O churrasco da Copa este ano vai ser diferente para muitas famílias brasileiras. Sai a picanha, entra o drumet e os cortes suínos. O pão de alho e a maionese ganham ainda mais espaço. É a receita para driblar a alta de preços no país que é o maior produtor de carne bovina do mundo. Morador de Praia Grande, no litoral de São Paulo, César Visini vai diversificar e incluir frango e linguiças na churrasqueira para os encontros de família. — É mais econômico — explica o professor de 29 anos. Ele está irritado porque os açougues reduziram a qualidade dos produtos oferecidos para contornar os altos custos dos cortes mais nobres: — Às vezes o preço continua o mesmo, mas a qualidade cai. Isso tem acontecido muito. Fazer churrasco e torcer pela seleção nacional é uma tradição consagrada dos brasileiros, mas os preços da carne bovina próximos de níveis recordes e a crise de endividamento das famílias ameaçam reduzir o apetite dos consumidores. Neste torneio, os brasileiros servirão frango e linguiças suínas com mais frequência do que carne bovina, de acordo com projeções da Worldpanel by Numerator. A queda no consumo de carne no Brasil amplia os desafios para o governo Lula às vésperas das eleições nacionais de outubro. Em um país que está entre os três maiores consumidores de carne bovina per capita do mundo, reduzir o consumo é mais um sinal de estresse econômico quatro anos depois de Lula ter prometido, nas eleições passadas, por mais carne e cerveja na mesa dos brasileiros. A oferta global restrita e a forte demanda externa estão impulsionando as exportações brasileiras de carne a um recorde histórico e reduzindo a disponibilidade do produto no mercado doméstico. Isso aumenta a pressão sobre os brasileiros de baixa renda, já com orçamento apertado e dificuldades para lidar com os altos custos dos alimentos e o elevado endividamento. Nos três primeiros meses do ano, os brasileiros já destinaram uma parcela menor do orçamento total à compra de proteínas. A queda foi provocada pela redução no volume de carne bovina adquirida, segundo Daniela Jakobovski, gerente de contas da Worldpanel. Em São Paulo, cidade mais populosa do país, o preço da picanha — corte preferido dos brasileiros para o churrasco — superou R$ 90 por quilo em março, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA), órgão público de pesquisa. Um ano antes, o valor era de R$ 81. A inflação elevou os preços de alguns cortes nobres de carne bovina em até 11% nos últimos 12 meses, de acordo com dados de maio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os preços da carne bovina no atacado atingiram recentemente o maior nível já registrado na série histórica de mais de 20 anos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo. — Pessoas como eu, que costumavam comer carne bovina duas ou três vezes por semana, agora estão limitando o consumo a uma vez por semana — disse Thiago Durões, vendedor de 37 anos que mora em Brasília. — Estamos migrando para cortes mais baratos e, em muitos casos, substituindo a carne bovina por frango, carne suína ou pela proteína que oferecer o melhor custo-benefício. O problema é particularmente preocupante entre as famílias de baixa renda, que apresentam níveis de endividamento acima da média — Foto: Bloomberg O aumento dos custos da carne bovina é apenas uma das muitas preocupações no Brasil, onde um recorde de 82% das famílias possui dívidas em aberto, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Reduzir o endividamento dos brasileiros tornou-se uma questão central da campanha de Lula, que recentemente lançou o Desenrola 2.0, um novo programa de renegociação de dívidas das famílias na tentativa de aumentar sua popularidade. O setor chegou até mesmo a apontar as apostas on-line como parte do problema. Recentemente, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) pediram ao governo medidas para limitar os gastos dos consumidores em plataformas de apostas. Ainda assim, os brasileiros já enfrentaram momentos mais difíceis. Em 2022, ano em que a Argentina conquistou a Copa do Mundo, os preços dos alimentos dispararam após a invasão da Ucrânia pela Rússia elevar os custos globais das commodities. As empresas do setor de carnes estão otimistas com a perspectiva de aumento das vendas durante o torneio, com propagandas na televisão destacando não apenas os tradicionais e caros cortes bovinos, mas também alternativas mais acessíveis, como hambúrgueres, nuggets de frango e salsichas. —Acreditamos em um portfólio democrático, com opções de proteínas tanto sofisticadas quanto acessíveis — disse Luiz Franco, diretor de marketing da MBRF Global Foods, uma das patrocinadoras da seleção brasileira de futebol. Mas mesmo as proteínas mais baratas enfrentam desafios diante da sensibilidade dos consumidores brasileiros aos preços. A guerra no Irã elevou os custos dos fornecedores em itens que vão de embalagens plásticas ao transporte rodoviário, e os reajustes de preços não têm sido suficientes para acompanhar e compensar integralmente esse aumento de custos, segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). No Olinda Bar e Restaurante, localizado no bairro Asa Sul, em Brasília, a carne de sol sempre foi um dos pratos preferidos dos clientes. Mas o choque de preços tem levado cada vez mais frequentadores a optar pela salada caesar. — A carne bovina ficou muito mais cara, e isso inevitavelmente elevou os preços do cardápio — disse Jaqueline Rodrigues, gerente do restaurante. — Mais pessoas estão escolhendo proteínas mais baratas, e algumas estão deixando de consumir carne completamente.