A imagem clássica de um executivo engravatado e cercado de formalidades não combina muito com Marcelo Lombardo, fundador e CEO da Omie. O visual despojado inclui camiseta e cabelos compridos. E, no fundo da sala onde concedeu entrevista sobre sua carreira, uma guitarra pendurada na parede dá o tom. Lombardo nunca planejou se tornar executivo. Formado em engenharia eletrônica, iniciou a carreira na antiga Itautec, trabalhando com hardware e manutenção técnica. “Eu era o cara que encontrava o chip ruim e trocava.” O rumo mudou quando recebeu a missão de desenvolver um sistema para controlar ordens de serviço da assistência técnica. Sem experiência em programação, recorreu aos livros, estudou sozinho nos fins de semana e descobriu um novo caminho profissional. Pouco tempo depois, deixou a Itautec para vender softwares de gestão para empresas. Nascia ali sua primeira companhia de software, a NewAge, focada em grandes corporações. Apesar dos clientes de peso, o negócio “andava de lado”, alternando perdas e ganhos de contratos, em meio à competição acirrada. Foi lá que surgiu uma pequena célula voltada para pequenas e médias empresas – embrião do que mais tarde se tornaria a Omie. Em 2013, um grupo americano comprou 100% da NewAge Softwares. Lombardo decidiu não se mudar para os Estados Unidos e negociou um spin-off da nova operação. A Omie renasceu independente, como uma startup de apenas sete pessoas. O fracasso parcial da empresa anterior virou uma espécie de MBA prático sobre gestão e tecnologia. “Foi uma escola fantástica de como não fazer as coisas.” Ele diz que os softwares corporativos tradicionais cresciam acumulando adaptações, mudanças de legislação e falhas de arquitetura até se tornarem pesados e difíceis de evoluir. Ao criar a Omie, tinha clareza sobre o que queria evitar. O estilo de liderança também precisou mudar conforme a empresa crescia. No início, fazia de tudo: atendimento, marketing, vendas e produto. Depois, teve de aprender a delegar. “Chega um momento em que é preciso ter gente dez vezes melhor que você em cada área.” Lombardo admite que abandonar o controle foi um dos processos mais difíceis da trajetória. Um conselho recorrente de mentores era contratar um chefe comercial profissional, algo a que ele resistiu porque gostava de “estar no campo de batalha”. Até entender que o crescimento exigia outro tipo de liderança. Lombardo revela que “a Omie quase deu errado várias vezes”. Em uma das mudanças mais radicais, a empresa abandonou campanhas digitais por quatro anos e focou em contadores como canal de aquisição de clientes. Internamente, a Omie criou uma cultura baseada em transparência radical. “Problemas precisam ser verbalizados sem medo. Esconder falhas é o caminho mais rápido para gerar prejuízo e sufocar o crescimento”, diz. Paulista que hoje mora em Santa Catarina, ele adquiriu “vício” em chimarrão. Casado há 18 anos, pai de dois filhos adultos, ele afirma que a vida pessoal também exige uma parceria incomum: “Não é qualquer um que é feito para ser cônjuge de empreendedor”. Mentor ativo da Endeavor, aplica à vida e aos negócios a lógica da “teoria das restrições”, do livro “A Meta”, de Eliyahu Goldratt, baseada em identificar a causa raiz dos problemas antes de dispersar energia em várias frentes ao mesmo tempo. O executivo comemora que a Omie vende sistemas para cerca de sete mil a oito mil novos clientes por mês. “Em pleno 2026, aproximadamente 80% ainda chegam vindos do papel, da caneta ou de planilhas de Excel.” Para ele, aumentar a eficiência e a produtividade das pequenas empresas brasileiras é uma missão de impacto social, ajudando a compensar o custo Brasil e transformando o empreendedorismo em motor de desenvolvimento. Empresas em que trabalhou: Itautec e NewAge SoftwareIdade em que se tornou CEO: 42 anosMaior orgulho da carreira: ter digitalizado dezenas de milhares de empresas no BrasilPessoa que o inspira: Elon MuskHobby: DJ e produtor musical
Executivo de Valor: Marcelo Lombardo, da Omie, e a cruzada pelo empreendedorismo
CEO viu seu estilo de liderança mudar com o crescimento da empresa e, após acumular funções como atendimento, marketing, vendas e produto no início da operação, aprendeu a delegar







