Filme da Pixar estreia na qinta-feira (18) com a nova personagem Lilypad 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 'Toy story 5' — Foto: Divulgação Quando o caubói Woody encontrou o astronauta Buzz Lightyear pela primeira vez, no filme “Toy story”, em 1995, o conflito no mundo do faz de conta era simples: brinquedos artesanais, como um boneco de corda, perdiam para figuras de plástico incrementadas com lasers e LEDs. Bons tempos, diriam os pais e os professores saudosistas e até os próprios brinquedos (se fossem animados como os protagonistas do cinema). Ou “nada é tão ruim que não possa piorar”, reclamariam os pessimistas resilientes. Ambos falando da mesma situação: o “inimigo” agora é outro e está nas telas, conectadas à internet, que cabem em mochilas ou nas palmas da mãos. Não à toa, “Toy story 5”, que estreia nos cinemas na quinta-feira, traz um tablet (batizado de LilyPad) que monopoliza a atenção da menina Bonnie e desperta o medo dos outros brinquedos, numa metáfora colorida e infantil para a ansiedade de ser substituído — além de esbarrar \em muitas outras questões. Diga-se de passagem, o medo de se tornar dispensável não é o mesmo que adultos vivem com a inteligência artificial? “A tecnologia mudou a vida de todos, mas estamos nos perguntando o que isso significa para nós e para nossos filhos”, disse Andrew Stanton, um dos diretores do filme, em entrevista à revista Empire. “Hoje os brinquedos parecem ocupar um espaço menor na vida das crianças. Ver um quarto sem o domínio de dispositivos eletrônicos é quase algo do passado.” O tema pareceu perfeito para os diretores da Pixar e reflete uma preocupação crescente e generalizada. De um lado, pais confusos entre a proibição total ou a liberação de “meia horinha de tela”; de outro, a indústria, preocupada com a própria sobrevivência. A gigante brasileira Estrela, por exemplo, fabricante de jogos de tabuleiro como Banco Imobiliário e bonecas como a Susi, entrou em recuperação judicial em maio, alegando, entre outros motivos, a mudança de hábitos de consumidores — como Bonnie, a menina de “Toy story 5”. A Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq) lançou, em outubro passado, uma campanha para mostrar o valor dos brinquedos físicos e dos perigos das telas para as crianças. — Na brincadeira, a criança ensaia problemáticas da vida, regras e frustrações — diz o psicólogo e educador Ilan Brenman. —O celular não faz isso. Ao contrário, o crescimento e a maturidade param ou retrocedem por causa desse mundo fragmentado. Regras para telas Ainda que cinema e TV também sejam telas (na infância dos millennials, o problema era o excesso de tempo em frente à televisão), Ilan Brenman os vê como aliados nos dias de hoje. Principalmente porque filmes e séries têm uma ordem cronológica. — No mundo digital, é scroll infinito. Se você conseguir fazer com que o seu filho veja um desenho com começo, meio e fim é bem melhor do que joguinhos e redes sociais. Mas a curadoria (dos adultos) é indispensável. Qualquer coisa é melhor do que celular e tablet — diz Brenman, ressaltando os benefícios das experiências coletivas da sala de cinema ou da família reunida assistindo a um programa de TV. Outro que pensa assim é o orientador educacional carioca Pedro Ayres, de 37 anos, pai de três meninas: de 10, 6 e 4 anos. Na casa da família, só adultos têm celular, e o tempo de televisão das crianças é restrito a dias e horários pré-combinados. —A mais velha começou a falar que “muita gente da sala dela tem celular” — diz Pedro. —Aí instalamos um telefone fixo para ela falar com uma amiga ou outra. Vilania e emoção Embora essas regras estejam na rotina de alguns pais e no discurso de especialistas, a equipe da Pixar não pretende fazer de LilyPad uma personagem má em “Toy story 5”. “Muita gente no estúdio queria que ela fosse uma vilã, e foi difícil encontrar o equilíbrio porque todos nós chegamos com emoções muito carregadas em relação aos eletrônicos”, disse a codiretora McKenna Harris à Variety. Andrew Stanton complementou. “Não podemos simplesmente demonizar a tecnologia”. Na família do carioca Thiago dos Santos, sargento da Marinha de 38 anos e pai de um menino de 7, a diretriz é esta: moderação, mas não proibição. O filho começou a ver desenhos na TV com 8 meses de idade. À medida que crescia, migrou dos programas infantis para vídeos sobre jogos no YouTube. No entanto, os pais perceberam que, quando ele passava muito tempo conectado à plataforma, tornava-se mais arredio e impaciente. —Hoje em dia, ele usa tela por, no máximo, uma hora por dia e somente para alguns jogos e atividades supervisionadas — diz Thiago. —Como ele é muito tímido, a retirada do YouTube e entrada no futebol também o ajudaram com isso. Antes das mudanças na vida do filho de Thiago, ele bem poderia ter sido personagem do livro “A menina da cabeça quadrada”, da escritora Emília Nuñez, publicado em 2016. A história segue a mesma linha de “Toy Story 5”. Inspirada na própria irmã, que ganhou um tablet e ouvia da avó que “sua cabeça ia ficar quadrada” de tanto usá-lo, a tal menina da obra de Emília tenta reverter a situação com “brincadeiras redondas”, tipo pião, roda e bambolê. —É um resgate da diversão mais tradicional, da cultura, da infância e do brincar junto — diz Emília. —As crianças perdem muita imaginação e criatividade com as telas, mas acho que dê para usá-las desde que não se esqueça da essência e da importância de brincar. A escritora, mãe de um menino de 13 anos e de uma menina de 11,acredita que o comportamento dos pais também influencia o dos filhos. —Tanto os adultos quanto as crianças precisam buscar o equilíbrio e aprender a usar a tecnologia de forma benéfica e segura. A família também precisa refletir sobre o próprio uso em excesso. Em muitas escolas que vou, as crianças falam: “Meus pais é que estão com a cabeça quadrada.” (((CONT))) Com uma coleção de cerca de três mil itens de brinquedos, bonecos e jogos, Marcos Paulo Almeida segue com afinco a missão de resgate da infância offline. Ex-gerente de uma cafeteria, ele começou, casualmente, a colecionar itens ligados à sua infância. Quando percebeu, já tinha montado uma grande exposição particular — que acabou fazendo sucesso na escola da filha. Foi o primeiro passo para a criação, em 2021, do Museu dos Brinquedos, em Petrópolis, Região Serrana. O público é majoritariamente composto por pais emocionados e crianças entediadas, segundo o proprietário. — Os mais velhos fazem uma viagem na infância — diz Marcos. —As crianças entram empolgadas e, depois de 30 minutos, já estão pedindo para ir embora, muito por causa dessa questão da tecnologia e do imediatismo que eles vivem. Com o mesmo objetivo de Woody na franquia Toy Story, de resgatar a importância dos brinquedos e contornar a falta de interesse das crianças, Marcos criou uma extensão móvel do museu: a brinquedoteca desconectada. Um formato itinerante em que a equipe leva brinquedos, gibis e jogos para divertir a garotada nas escolas. — O Woody é como se fosse o nosso mascote porque nós fazemos justamente o que ele faz. O objetivo da brinquedoteca é justamente esse: desconectar as crianças das telas por meio dos brinquedos. (Colaborou Talita Duvanel)