As histórias de Fernando Modé e do Grupo Boticário têm mais ou menos o mesmo começo. Em 1977, enquanto Miguel Krigsner iniciava sua rede de cosméticos em uma portinha, no centro de Curitiba (PR), Modé, filho de um “boticário” e de uma professora, começava, ainda adolescente, a trabalhar na drogaria de seu pai, em Guarulhos (SP). “Meus irmãos e eu ajudávamos a higienizar seringas de vidro e cortávamos manteiga de cacau, pois ainda não existiam os bastões”, lembra ele. O sucesso brindou a ambos, empresa e executivo. Modé há cinco anos é CEO da corporação que emprega mais de 19 mil colaboradores diretos e em 2025 faturou R$ 38,1 bilhões. Sua carreira no grupo começou há 26 anos, como gerente jurídico, função que também exerceu na Iochpe. Antes de se tornar CEO, passou pelas posições de diretor financeiro (CFO) e vice-presidente corporativo. Atualmente, também é conselheiro da Fundação Grupo Boticário. Humanista inconteste, Modé é graduado em direito pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduado em direito tributário pelo Centro de Extensão Universitária (CEU) e mestre em direito econômico e social pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Ele acredita que o êxito de uma liderança perpassa um permanente processo de autoconhecimento. “Se a gente está bem com a gente mesmo, o impacto que causa nos outros é melhor. Procuro fazer o máximo para estar bem na interação com as pessoas. Além disso, temos de nos conhecer para saber quais são nossos atributos positivos e negativos, pois tudo reflete na condução das questões, nas tomadas de decisão”, diz. Qualidade de vida é a base do seu bem-estar: tem rotina de sono, cuida da saúde, pratica exercícios e valoriza o tempo livre com a família — ele tem duas filhas. “Essa disciplina é um compromisso que eu tenho comigo mesmo, mas que se projeta na minha relação com as pessoas, seja na vida particular ou no trabalho.” Entre os muitos desafios que a liderança traz, ele considera que o maior foi se tornar CEO de uma empresa em que os CEOs anteriores eram os próprios sócios: “Costumo brincar que sou o primeiro CEO demissível do Boticário”. Ele destaca a necessidade de equacionar seu papel inovador e impulsionador com o legado de uma história de sucesso. “Sempre digo que sou um generalista. Não sou o especialista em cada setor, mas um orquestrador, um designer da arquitetura estratégica, que precisa ter habilidade de conectar os pontos.” Garantir o melhor desenho organizacional, reforça o CEO, implica lidar com situações críticas. Há quatro anos, lembra, foi estabelecida a premissa corporativa de acompanhar o consumidor a partir de sua dinâmica de consumo. O consumidor, diz ele, é multimarca, compra várias coisas, de vários fornecedores, em vários canais. “Integrar esses canais, para o consumidor, é uma solução”. Só que, do lado da operação corporativa como um todo, a reestruturação mexeu muito com os canais como pontos de venda físicos, e-commerce e WhatsApp. A inovação foi tão complexa que chegou a ser discutida também no conselho consultivo. Mas foi muito acertada, acrescenta ele, pois impulsionou as vendas em cerca de 30%. Além de sua formação em direito, Modé fez um curso de filosofia. “Tem coisas na vida que não são solucionáveis, mas são gerenciáveis”, ressalta. Em um artigo no LinkedIn, onde escreve com regularidade, destacou: “Os aprendizados do curso me permitem tomar decisões mais conscientes e quebrar certo automatismo na busca por soluções. É comum repetirmos os mesmos truques que funcionam. Mas a vida nos coloca muitas outras oportunidades para realizar coisas novas”. Empresas em que trabalhou: Iochpe Maxion S.A.Idade em que se tornou CEO: 53 anosMaior orgulho da carreira: levar o Grupo Boticário à liderança do mercado de beleza no BrasilPessoa que o inspira: o paiHobby: carros da década de 1980
Executivo de Valor - Fernando Modé, do Grupo Boticário, um arquiteto de soluções corporativas
CEO acredita que o êxito de uma liderança perpassa um permanente processo de autoconhecimento






