um cartoon que vi na revista New Yorker, no qual uma mulher coloca a roupa para lavar mentalmente enquanto deitada no tapetinho no savasana, o momento de "entrega" final da ioga, deitado, "quando o seu corpo recebe todos os benefícios da prática".