Netanyahu usa ataque ao Irã para reconstruir reputação eleitoral e legado abalado pelo 7 de outubroAtual primeiro-ministro israelense viu a popularidade nas pesquisas eleitorais cair no ano passado e espera recuperar apoio com novo conflito. Crédito: Imagens: APGerando resumoHouve um tempo em que o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, era chamado de senhor segurança e se vangloriava de uma relação especial com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas esse momento parece estar no passado: Netanyahu foi escanteado por Trump, não cumpriu seus objetivos no Irã e está em baixa nas pesquisas para as eleições legislativas em Israel. PUBLICIDADEA situação ficou mais crítica depois do anúncio do acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, que incluiria um cessar-fogo entre Israel e a milícia xiita radical libanesa Hezbollah. Tel-Aviv não participou da negociação e bombardeou o Líbano durante as conversas. A atitude de Netanyahu, que tinha o objetivo de minar as negociações, foi recebida com ira em Washington. De acordo com relatos que posteriormente seriam confirmados por Trump, o republicano chegou a chamar o primeiro-ministro israelense de “maluco”. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumprimenta o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em Palm Beach Foto: Alex Brandon/APInternamente, Netanyahu também está sendo criticado. Membros da situação, como os extremistas Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, querem que Israel continue atacando o Líbano com força, para reduzir a ameaça do Hezbollah. Já a oposição diz que Netanyahu falhou em todos os seus objetivos de guerra desde os ataques terroristas do Hamas no dia 7 de outubro de 2023 e está sendo subserviente a Trump.PublicidadeTudo isso ocorre com as eleições batendo na porta. Netanyahu deve convocar as eleições até outubro deste ano e, segundo as pesquisas, não seria reeleito se o pleito ocorresse neste momento. De acordo com analistas entrevistados pelo Estadão, as decisões tomadas por Netanyahu em relação aos ataques no Líbano buscam melhorar a credibilidade do primeiro-ministro, que foi muito afetado pelos ataques de 7 de outubro de 2023 e o fracasso no conflito contra o Irã. “Netanyahu está muito pressionado”, avalia João Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel-Aviv. “É praticamente um consenso no país de que o acordo de Trump com o Irã é ruim e existe uma demanda de que se de um golpe forte no Hezbollah, mas Netanyahu não está em condições de fazer isso”. O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, discursa em Jerusalém Foto: Ilia Yefimovich/APNetanyahu em baixaA ideia do primeiro-ministro era chegar nas eleições legislativas com uma narrativa vitoriosa. Foi com esse objetivo que Netanyahu buscou redesenhar o Oriente Médio com golpes duros contra o Irã e o chamado Eixo da Resistência depois dos ataques de 7 de outubro de 2023, que minaram completamente a sua credibilidade. PublicidadeEm certa medida a estratégia deu certo. Israel enfraqueceu muito o Hezbollah, matou o poderoso secretário-geral Hassan Nasrallah em setembro de 2024 e humilhou a milícia xiita com ataques de pagers que mataram ou feriram dezenas de membros do Hezbollah. Além disso, o regime de Bashar Assad na Síria havia caído e o Irã passava por forte crise depois da chamada Guerra dos Doze Dias, entre Teerã e Tel-Aviv, em junho de 2025. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, posa para uma foto com o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em Tel-Aviv Foto: Evan Vucci/AP“O discurso era o de que um novo Oriente Médio estava sendo construído, com cooperação entre Israel e países do Golfo Pérsico contra o Irã, e o estabelecimento de Israel como potência”, aponta Miragaya. Mas a narrativa de vitória do primeiro-ministro caiu por água abaixo com os pífios resultados da guerra contra o Irã e o ressurgimento do Hezbollah como uma potência militar. “O Hezbollah não foi aniquilado no Líbano, nem o Hamas em Gaza, e o regime iraniano sobreviveu. O discurso vitorioso de Netanyahu perdeu força”.PublicidadeGuerra total A falta de vitórias estruturais levou Netanyahu a dobrar a aposta e buscar uma tática de “guerra total”, mesmo que isso prejudique a relação com Trump. A intenção é recuperar a memória do “senhor segurança”, diz Michel Gherman, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A minha avaliação é que ele vai continuar apostando em guerras, mesmo que isso ameace a relação com os Estados Unidos”, diz Gherman.O próprio Netanyahu ressaltou em diversas oportunidades a sua doutrina de guerra. Ele prometeu uma “vitória absoluta” em todas as frentes da guerra e chegou a afirmar que Israel precisa se transformar em uma “super-Esparta” nos próximos anos, em uma referência à poderosa cidade-estado da época da Grécia antiga. Publicidade“Vitórias táticas e militares estão acontecendo, mas aconteceram muitas derrotas estratégicas”, destaca o professor da UFRJ. Tanque israelense opera na fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza Foto: Jack Guez/AFP Relação com TrumpO acordo assinado entre Estados Unidos e Irã ressaltou os erros da estratégia de Netanyahu