Sinônimo de intérprete, de emoção viva, em um país de muitas cantoras, baiana sempre demonstrou rigor na escolha de seus repertórios — mas, ao longo dos anos, sua relação com autores foi ficando mais sofisticada e autoral 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A cantora Maria Bethânia — Foto: Divulgação “Toca Maria Bethânia pra ela, mostra que tu é intenso.” A frase da personagem Clara (Sônia Braga) no filme “Aquarius” (2016), de Kleber Mendonça Filho, dá um pouco a medida do espaço que a cantora baiana — esta quinta-feira celebrando a chegada aos 80 anos de idade — ocupa no imaginário (e nos corações) brasileiros. Bethânia é sinônimo de intérprete, de emoção viva, em um país de muitas cantoras (e, hoje, nem tantos cantores assim), no qual as canções foram se tornando, ao longo dos anos, a forma mais indicada para se comunicar o que quer que se queira. O palco (sempre, e já há algum tempo bem mais do que o disco, do que a gravação em estúdio) é onde Maria Bethânia existe, de fato — e onde ela escolheu comemorar, no ano passado, com muita teatralidade, os seus 60 anos de carreira, iniciada oficialmente num palco, quando ela chegou ao Rio de Janeiro para substituir Nara Leão no espetáculo “Opinião”. Em 2023, quando os 80 anos apontavam no horizonte, a cantora pôs os pingos nos is em entrevista ao GLOBO: — O que considero simbólico, e sempre festejei, são meus aniversários de estreia do show “Opinião”, minha estreia profissional. Isso, gosto de comemorar. Idade de nascimento, para mim, não tem essa potência. (Em tempo: missas, em Salvador, no Santuário Santa Dulce dos Pobres, e na sua cidade natal, Santo Amaro, na Basílica Nossa Senhora da Purificação, serão rezadas esta quinta pelo aniversário.) Maria Bethânia cita obstáculos para ampliar turnê: ‘Aeroporto, assalto, tiro... tá difícil!’ O amor, os sentimentos extremados, a natureza, a religiosidade e a brasilidade mais profunda são alguns dos temas que norteiam as canções que Bethânia escolheu cantar, no decorrer da carreira, em uma curadoria muito particular — que, por sinal, apresentou uma evolução bem clara, como vê Paulo Henrique de Moura, autor do livro “Maria Bethânia: primeiros anos”, lançado no início do ano. — Desde o começo, Maria Bethânia demonstrou rigor na escolha dos compositores e de seus repertórios, mas, ao longo dos anos, essa relação se tornou mais sofisticada e autoral. Se, nos primeiros anos, predominavam nomes ligados à sua geração e ao universo da canção popular brasileira, com o tempo ela ampliou seu campo de interesse, incorporando poetas, compositores de diferentes épocas e tradições musicais, estabelecendo diálogos cada vez mais complexos entre canção, literatura e dramaturgia — analisa. — Bethânia passou a construir verdadeiras narrativas a partir do repertório. Seu critério deixou de ser apenas a afinidade estética para alcançar uma curadoria profundamente conceitual, na qual cada compositor ocupa uma função específica dentro de um discurso artístico maior. Maria Bethânia chega aos 80 anos como a voz dos grandes compositores da música popular brasileira, a começar pelo irmão, Caetano Veloso. “Reconvexo” é a mais ouvida de Caetano em sua voz, e se destacou no repertório montado para o show que uniu os dois, nas arenas do país, entre 2024 e 2025. Já Chico Buarque (com quem ela gravou um mítico disco ao vivo em 1975) tem “Olhos nos olhos” e “Terezinha”, entre outros clássicos, em sua voz. E, a Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Bethânia dedicou um álbum inteiro, “As canções que você fez pra mim” (1993) — a faixa-título e “Fera ferida” se tornaram sucessos dela, até hoje muito ouvidos. Dos mestres que começaram em outras eras (e o seu próprio nome, Maria Bethânia, veio de uma canção de Capiba) a contemporâneos como Edu Lobo (a quem se juntou para lançar seu segundo LP, “Edu e Bethania”, de 1967), Gilberto Gil e Raul Seixas, a cantora fez da reverência aos compositores uma profissão de fé. E sem esquecer das compositoras, como Sueli Costa (“Coração ateu”), Dona Ivone Lara (“Sonho meu”), Adriana Calcanhotto e Vanessa da Mata, cuja “Força que nunca seca” (feita com Chico César) deu título ao álbum de Bethânia de 1999. — Ela se arriscou muito em me apoiar, me indicar, me auxiliar com a sua vida inteira de trabalho, nome, respeitabilidade. Uma mulher menina de 80 anos, meu Deus, que delícia isso! Cheia de vida, vitalidade, comemorando seu aniversário — festeja Vanessa. — Eu fazia músicas imaginando a Bethânia cantando e mudava palavras que eu achava que ela mudaria. Encaixava conforme a sonoridade e a poesia para vesti-la melhor na sua voz. Como uma costureira, bordadeira, eu ia fazendo muitas canções, como lindos vestidos, que então, com