Docentes, muitas vezes, concluem sua graduação sem uma imersão real, contínua e qualificada dentro das escolas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Governo criou regras para disciplinar o Ensino à Distância (EaD) em cursos de nível superior — Foto: Divulgação / MCTIC RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/07/2026 - 22:45 CNE Exige 50% de Formação Presencial para Professores no Brasil A recente atualização das diretrizes do CNE para a formação de professores destaca a necessidade de experiência prática nas escolas, criticando a formação predominantemente à distância. Com 3.200 horas mínimas e 50% presenciais, a medida visa enfrentar a desconexão entre formação acadêmica e realidade educacional. A crise no ensino reflete baixos salários e desvalorização social, afetando a atratividade da profissão. A solução exige mais do que diretrizes: é necessário investimento em formação e prática pedagógica. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A decisão recente do Conselho Nacional de Educação (CNE) de atualizar as diretrizes para a formação de professores reacende um debate urgente: quem está formando os profissionais que ensinarão as próximas gerações num mundo transformado pela tecnologia e pelas novas demandas sociais? Estamos diante de um modelo de formação que, em muitos casos, já não dialoga mais com a realidade educacional. As novas diretrizes aprovadas pelo CNE ampliam a carga horária mínima das licenciaturas para 3.200 horas e determinam que ao menos 50% da formação aconteça presencialmente. A medida surge junto ao crescimento acelerado da formação docente totalmente à distância — que gerou preocupação em diferentes setores da educação pela ausência de práticas consistentes e enfraquecimento da vivência nas unidades escolares. O debate é legítimo. Não se forma um professor apenas assistindo aulas à distância. A docência exige experiência humana. Exige presença. Mas a decisão do CNE ainda é insuficiente diante da dimensão do problema. O Brasil vive um momento preocupante. Grande parte dos cursos de licenciatura continua formando professores para uma escola que não existe mais. Em muitos casos, futuros docentes ainda saem da universidade sem preparo para lidar com tecnologias educacionais ou mesmo metodologias ativas de aprendizagem. Segundo dados do MEC, a modalidade EaD concentra parcela significativa das matrículas em licenciaturas no país. O crescimento acelerado ocorreu sem que houvesse mecanismos robustos de acompanhamento de qualidade e integração com a realidade escolar. Ao mesmo tempo, a profissão docente enfrenta perda de atratividade, baixos salários, sobrecarga emocional e desvalorização social. O resultado aparece nas estatísticas: menos jovens querem ser professores. A crise da formação docente não será resolvida apenas com novas diretrizes normativas. Sem investimentos em formação, pesquisa e prática pedagógica, o risco é uma reforma apenas burocrática, sem avanços reais na aprendizagem. Existe uma incoerência histórica que precisa ser enfrentada: não formamos médicos sem que passem pelos hospitais acompanhando a complexidade do cuidado humano. Mas formamos professores que, muitas vezes, concluem sua graduação sem uma imersão real, contínua e qualificada dentro das escolas. A docência se aprende também na experiência e na observação da sala de aula. Sem isso, continuaremos formando profissionais preparados apenas para uma escola teórica. Pouco se discute sobre como tratamos a inovação educacional como algo periférico. O mundo mudou. Mas a formação docente brasileira, em grande parte, ainda opera em lógica analógica. É impossível discutir o futuro da educação sem discutir profundamente o futuro da docência. A decisão do CNE é uma tentativa importante de reorganização do sistema, especialmente ao reforçar a centralidade da prática pedagógica e da presencialidade na formação inicial. Porém ainda revela ausência de enfrentamento mais estrutural. Como formar professores para atuar numa sociedade atravessada por algoritmos, plataformas digitais e inteligência artificial? Essa, talvez, seja a grande questão do nosso tempo. Porque a educação do presente não depende apenas de tecnologia. Depende, sobretudo, de professores preparados para humanizar a aprendizagem num mundo cada vez mais automatizado. Estamos falando da profissão responsável por formar todas as outras. O futuro da educação não será determinado pelos recursos digitais que chegam às escolas, mas pela capacidade humana dos professores que formarão as próximas gerações em meio às transformações do nosso tempo. *Débora Garofalo é professora e especialista em educação