[RESUMO] Maria Bethânia completa 80 anos nesta quinta (18). Em homenagem, José Carlos Capinan relembra a convivência com ela desde o começo dos anos 1960, em Salvador, ainda antes da explosão nacional da cantora com o show "Opinião". Rio inesgotável, que jorra muito além dos domínios da música, Bethânia alargou os estreitos caminhos de todos nós, escreve o poeta.
Tanta coisa pode definir Maria Bethânia. E nada será conclusivo. Aos 80 anos, ela tem uma permanente presença em nossa vida brasileira, que se identifica com a passagem de um inesgotável rio, e esse contínuo foi uma religiosa ação de devotamento à palavra, à religião da palavra, à sua liturgia e dramaturgia, que é exatamente a poesia.
Falar sobre Bethânia é atrevimento, tanto esse nome significa, tanto seu canto e sua arte simbolizam, tantos valores e sentimentos despejou em nossos caminhos, antes estreitos e hoje tão largos, desde sua voz e seus gestos.
Muito do que somos é consequência do que ela é, pois ofício e vida em Bethânia são a mesma coisa. Sua presença alterou os padrões de nossa sensibilidade, da percepção, do conhecimento do que somos. Sua postura foi determinante na emergência de novos comportamentos.
Ela ressignificou legados conservadores da arte brasileira, reposicionou valores críticos, moveu estruturas e signos com força suficiente para desconstruir montanhas de preconceitos sociais e alterar padrões de interpretar e ouvir canções, célula básica do nosso sistema de comunicação sociocultural, na sua expressão mais dinâmica, democrática e revolucionária: a música popular.











