Nos momentos em que o mundo fica muito absurdo, é hora de encenar Samuel Beckett novamente. Com esse pensamento, a atriz Patrícia Selonk sugeriu à Armazém Companhia de Teatro uma montagem de "Dias Felizes", peça em que a personagem Winnie encontra em seus pequenos rituais diários uma forma de resistência contra o colapso.

Em uma superfície inclinada, Winnie, interpretada por Selonk, aparece enterrada até a cintura, no primeiro ato, enquanto lida com a luz do sol inclemente e a estridência de um sino que anuncia algo indecifrável. O fim dos tempos? A última chance de tentar ser feliz? No segundo ato, quando aparece enterrada até o pescoço, a luz diminui e a solidão parece mais intensa, mas a mulher segue viva.

O conteúdo da bolsa —uma escova de dentes, um batom, um espelho e um revólver— são o mote para as recordações da personagem que busca, entre o desespero e o sarcasmo, a atenção do único interlocutor possível, Willie, o companheiro silencioso, absorto e enigmático.

A sugestão da atriz foi feita ao grupo durante a pandemia, quando os artistas ficaram sem a possibilidade de dar continuidade a seus projetos e precisaram pensar em estratégias de sobrevivência. Uma das cenas de "Dias Felizes" chegou a ser registrada em vídeo na época, porém a peça só estreou para valer em maio do ano passado, no Rio de Janeiro.