É difícil para Edu Lyra, CEO da Gerando Falcões, contar como se tornou tetracampeão do prêmio Executivo de Valor sem falar de duas pessoas: sua mãe, Gorete, que o criou numa favela, e Jorge Paulo Lemann, por anos o homem mais rico do Brasil. Com a mãe, aprendeu, entre tantas coisas, a fazer mais com menos. “Ela era a maior gestora de recursos de Guarulhos”, diz. “Quando tínhamos bife, ela cortava a carne em mais de 40 pedacinhos para fazer render por dias.” Com Lemann, a parceria começou há cerca de dez anos — tempo em que faltavam fundos para pagar o aluguel da sede da ONG. Em busca de reforço no caixa, Lyra enviou um e-mail se apresentando ao empresário. “Ele me respondeu em três minutos e, desde então, dá também muito mais que dinheiro: me provoca a sonhar grande”, conta. Foi por influência de Lemann que Lyra implementou métodos corporativos na gestão da Gerando Falcões. “Todo mundo aqui tem metas improváveis, avaliação 360 graus, plano de carreira e processos a seguir”, diz Lyra. A ONG também é auditada pela KPMG e aposta em tecnologia e inteligência artificial para automatizar processos. É o caso do “dignômetro”, ferramenta que usa IA para medir o grau de pobreza das famílias com base em critérios como habitação, saúde, educação e renda. O objetivo é direcionar esforços para os pontos mais críticos de cada caso atendido. Com o objetivo de tirar um milhão de pessoas da pobreza em dez anos, a Gerando Falcões atua em diversas frentes. Entre elas estão programas de educação, formação profissional e uma “agência de empregos” própria para conectar moradores de periferias a empresas parceiras. Segundo a ONG, a iniciativa inseriu 30 mil pessoas no mercado de trabalho em 2025. Outro braço é a Falcons University, que já formou dois mil líderes sociais para atuação em ONGs. Em parceria com o poder público, a organização também participa de projetos de urbanização de favelas. Há ainda a operação de microcrédito em produtos para revenda. Em quase 15 anos, a Gerando Falcões já alcançou 5.500 favelas e 740 mil pessoas em todos os Estados. Para escalar a empreitada, Lyra, que cursou jornalismo, apostou na própria formação. “Como não estudei administração, pedi ao Lemann que me conectasse com a turma da Ambev para aprender a ser gestor.” Em uma imersão de dois anos, iniciada por volta de 2008, com o então presidente da companhia, Bernardo Paiva, aprendeu a implementar práticas como a utilização de indicadores de desempenho e o orçamento-base zero, em que as despesas precisam ser justificadas a cada ciclo orçamentário. No início, porém, a mudança enfrentou resistência interna. “Falei: ‘vocês me deram a chance de liderar, então apostem na nova visão e vamos testar’”, conta. Prometeu à equipe que voltaria atrás se a nova estratégia não desse resultados. Não foi necessário. Em seis meses, a ONG tinha dobrado de tamanho em captação e número de famílias atendidas, diz. Na definição de novos passos, Lyra também recorre ao conselho da ONG, formado por nomões como, além de Lemann, Guilherme Benchimol (XP), Elie Horn (Cyrela) e Palash Das, ex-diretor da Brac, ONG fundada em Bangladesh, responsável por um dos maiores programas de superação da pobreza do mundo. O grupo o apoia sobretudo em decisões relacionadas a orçamento, modelos operacionais, tecnologia e expansão. Mas a ajuda não vem só dos pesos-pesados do PIB. Ele diz que faz questão de sair do escritório para calibrar o rumo da ONG. Às vezes passa temporadas pernoitando em favelas atendidas. “É para dormir no problema, acordar no problema e resolver”, justifica. Na vida pessoal, aos 38 anos, a leitura, o almoço com a família e ver o Corinthians jogar estão entre os seus melhores momentos. Empresas em que trabalhou: na feira com o pai e como estagiário de comunicação na Prefeitura de Ferraz de Vasconcelos (SP)Idade em que se tornou CEO: 22 anosMaior orgulho da carreira: liderar uma missão que tem o objetivo de levar um milhão de pessoas à dignidadePessoas que o inspiram: a mãe, Gorete, e Jorge Paulo LemannHobby: ler e andar de bicicleta