“É preciso devolver o deboche ao aparelho que mora na sala de todo mundo.” 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 E.T de Eduardo Sterblitch e Tatá Werneck — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 12/06/2026 - 22:02 Tatá Werneck e a Revolução do Humor como Ato de Fé Coletiva O texto destaca a importância dos humoristas em transformar a risada em um ato de fé coletiva, com foco em Tatá Werneck e seu impacto na comédia brasileira. A obra "E.T. — Edu e Tatá" é elogiada por sua abordagem ousada e improvisada, destacando a coragem de executivos em apostar no risco. O humor é visto como uma forma de resistência e insubordinação em um mundo absurdo, ressaltando a relevância de figuras históricas no cenário humorístico brasileiro. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Certa vez, a impagável Cláudia Jimenez (saudades) perguntou a um diretor da TV Globo o que significava em seu contrato o termo “talento estratégico”. A resposta foi mais ou menos assim: é quando você pode ser atriz, apresentadora, comediante, jurada de programa de auditório, moça do tempo, ou ainda pode simplesmente não fazer nada, ficar parada ali, porque o público gosta tanto de você que a sua mera aparição já é um acontecimento. Cláudia, então, devolveu: “Ah, então é um contrato de samambaia?” Positivamente, Cláudia não existia. Penso nisso toda vez que vejo Tatá Werneck. Tatá é a samambaia mais maravilhosa que a TV viu nos últimos tempos. Tão brasileira, tão da gente, tão unânime, agrada da avó à criança. E o admirável é que chegou tão jovem a esse patamar, de quem pode se dar ao luxo de ficar parada e ser adorada. Ainda bem que não fica, pois ela é hoje a maior humorista do Brasil. Não só pela técnica, que é impecável; nem só pelo improviso, que é vertiginoso; mas porque não tem medo de experimentar os mais diversos formatos e ainda assim guardar sua identidade (só sinto falta, contudo, de vê-la no teatro). Há anos, em seu magnífico programa de entrevistas, “Lady Night”, Tatá transforma a conversa num espetáculo de imprevisibilidade, arrancando dos convidados aquilo com que todo entrevistador sonha: a verdade que escapa pela brecha. E quando se imaginava que já havia dado bastante, ela vem e entrega mais. Agora, em “E.T. — Edu e Tatá”, ao lado do maravilhoso Eduardo Sterblitch (que mereceria um capítulo só dele), Tatá reencontra o caos que é a sua casa. O programa nasceu, segundo eles próprios, “sem estrutura, sem dinheiro, contra a nossa vontade”, erguido “com o orçamento de uma coxinha e um caldo de cana”. E é justamente nessa pretensa “precariedade” (vamos com calma, afinal é Globo) que reside a sua força. Dois amigos brincando sem filtro, sem medo do ridículo, atravessando mais de 200 personagens com a fúria de quem não tem nada a perder. Eles mexem com tudo: com a militância, com o politicamente correto, com a própria emissora, com as concorrentes. Dizem que o humor morreu na TV porque está condenado pela estupidez rápida e irrefletida das redes sociais, que não conhecem ironia, leitura nas entrelinhas, figuras de linguagem. Mas a verdade é que, na internet, a comédia prosperou, afinal é terra de ninguém, fonte inesgotável de personagens, espaço onde cada nicho encontra a sua piada. Na tela aberta, porém, o humor tem outro apelo: o de um holofote de desopilação democrática. Afinal, só tem direito a rir quem pode pagar wi-fi ou assinatura de streaming? É preciso, sim, devolver o deboche ao aparelho que mora na sala de todo mundo. O “E.T.” ainda não está na TV aberta, e nem sei se um dia poderá estar, porque algumas piadas são uma loucura sem freio. Se bem que eu as acho bem mais leves do que as pornografias corruptas cometidas em Brasília, que passam no “Jornal Nacional” na hora do jantar. E aqui cabe um louvor à direção do Multishow, que permitiu a sandice dessa atração: ela é a prova de que ainda existem executivos ousados, dispostos a apostar no risco e na anarquia. Sem coragem, não há mudança. Porque a função do humor nunca foi acariciar, mas incomodar. É enfiar o dedo na ferida, não pela via da lágrima, mas pela constatação ridícula de que todos nós precisamos sobreviver a um mundo absurdo que testa nossa capacidade de resistir. Rir, então, é o nosso último gesto de insubordinação, por isso que os políticos têm horror a humoristas. É a teimosia de quem se recusa a chorar de joelhos. Lembrar-nos disso é o ofício de pessoas como Tatá, Edu e, antes deles, Chico, Jô, Dercy, Paulo Gustavo, Carlos Alberto, Ingrid, Heloísa, os Cassetas, os Portas, os Piratas, Tom, Miguel, Marisa, Cláudia, entre tantos outros. Enquanto eles seguirem fazendo da risada um ato de fé coletiva, alguma coisa em nós continua de pé