Um professor não apenas transmite conteúdos. Ele sustenta infâncias. Talvez a sociedade só perceba isso quando restarem poucos para entrar numa sala de aula 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Professora dá aula em escola de Jacareí (SP) — Foto: Alex Brito/Prefeitura de Jacareí/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 17/06/2026 - 14:56 Escassez de Professores Ameaça Educação Básica no Brasil A crise na educação brasileira se agrava com a crescente escassez de professores, especialmente na educação básica. A sobrecarga emocional, a falta de reconhecimento e as condições precárias de trabalho afastam profissionais das salas de aula. Estudos revelam que muitos docentes consideram deixar a profissão, destacando a urgência de melhorias salariais, respeito e apoio para garantir a continuidade do ensino e o bem-estar dos educadores. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Durante anos, lutamos para manter crianças dentro das escolas. Agora, começamos a enfrentar algo alarmante: a falta de professores dispostos a permanecer nelas. Todos os dias, um professor entra numa sala carregando mais que conhecimento, planejamentos ou conteúdos; ele entra carregando esperança. Diante dele, estão 20, 30, às vezes 50 crianças e adolescentes diferentes, cada um com suas dores, limites, medos, histórias e possibilidades. E, silenciosamente, espera-se que aquele único adulto consiga ensinar, acolher, mediar conflitos, formar valores, perceber sofrimentos invisíveis e ainda sorrir ao final do dia. Talvez uma das maiores injustiças do nosso tempo seja a naturalização da presença do professor. Acostumamo-nos tanto a encontrá-lo diariamente que esquecemos o tamanho daquilo que ele sustenta. Em muitos casos, além da sobrecarga emocional, o professor ainda precisa provar diariamente seu valor. Precisa justificar sua autoridade, sua didática, suas decisões e até sua humanidade diante de famílias que, por vezes, transferem integralmente à escola responsabilidades que deveriam ser compartilhadas. Enquanto isso, as salas de aula começam a esvaziar-se de docentes. Em 2026, escolas de diferentes regiões do Brasil já enfrentam escassez preocupante de professores, especialmente na educação básica. O estudo Profissão Docente, realizado pelo Instituto Península em 2021, revelou que mais da metade dos professores brasileiros pensou em deixar a profissão depois da pandemia. A pesquisa Panorama da Educação, da OCDE, demonstrou a queda crescente no interesse dos jovens pela licenciatura. A pandemia ainda tem reflexos na vida das crianças e jovens que passaram pelo isolamento. O relatório Cenário da Infância e Adolescência no Brasil (2022), da Fiocruz, apontou aumento significativo de ansiedade, agressividade e sofrimento emocional entre estudantes depois do isolamento social. A Unesco, em Education in a Post-COVID World (2021), alertou sobre os impactos emocionais duradouros causados pelo fechamento das escolas. Dentro das salas, muitos professores enfrentam agressividade, desgaste psicológico e ausência crescente de tutores e auxiliares interessados em permanecer no ambiente escolar. Fora delas, migram para outras profissões em busca de dignidade emocional e financeira. E então surge a pergunta: quem desejará ensinar às próximas gerações? Talvez ainda haja tempo para reconstruir esse caminho. Professores da educação básica não desejam apenas melhores salários, embora isso seja urgente. Desejam respeito, apoio familiar, segurança emocional, condições dignas de trabalho e o direito de ensinar sem adoecer. Porque um professor não apenas transmite conteúdos. Ele sustenta infâncias. E talvez a sociedade só perceba isso quando restarem poucas pessoas dispostas a entrar numa sala de aula. *Carolina Paschoal, pedagoga, é gestora da Escola Pedro Apóstolo