Após a morte de uma jovem durante um salto de rope jumping em Limeira, especialistas ouvidos pelo GLOBO apontaram deficiência na fiscalização, operadores sem qualificação e falhas no cumprimento dos protocolos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Maria Eduarda Rodrigues — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 15/06/2026 - 19:19 Segurança no Turismo de Aventura: Debate Reacende Após Tragédia Após a trágica morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas em um salto de rope jumping em Limeira, especialistas destacam falhas na fiscalização e falta de normas específicas para a prática. Apesar da regulamentação pela Lei Geral do Turismo e normas da ABNT, a ausência de fiscalização efetiva e o não cumprimento de protocolos de segurança são apontados como causas de acidentes. A investigação revelou que os responsáveis não seguiram procedimentos básicos. A situação reacende o debate sobre a segurança no turismo de aventura no Brasil. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, arremessada no sábado sem cordas em um salto de rope jumping em Limeira (SP), expôs falhas e dificuldades na fiscalização do setor de esportes de aventura, regulamentado pela Lei Geral do Turismo, que obriga as empresas a seguir diretrizes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) — são 57 regras sobre o tema. A modalidade em si, caracterizada por saltos em altura utilizando cordas estáticas, traz ainda um desafio adicional: não consta em norma específica por ser considerada atividade recente no país. A categoria está sob o guarda-chuva de regras transversais, como a ABNT NBR ISO 21101 (gestão de segurança) e a ISO 21102 (competência de líderes). Essas normas exigem a adoção de Procedimentos Operacionais Padrão (POPs), com checagem dupla de equipamentos, definição clara de responsabilidades e sistemas de redundância para evitar falhas críticas. Apesar de uma regulamentação descrita por especialistas ouvidos pelo GLOBO como "robusta", falhas na fiscalização aumentam o risco de acidentes como o que matou Maria Eduarda, alertam. Auditor-líder em Sistema de Gestão da Segurança, Alexandre Faulin afirma que, além de falhas no protocolo, há um problema na "armadilha do alvará". Municípios concedem licenças de funcionamento sem exigir comprovação de conformidade com a ISO 21101. — Isso cria uma falsa sensação de segurança. A empresa está aberta, mas não segue os requisitos técnicos. O turista acaba escolhendo por preço ou indicação, sem saber se a operação é qualificada. Atividades verticais perdoam poucos erros. Por isso, os sistemas de segurança são construídos com múltiplas barreiras de proteção e conferência — alerta Faulin. Mulher é lançada em rope jump, mas sem cordas, no interior de SP — Foto: Redes Sociais Sequência de falhas O presidente da Associação Brasileira de Rope Jump e Pêndulo Humano (ABRJH), Marco Antonio Junior, conhecido como Jota, afirmou ao GLOBO que o salto fatídico não seguiu nenhum protocolo. A vítima foi lançada de uma altura de 40 metros sem que os três instrutores presentes percebessem a ausência da corda. — O salto não teve padrão nenhum. Um instrutor tem que prender a corda no cliente, enquanto o outro vai checar se ela está presa da forma correta. Isso é o duplo cheque. Em qualquer atividade de aventura no mundo, é a primeira lei — explica Jota. Segundo ele, tudo indica que também não houve medição correta da corda, tarefa do profissional chamado de "rigger". A posição de salto adotada, conhecida como "aviãozinho", tampouco é recomendada para iniciantes, pelo maior risco de desequilíbrio na borda. O presidente da Associação Paulista de Rapel, Gleidson Rodrigues, também atribui o acidente à quebra de uma série de protocolos. Para ele, a posição do salto introduz "variáveis incontroláveis" e o briefing inicial, que orientaria a cliente sobre a necessidade de estar conectada à corda antes de se aproximar da borda, não foi feito. — Se o briefing tivesse ocorrido, a própria vítima poderia ter identificado a falha — diz Rodrigues. Ponte do Esqueleto, no interior de São Paulo — Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Limeira A investigação aponta que não havia uma empresa formalmente constituída por trás da atividade. Os responsáveis pelo salto, Luis Felipe Feliciano Egoroff, Vitor de Freitas Gonçalves e Maicon Fernandes Cintra, usavam marcas informais como "Ih voei" e "Entre cordas". Eles foram detidos em flagrante por homicídio com dolo eventual e a prisão foi convertida em preventiva. Em depoimento, dois deles disseram ter sofrido um "apagão" durante a preparação e não souberam informar em que momento deixaram de prender as cordas. Segundo a Associação Paulista de Rapel, o Brasil teve cinco acidentes com rope jumping nos últimos seis anos, dois deles com mortes. O outro caso ocorreu em 2020, em prédios abandonados de São Bernardo do Campo. Na ocasião, dois jovens morreram e uma pessoa ficou ferida. Em agosto do ano passado, duas mulheres caíram da própria Ponte do Esqueleto. Uma delas teve lesões gravíssimas e foi levada pelo Samu, em estado crítico, à Santa Casa de Limeira. A outra sofreu fraturas múltiplas pelo corpo. Um outro acidente ocorreu ano passado no Viaduto Doutor Arnaldo, na Zona Oeste da capital paulista, quando uma praticante bateu no teto da estrutura. E em 2020, dois instrutores caíram de uma altura de 60 metros durante um salto na Cachoeira do Can Can, em Ibaté, na região central do estado de São Paulo, próximo a São Carlos, a 3h30min da capital. Na ocasião, o equipamento travou a queda e ninguém se feriu. — A quase totalidade dos acidentes é fruto de erro humano. Por falha de equipamento não temos notícia; quando há, é por imperícia na aplicação — diz Rodrigues, que defende uma lei específica para a modalidade. 'Mais um acidente na ponte, até quando?' Há pelo menos um ano, a vereadora Bruna Magalhães (PRTB), de Limeira, denuncia às autoridades o abandono e a falta de fiscalização da Ponte do Esqueleto. Ela elaborou um dossiê em que mapeou ao menos 20 acidentes e tentativas de suicídio na estrutura. Entre eles, dois saltos de rope jumping que resultaram em fraturas nas pernas das praticantes. Em agosto do ano passado, Bruna enviou ofício ao governo de São Paulo e, semanas depois, à Presidência da República, pedindo avaliação estrutural e medidas emergenciais de segurança. A resposta do Planalto, em 1º de setembro, informou que o caso seria encaminhado ao Ministério da Gestão e à Secretaria de Relações Institucionais. — Dormi uma noite inteira acampada na ponte, em protesto, para que o governo enxergasse que eu precisava ser atendida. Todo acidente que acontecia aqui, eu oficializava e dizia: "olha, mais um acidente, até quando?" — contou a vereadora. A Prefeitura de Limeira informou que estuda medidas judiciais para impedir a chegada ao local e que o governo federal ainda não a contatou. Segundo o município, a estrutura tem placas de advertência e uma barra de ferro que impede a passagem de veículos, mas "foi construída em área particular, sendo que o acesso a ela é feito de maneira irregular".