ela, encantavam, adulavam, resplandeciam, enalteciam e acordavam todo o salão. Chico César, um dos compositores mais gravados por Maria Bethânia nos últimos anos, lembra que sua relação com ela começou em Catolé do Rocha, no interior da Paraíba, numa loja de discos, Lunik, onde trabalhou dos 8 aos 15 anos: — Tem uma música que a Bethânia cantava: “Todo mundo vai ao circo/ menos eu, menos eu/ como pagar ingresso se eu não tenho nada/ fico de fora escutando a gargalhada” (“O circo”, de Batatinha, que ela gravou em “Drama”, de 1972). Essa música me marcou muito, até hoje me marca. Essa coisa dela de cantar pelo excluído, trazendo o excluído para o centro da ação... eu acho isso lindo, isso me contagiou e me contagia até hoje. Os cantores Chico César e Maria Bethânia, em 1996 — Foto: Marcelo Carnaval Chico César se recorda de enfim ter conhecido pessoalmente Bethânia nos anos 1990, na época de seus primeiros sucessos, no saguão do estúdio Mosh, em São Paulo. — Ela me pediu músicas, mandei cinco, duas das quais ela gravou no disco “Ambar” (de 1996), “Onde estará meu amor” e “Invocação”. E assim foi se estabelecendo uma relação muito bonita do compositor com a intérprete, a maior intérprete da música brasileira, sem sombra de dúvida — garante. — E não estou falando de cantora, estou falando de intérprete, que é algo num outro lugar. Bethânia é uma escola de ética, de estética, de opções do que fazer e do que não fazer, de como trabalhar com a indústria cultural sem ceder aos caprichos dessa indústria, fazendo o que a arte pede. Apontada pelo Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) como a música de Maria Bethânia mais tocada nos últimos cinco anos nos principais segmentos de execução pública (rádio, sonorização ambiental, casas de festa e diversão, show e música ao vivo), “Brincar de viver” é uma dessas surpresas do destino. A música foi gravada para o especial infantil “Plunct, Plact, Zuuum”, exibido pela TV Globo em 1983, e acabou levando para o repertório da cantora a presença de um dos reis do pop radiofônico brasileiro, Guilherme Arantes (autor da canção junto com o cantor americano de origem caribenha Jon Lucien). — “Brincar de viver” é um episódio à parte na minha história. Bethânia é uma joia do Brasil mais precioso. Uma intérprete fulgurante, um fenômeno multidisciplinar de música, poesia, teatro, artes cênicas, cinema... uma mulher-movimento. Ter uma música na voz dela, tão exitosa e mensageira, é o maior presente na trajetória do compositor — exalta Guilherme. ‘É como ganhar um Grammy’ Outro mestre da música radiofônica brasileira (muitas vezes deixada à parte quando se fala de MPB), Jorge Vercillo também caiu nas graças de Maria Bethânia — cantora que, ainda bem jovem, mas já cheia de personalidade, saiu em defesa de Roberto Carlos em meio às guerras culturais que opunham uma música brasileira legítima àquela tida como a que tentava imitar de forma servil os estrangeiros. — Ser gravado por Maria Bethânia, ter uma melodia e letra suas interpretada por “aquela voz” é como ganhar um Grammy, um selo de qualificação poética, melódica e harmônica, só que com uma audiência bem qualificada do seu enorme e seleto público — reconhece Vercillo. — Ela me deu a honra de cantar “O que eu não conheço” (parceria com J. Velloso), “Sensível demais” e uma parceria minha com a Ana Carolina: “Eu que não sei quase nada do mar”, uma balada flamenca que ganhou uma interpretação fortíssima da nossa Abelha Rainha. Cantor, compositor e mestre da MPB que, assim como Bethânia, completa 80 anos este ano (em 1º de julho), o pernambucano Alceu Valença também foi cantado por ela — em 1984, a baiana gravou sua “Na primeira manhã” e em 2024 dividiu os vocais com ele numa regravação de seu frevo “De janeiro a janeiro”. — Maria Bethânia é uma pessoa original. Ela tem a verdade dela, a interpretação dela é fantástica e a voz dela não parece com nada. Bethânia mergulha dentro das músicas que ela interpreta — resume Alceu. Ensaísta e crítico literário, além de compositor, José Miguel Wisnik fornece, por fim, a definição mais abrangente de Bethânia: a de quem está dos dois lados da canção: — Ouvir Maria Bethânia cantar uma canção que a gente compôs é absolutamente eletrizante. O mundo ganha vida nova, o universo se expande. Não é menos que isso. Até os títulos das canções vibram junto: “Cacilda!”, “Mortal loucura!”.
'A maior intérprete da música brasileira', 'uma joia', 'nossa Abelha Rainha': compositores contam como é ser gravado por Maria Bethânia, que faz 80 anos
Sinônimo de intérprete, de emoção viva, em um país de muitas cantoras, baiana sempre demonstrou rigor na escolha de seus repertórios — mas, ao longo dos anos, sua relação com autores foi ficando mais sofisticada e autoral









