Novidade implementada pela Fifa tem ajudado a alterar o rumo das partidas e recebido críticas por viés comercial 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Estádio de Houston durante a parada para hidratação no jogo entre Portugal e RD Congo, pela Copa do Mundo — Foto: Molly Darlington / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 18/06/2026 - 20:59 Pausas para Hidratação na Copa: Divisão entre Benefício e Interesse Comercial A introdução das pausas para hidratação na Copa do Mundo tem gerado divisões entre jogadores, técnicos e torcedores. Implementadas pela FIFA para proteger os atletas do calor, essas pausas fragmentam os jogos em quatro partes, permitindo ajustes táticos e abrindo espaço para inserções comerciais durante as transmissões. Embora alguns vejam benefícios táticos, a medida enfrenta críticas pelo seu viés comercial e é vista por muitos como desnecessária em temperaturas amenas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO É uma das bases do esporte: o futebol é um jogo disputado em dois tempos de 45 minutos. Certo? Não nesta Copa do Mundo. Com a justificativa de que era preciso proteger os jogadores das altas temperaturas e da umidade na América do Norte, a Fifa instaurou a pausa para hidratação. Por volta dos 22 de cada tempo, os jogadores ganham três minutos para beber água e respirar fundo. Mas o impacto vai muito além disso: o break tem fragmentado as partidas em quatro blocos e permitido que treinadores façam intervenções táticas fundamentais para a definição do placar. Tudo isso enquanto oferece às emissoras de televisão a oportunidade de faturar ainda mais com a exibição de anúncios. O torcedor brasileiro foi um dos primeiros a entender o impacto da novidade. No recorte inicial da partida de estreia, a seleção sofria com a pressão do Marrocos, que chegou a abrir o placar num momento de falha do sistema defensivo. Então veio a pausa para a hidratação, que permitiu ao técnico Carlo Ancelotti conversar com os jogadores e ajustar o que não estava funcionando. O Brasil, sem ser brilhante, cresceu na partida. E, poucos minutos depois, uma trama de Vini Jr. pela esquerda garantiu o empate que permaneceria até o fim. Aferir o impacto das pausas de hidratação não é um exercício de objetividade. Afinal, são muitas as variáveis que influenciam o desenrolar de um jogo — entre elas, o acaso. Mas O GLOBO mapeou ao menos uma dúzia de ocasiões, apenas entre os jogos da primeira rodada do Mundial, em que o intervalo de três minutos contribuiu para a alternância de domínio na partida ou para a construção de um gol. — Isso muda muito como trabalhamos durante o jogo — sentenciou Roberto Martínez, técnico espanhol à frente da seleção de Portugal. — O aspecto tático (surgia) antes do jogo, no intervalo e ao fim, para a próxima partida. Agora não. Há mais intervalos. Isso é revolucionário, porque o jogo passa a ter quatro partes. Não é minha função dizer se é bom ou ruim, mas em três minutos podemos trabalhar muitos aspectos táticos, como já vemos em outros esportes. Nesse sentido, ajuda muito ter contato com seus jogadores durante o jogo. Partidas como Escócia x Haiti e Alemanha x Curaçao também tiveram a pausa obrigatória como momento-chave. No primeiro confronto, o gol da vitória escocesa, marcado por John McGinn, saiu instantes após o mini-intervalo. Já na goleada de 7 a 1 dos alemães, encarada com naturalidade pela discrepância dos elencos, o jogo foi interrompido justo após o país do Caribe chegar ao empate. É provável que os europeus mais cedo ou mais tarde confirmassem seu favoritismo. Mas talvez o placar tivesse sido menos elástico se o ritmo de Curaçao não fosse cortado. Parada para hidratação no jogo entre Catar e Suíça — Foto: Fran Santiago / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP Reclamação do público A novidade não tem sido vista com bons olhos por vários dos atores envolvidos no jogo. Eles argumentam principalmente que, embora a pausa tenha sido pensada para conter situações climáticas extremas, ela acontece mesmo em dias de temperaturas amenas e em estádios que contam com cobertura ou climatização. O zagueiro da seleção holandesa Virgil van Dijk, por exemplo, acredita que a necessidade de paralisação deveria ser avaliada jogo a jogo. É um caminho parecido com o proposto pelo técnico argentino Mauricio Pochettino, que comanda os Estados Unidos na Copa: — Eu só gosto (da pausa) quando as condições são extremas. Quando elas são boas, acho desnecessária. Enquanto, dentro de campo, parece haver alguma divisão entre os que aprovam ou reprovam a medida, fora dele começa a se construir um clima de saia justa para a Fifa. Nos últimos dias, torcedores em diversos jogos passaram a vaiar a pausa para hidratação no momento em que ela era anunciada. Aconteceu na goleada da Noruega sobre o Iraque por 4 a 1, na terça-feira, nas vitórias da Inglaterra por 4 a 2 sobre a Croácia e de Gana por 1 a 0 sobre o Panamá, no dia seguinte, e durante os 4 a 1 aplicados pela Suíça sobre a Bósnia e Herzegovina, ontem, para citar alguns. Se os torcedores nas arquibancadas acreditam que sua experiência tem sido prejudicada, não muito diferente é o cenário para quem está em casa. Uma outra parcela dos descontentes com a nova interrupção apontam que, por trás do argumento do cuidado com os jogadores, está o interesse em encaixar novas inserções comerciais nas transmissões, algo permitido pela Fifa e explorado sobretudo na televisão americana. A Fox, principal emissora da competição no país, vem aproveitando cada segundo dos intervalos para exibir propagandas, às vezes passando o tempo previsto. Parada para hidratação no jogo entre Gana e Panamá teve vaias da torcida — Foto: Kevin C. Cox / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP — A movimentação da Fifa para permitir inserções comerciais durante as pausas de hidratação é mais um passo na americanização da gestão de ativos do futebol — explica Thales Rangel Mafia, gerente de marketing da Multimarcas Consórcios. — Historicamente, o esporte sempre enfrentou o desafio da fluidez: são 45 minutos de bola rolando com pouquíssimas janelas de respiro para as marcas. Sob a ótica do marketing, estamos transformando um tempo morto em uma oportunidade para os patrocinadores conversarem com um público que está com os olhos fixos na tela, aguardando o reinício do jogo. Momento de adaptação A pausa para mitigar os efeitos do calor não é uma novidade em si. Desde 2010 o Campeonato Carioca tem esse tipo de respiro. O que a Fifa faz agora é ampliar o espaço para intervenção e abrir margem para que ele seja monetizado. Se ele vai acabar rejeitado ou incorporado de vez, é cedo para dizer. Por ora, o período é de adaptação para todos. — É diferente. Não estou acostumado, porque nunca tivemos “quartos”. Como técnico, se você precisa da pausa, ela é boa. Se não precisa, então é ruim — admite o treinador da Nova Zelândia, Darren Bazeley. — Para quem vê pela TV provavelmente não é legal, porque você vê comerciais. Mas, como treinador, nos dá a chance de reunir os jogadores, acalmá-los, fazer ajustes...