e a redução da influência do primeiro-ministro em relação a Trump.O político israelense foi um dos arquitetos do conflito e chegou a viajar para a Casa Branca para apresentar como EUA e Israel poderiam garantir uma mudança de regime em Teerã, segundo informações do jornal americano The New York Times.Mas os dois líderes foram se distanciando ao longo da guerra e indicaram ter objetivos diferentes no conflito. Trump demonstrou muita irritação com Netanyahu após ataques contra posições do Hezbollah no sul do Líbano e em Beirute que minaram as negociações. PublicidadeO presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma reunião em Evian, na França Foto: Ludovic Marin/AFPIsrael não participou das conversas e o portal americano Axios relatou que Trump disse que um ataque israelense a Beirute no domingo, 14, prejudicou a assinatura do acordo.“Por que Bibi (apelido de Netanyahu) teve que fazer um ataque, caramba? Eu disse a ele que ele não tinha bom senso”, apontou o presidente americano. Em outra entrevista ao jornal The New York Times, Trump afirmou que Netanyahu era “um cara muito difícil de se lidar”.Acordo Irã-EUAA notícia do acordo também colocou Netanyahu nas estribeiras, já que o entendimento entre americanos e iranianos passa por um cessar-fogo no Líbano. PublicidadeO consenso geral é de que Tel-Aviv deve continuar a guerra para enfraquecer o Hezbollah e melhorar a situação de segurança dos moradores do norte de Israel, que estão muito vulneráveis aos ataques da milícia xiita.“A maioria da população israelense acredita que a força é a única solução para combater grupos como o Hezbollah”, destaca Miragaya. Apesar do cansaço depois de quase três anos de guerra, a solidariedade com os moradores do norte prevalece entre os israelenses, segundo o analista. Libaneses retornam ao sul do Líbano depois de confrontos entre Israel e o Hezbollah Foto: Mohammed Zaatari/APAlém disso, de acordo com informações do Canal 12 de Israel, existem temores de que Trump possa reduzir significativamente a atuação das Forças de Defesa de Israel (FDI) dentro do Líbano. A apuração do canal israelense destaca que Trump chegou a propor a retirada completa das FDI do sul do Líbano, mas Netanyahu rejeitou a iniciativa. PublicidadeQuestionamentosA oposição está aproveitando a situação para acusar Netanyahu de subserviência aos Estados Unidos.O primeiro-ministro sempre se vendeu como um grande entendedor da política americana e explorou a relação positiva com Trump para se catapultar politicamente em eleições passadas. “Netanyahu construiu sua figura ao redor do fato de que ele é o líder mais próximo de Trump no mundo, então os conflitos das últimas semanas não são positivos para ele”, destaca Miragaya. O analista destaca que Netanyahu desejava o apoio de Trump nas eleições legislativas, mas uma manifestação pública do presidente americano é incerta. “Netanyahu é muito impopular nos EUA e vem causando dores de cabeça a Trump”. PublicidadeSaiba mais Plano de Israel de ocupar o sul do Líbano eleva temores de violência sectáriaA guerra contra o Irã consolida a perda de influência dos Estados Unidos no Oriente MédioTodos os tolos envolvidos na guerra no Oriente Médio vão sair derrotados do conflitoEleições em IsraelÉ neste clima que Israel se aproxima das eleições legislativas. O pleito deve ser convocado até outubro deste ano, mas ainda não tem data marcada. De acordo com as pesquisas, figuras como o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett e o ex-chefe de gabinete do Exército israelense Gadi Eisenkot são favoritos. Netanyahu segue com muito apoio, mas está longe de garantir uma maioria de pelo menos 61 assentos na Knesset (Parlamento de Israel). Bennett espera reeditar sua parceria com Yair Lapid para retornar ao cargo. Os dois estão concorrendo com uma coalizão chamada “Juntos”. Já Eisenkot fundou um partido chamado Yashar, que significa “direto” em português, e está recebendo muito apoio. Ele é próximo das alas mais humildes da população israelense e é um judeu de origens marroquinas, uma característica que agrada parte do eleitorado por conta da enorme massa de israelenses que são mizrahim (judeus com raízes provenientes do Oriente Médio e do norte da África). PublicidadeO ex-primeiro-ministro de Israel Naftali Bennett participa de uma coletiva de imprensa em Jerusalém Foto: Ohad Zwigenberg/AP“Eisenkot é militar, da periferia de Israel e perdeu um filho na guerra em Gaza, então é um perfil que está agradando muita gente”, destaca Gherman. De acordo com o analista, o pleito deve ser um referendo sobre Netanyahu e uma disputa sobre qual será o projeto de Israel para o futuro. “Bennett tenta se apresentar como a direita húngara conseguiu fazer contra Orbán, que é ser uma alternativa de direita a Netanyahu”.Para derrotar o primeiro-ministro, os partidos provavelmente terão que fazer uma coalizão com partidos árabes-israelenses. Um acordo deste tipo já foi feito na coalizão que levou Bennett ao poder em 2021, mas em um contexto pós-7 de outubro fica mais difícil. “Os partidos árabes têm nomes bem pragmáticos e ágeis politicamente, mas é difícil saber se uma coalizão poderia ser costurada”, destaca Gherman.Publicidade