Acordo deixou para depois o mais importante: como garantir que o Irã não tentará produzir armas nucleares 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Donald Trump e Masoud Pezeshkian, presidentes de EUA e Irã, mostram termos assinados para trégua em guerra no Oriente Médio — Foto: AFP Não há como evitar a frustração diante do “memorando de entendimento” firmado entre Irã e Estados Unidos para um cessar-fogo no conflito que perdurou quase quatro meses. Logo depois dos primeiros ataques, Donald Trump dizia que não aceitaria acordo sem “rendição incondicional” do inimigo. Mas o texto do memorando, intermediado pelo Paquistão, está mais perto de uma rendição americana. Se é verdade que Estados Unidos e Israel derrotaram o Irã no plano militar, os iranianos impuseram custos econômicos que resultaram em concessões estratégicas fundamentais. De imediato, o memorando restabelece tráfego naval no Estreito de Ormuz e autoriza o Irã a retomar exportações de petróleo. Estipula alívio em todas as sanções impostas ao país, descongela ativos e promete um plano de reconstrução de US$ 300 bilhões. Para depois, fica o mais importante: como garantir que o Irã não tentará desenvolver armas nucleares — principal motivo para o início da guerra— e a inutilização do urânio já enriquecido com esse fim em poder dos iranianos. Dados a complexidade intrínseca a qualquer negociação nuclear e o retrospecto nada confiável do regime dos aiatolás, é improvável sair algo de concreto das conversas no prazo de 60 dias estipulado no memorando. Mesmo que saia, é difícil acreditar em desfecho muito diferente do acordo que Trump abandonou em seu primeiro governo — um acordo frágil e ineficaz para deter as ambições nucleares iranianas. O texto do memorando oferece ao Irã várias vias de escape e protelação, que certamente serão aproveitadas enquanto o regime se beneficia da retomada das atividades econômicas. A principal delas é o compromisso de fim das hostilidades no Líbano. O governo de Israel já declarou que não deixará o Sul do país enquanto julgar haver ameaça terrorista do grupo xiita Hezbollah, sustentado pelo Irã. E a influência americana sobre os israelenses tem limites. O regime islâmico sofreu baixas em sua liderança e no poderio militar, mas sobreviveu e demonstrou ao mundo competência e disposição para causar transtornos econômicos fechando o Estreito de Ormuz. Isso não significa, porém, que tenha saído vitorioso. Além da liderança dizimada, das instalações nucleares e militares destruídas, desmoronaram suas relações com os países da região que atacou. A estratégia de financiar grupos terroristas distantes para afastar combates de seu território fracassou. E a sobrevivência do regime em torno da Guarda Revolucionária pode se revelar instável sem sanções e inimigos externos para projetar a culpa pelos fracassos internos. No balanço, ninguém pode se dizer satisfeito. Os objetivos de Estados Unidos e Israel foram frustrados, e o Irã sofreu perdas dramáticas. Mesmo China e Rússia, que obtiveram benefícios no curto prazo, nada têm a ganhar com a instabilidade que abala seus interesses no Oriente Médio. Nas palavras do analista Will Todman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, a guerra expôs uma região em que cada ator pode impor custos aos inimigos, mas nenhum consegue impor ordem.