Bancos centrais são atualmente os principais responsáveis pela alta demanda global por ouro — Foto: Reprodução/Barrick Mining Bancos centrais esperam que a participação do ouro nas reservas totais mantidas por essas instituições em todo o mundo cresça nos próximos cinco anos, enquanto as reservas em dólares diminuem, mostrou uma pesquisa do Conselho Mundial do Ouro divulgada na terça-feira, indicando uma mudança gradual em relação ao dólar. Setenta e seis bancos participaram da pesquisa, realizada entre fevereiro e maio, com a maioria das respostas chegando após o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, em 28 de fevereiro. Dentre os entrevistados, 84% esperam que a participação do ouro nas reservas totais dos bancos centrais seja maior em cinco anos, em comparação com 76% na pesquisa do ano passado. Enquanto isso, 74% preveem que a participação das reservas em dólares americanos caia no mesmo período. Os resultados da pesquisa ressaltam a tendência lenta, mas de longo prazo, de afastamento do dólar nas reservas dos bancos centrais. O ouro representava 27% das reservas totais mundiais no final de 2025, ultrapassando os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, de acordo com um relatório de junho do Banco Central Europeu. Os ativos denominados em dólares, incluindo títulos do Tesouro e outros, ainda representavam a maior parcela, com 42%. Essa mudança reflete, em parte, o papel cada vez mais importante de outros países além dos Estados Unidos na economia global. Mais recentemente, também surgiram preocupações com a sustentabilidade da dívida e a independência do banco central dos Estados Unidos (Fed). "Todos esses fatores podem estar na mente dos banqueiros centrais ao considerarem a composição das reservas cambiais no futuro", disse Shaokai Fan, chefe global de bancos centrais e chefe da região Ásia-Pacífico, excluindo a China, do Conselho Mundial do Ouro, ao “Nikkei Asia” Asia. A guerra entre Estados Unidos e Irã também pode testar o sistema do "petrodólar", no qual o dólar é usado para a compra e venda de petróleo. O sistema remonta a um acordo de 1974, no qual a Arábia Saudita concordou em precificar o petróleo em dólares e usar a receita para comprar ativos em dólares, em troca de garantias de segurança fornecidas pelos Estados Unidos. Embora já existissem pressões sobre o sistema antes do início da guerra, "o conflito atual pode expor novas fragilidades, ao desafiar a proteção dos Estados Unidos à infraestrutura do Golfo Pérsico e a segurança marítima para o comércio global de petróleo", escreveu Mallika Sachdeva, do Deutsche Bank, em um relatório de março, antes do mais recente acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, que aguarda assinatura oficial nesta sexta-feira. Embora os dados semanais divulgados pelo Fed indiquem que os bancos centrais podem estar vendendo títulos do Tesouro americano, eles continuaram comprando ouro mesmo após o início do conflito no Oriente Médio. “Isso apesar da confusão da guerra, da complexidade de lidar com essa nova situação e do fato de que muitos bancos centrais precisavam defender suas moedas, o que pode ter inibido alguns bancos centrais de comprar mais ouro", disse Fan. Os bancos centrais foram vendedores líquidos de ouro em março, principalmente devido às vendas da Turquia para estabilizar sua moeda, mas voltaram a ser compradores líquidos em abril, de acordo com dados do Conselho Mundial do Ouro. As reservas de ouro da China aumentaram em 10 toneladas em maio, o maior aumento mensal desde dezembro de 2024. A Turquia retomou o acúmulo de ouro em abril. O desempenho do ouro em tempos de crise e seu papel como proteção contra a inflação foram os principais fatores que levaram os bancos centrais a manter o metal precioso, de acordo com os resultados da pesquisa. Mais bancos centrais do que no ano passado citaram o papel do ouro como proteção contra riscos geopolíticos. Mais da metade dos entrevistados afirmou esperar que a participação do yuan chinês nas reservas totais dos bancos centrais — que era de 1% no último trimestre de julho a setembro — aumente em cinco anos. Enquanto isso, 45% dos entrevistados preveem um aumento nas reservas de ouro de seus respectivos bancos centrais nos próximos cinco anos, contra 43% no ano passado. A maioria dos gestores de bancos centrais em mercados emergentes e economias em desenvolvimento espera esse crescimento, em comparação com apenas 18% em economias avançadas. Ao se reunir com representantes de bancos centrais no encontro do FMI em abril, Fan afirmou: "O nível de interesse dos bancos centrais pelo ouro era ainda maior do que eu havia percebido no ano passado. Acredito que muitos deles estavam esperando uma oportunidade para que o preço caísse e, assim, pudessem comprar ouro." Em comparação com outras regiões, muitos bancos centrais na Ásia "têm mais capacidade de investir em ouro porque as reservas lá são muito maiores", continuou Fan, observando que essas economias tendem a ter acumulado suas reservas ao longo de décadas de superávits comerciais. O banco central da China (PBoC) é um dos principais compradores de ouro do mundo, mas o metal precioso ainda representa apenas 9% de suas reservas totais. Os preços do ouro caíram drasticamente para US$ 4.031 por onça troy no início deste mês, ante mais de US$ 5.500 no início do ano, à medida que os altos preços do petróleo diminuíram a probabilidade de um corte na taxa de juros pelo Fed. Taxas de juros mais altas nos Estados Unidos tornam mais atraente manter dólares em vez de ouro, que não oferece rendimento. Após um acordo entre Estados Unidos e Irã no último domingo (14), os preços do ouro se recuperaram e ultrapassaram os US$ 4.300. "Com os investidores de longo prazo comprando em quedas, o ouro pode se manter próximo a US$ 4 mil", disse Aron Chan, estrategista de ouro da State Street Investment Management. "Os bancos centrais continuam sendo uma importante fonte estrutural de demanda por ouro, ajudando a fornecer um piso duradouro para os preços, juntamente com compras físicas mais amplas."