As pausas obrigatórias de três minutos para hidratação adotadas pela Fifa nas partidas da Copa do Mundo estão se mostrando tão controversas quanto refrescantes. Jogadores se dividem quanto às interrupções, que alguns consideram prejudiciais ao ritmo do jogo, enquanto treinadores as veem como valiosos tempos técnicos. As pausas foram introduzidas após a escaldante Copa do Mundo de Clubes realizada nos Estados Unidos no ano passado, quando as altas temperaturas e a umidade sufocante geraram preocupações entre jogadores, treinadores e torcedores. As partidas terão pausas para hidratação por volta do 22º minuto de cada tempo, o que, na prática, divide o jogo em quatro períodos. “Acho que as pausas para hidratação são algo interessante porque eu estava assistindo a praticamente todos os jogos... Toda vez que entra um intervalo comercial, não é algo de que eu goste muito”, disse o capitão da seleção da Holanda, Virgil van Dijk, aos jornalistas. “Acho que, para os espectadores neutros assistindo pela TV, também não é ótimo. Então, se estiver realmente muito quente, obviamente faz sentido adotá-las. Mas, na minha opinião, é preciso analisar cada jogo individualmente”, acrescentou Van Dijk. Embora nem todas as partidas sejam disputadas durante o dia, as pausas para hidratação foram tornadas obrigatórias em todos os jogos da Copa do Mundo, em nome da equidade e da uniformidade. “Como jogador, isso pode funcionar de ambas as formas”, disse o belga Youri Tielemans. “Em algumas cidades, não faz tanto calor e talvez não fosse necessário. “Mas, no fim das contas, se você faz isso em algumas cidades, deve fazer para todos.” Intervalo para comerciais As emissoras têm permissão para interromper a transmissão ao vivo e exibir comerciais 20 segundos após o árbitro sinalizar a pausa para hidratação, mas devem retornar à cobertura da partida 30 segundos antes do reinício do jogo. No entanto, algumas emissoras, como a britânica ITV e a Telemundo, de língua espanhola, optaram por não exibir comerciais para preservar a integridade da transmissão ao vivo, permitindo que os torcedores acompanhem a interação entre jogadores e treinadores. Críticos afirmam que as pausas para hidratação também podem ter um efeito negativo sobre as equipes, afetando seu embalo durante a partida. A estreante Curaçao vivia um momento de sonho quando Livano Comenencia empatou contra a Alemanha na partida de estreia do grupo, aos 21 minutos. Pouco depois, porém, o árbitro sinalizou uma pausa para hidratação, permitindo ao técnico alemão Julian Nagelsmann reorganizar sua equipe, que acabou vencendo por 7 a 1. “Para mim, é mais uma pausa para instruções técnicas do que uma pausa para refrescar os jogadores, então considero isso muito importante”, disse o técnico da Bélgica, Rudi Garcia. “Talvez, se estivermos vivendo um bom momento, com um bom ritmo, isso possa interromper nosso fluxo de jogo. Também vamos observar isso. Mas, nos dois amistosos que disputamos... foi interessante poder transmitir algumas informações táticas à equipe”, disse Garcia. “Para mim, é algo muito positivo. Então, por exemplo, quando o clima está quente, essa pausa para hidratação sempre pode ser importante”, acrescentou. O técnico da França, Didier Deschamps, também afirmou que as pausas representam uma oportunidade para conversar com seus jogadores e “ajustar algumas coisas” antes da retomada da partida. Técnico da Espanha, Luis De La Fuente, dá instruções ao time durante pausa para hidratação no jogo contra Costa do Marfim em Atlanta (15/06) — Foto: REUTERS/Bernadett Szabo “Basicamente, passamos a ter quatro períodos de jogo. Os treinadores estão se adaptando a essa nova realidade”, acrescentou. Especialistas defendem pausas mais longas Por outro lado, especialistas da área médica acreditam que as pausas para hidratação são necessárias e que deveriam ser significativamente mais longas do que os atuais três minutos. “A pausa para hidratação em cada tempo precisa absolutamente ser superior a três minutos. Pelo menos cinco minutos para cada interrupção e, de preferência, seis”, afirmou Douglas Casa, diretor-executivo do Instituto Korey Stringer, que desenvolve estratégias práticas para prevenir mortes súbitas no esporte. O apelo por pausas mais longas surge em meio ao aumento das preocupações com os riscos relacionados ao calor, segundo Mike Tipton, do Laboratório de Ambientes Extremos da Universidade de Portsmouth. “Da forma como as coisas estão atualmente, e em parte devido ao aumento do estresse térmico ambiental provocado pelas mudanças climáticas, alguns dos locais que receberão jogos da Copa do Mundo de 2026 provavelmente ultrapassarão o limite recomendado de ‘alto risco’ relacionado ao calor — especialmente em partidas disputadas durante a tarde”, afirmou Tipton.