Vendetas internas, políticas extremas e um conflito do qual não sabe como sair erodiram imagem do republicano, que mantém discurso de grandiosidade em meio ao caos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente dos EUA, Donald Trump, apresenta imagem da arena de MMA montada nos jardins da Casa Branca — Foto: Kent NISHIMURA / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/06/2026 - 14:54 Declínio político: Trump enfrenta desafios e baixa aprovação aos 80 anos Aos 80 anos, Donald Trump enfrenta um declínio político e de aprovação pública, apesar de seguir com uma retórica de grandiosidade. Seu governo, marcado por decisões impulsivas e políticas extremas, enfrenta desafios internos e externos, como a guerra com o Irã e tensões diplomáticas. Com eleições se aproximando, sua popularidade no Partido Republicano contrasta com a desaprovação nacional, criando um cenário político instável. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quatro dias antes de completar 80 anos, o presidente dos EUA, Donald Trump, revelou a jornalistas o que gostaria de ganhar de aniversário, celebrado neste domingo: “Paz para todo o mundo”. Uma fala panglossiana que não esconde seu inferno astral. Ele ostenta índices históricos de desaprovação, tem uma lista cada vez menor de aliados, e segue distante de uma saída para a guerra que criou no Irã. Nem seus planos hiperbólicos para o apagar das velinhas (dele e do país) passaram ilesos: as obras em Washington estão na mira da Justiça, a série de shows prevista para as próximas semanas foi cancelada e o evento do UFC na Casa Branca deu margem a comparações inglórias. — Não é que o Trump mudou do primeiro para o segundo mandato, o que mudou foi o entorno dele. ele está mais cercado de indivíduos cujo principal objetivo é prestar lealdade a Trump, pessoas cuja função é apenas dizer “sim, senhor” — disse Carlos Gustavo Poggio, professor do Departamento de Ciência Política do Berea College, ao GLOBO.— Isso tornou esse estilo caótico de tomar decisões por impulso mais evidente. Se no primeiro mandato ele falava algo absurdo, era, de alguma forma, sabotado em seu entorno. Desde janeiro de 2025, quando retornou à Casa Branca, Trump acumulou poderes, com o aval do Congresso afável e de um Departamento de Justiça disposto a fazer cumprir a agenda de perseguição de rivais, especialmente democratas. Analistas afirmaram que essa era uma “Presidência imperial”, e o republicano falou em tom de seriedade sobre um terceiro mandato, proibido pela Constituição. Aliados externos se viram perdidos diante de críticas nada diplomáticas ou, no caso do líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, humilhações. O tarifaço global, que confundiu retaliações comerciais com punições políticas, minou a credibilidade dos EUA, e a retomada do papel de “xerife do mundo”, especialmente na América Latina e Oriente Médio, não lhe rendeu novos amigos. Mas na novilíngua trumpista, era o caminho da “Era Dourada” dos EUA. Fora do núcleo duro do trumpismo, as coisas não são tão douradas após 510 dias de mandato. Suas taxas de aprovação estão perto das mínimas históricas — na última terça-feira, uma pesquisa da Reuters/Ipsos lhe deu apenas 35% —, e até seus eleitores em 2024 se mostram descontentes. O governo não apresentou medidas concretas para o custo de vida, e agravou o cenário ao provocar um dos maiores choques no setor de energia da História com a guerra contra o Irã. Segundo a Associação Automobilística Americana, encher o tanque ficou, em média, 39,2% mais caro desde 28 de fevereiro. Presidente dos EUA, Donald Trump, com os olhos fechados durante reunião de Gabinete — Foto: Doug Mills/The New York Times A cinco meses das eleições de novembro, quando a Câmara e um terço do Senado serão renovados, esse é um cenário nada animador para o Partido Republicano. As projeções mostram que há chances consideráveis dos democratas assumirem o controle de ao menos uma das Casas, tornando os dois anos finais de Trump um potencial calvário — ou, no jargão político, um presidente “pato manco”, sem muito poder de fato para governar. Publicamente, ele não parece incomodado. Em maio, ao ser questionado se tinha pressa para chegar a um acordo com o Irã, pensando nas urnas, disse que “não liga para as eleições de meio de mandato”. Na quarta-feira, em tom jocoso, afirmou que "ama a inflação" após divulgação de uma nova alta na taxa medida pelo governo. E a retomada dos bombardeios, na terça, revelou um presidente frustrado com uma guerra que não tomou os rumos que gostaria, e da qual não sabe como sair. — Além da frustração, há o componente da pressão: ele percebeu que o relógio correu contra ele em uma guerra que os americanos não queriam, que causou impactos econômicos severos — afirmou ao GLOBO Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da Uerj. — Sob pressão, ele pode tomar decisões mais radicais, e ele precisa dar uma resposta e sair da maneira mais honrosa da guerra. Mesmo com a ojeriza da maioria dos americanos ao governo e à guerra no Golfo — 63% reprovam a forma como conduz o conflito, apontou o YouGov na terça-feira — Trump não perdeu as rédeas do Partido Republicano. Em sua campanha de vendetas pessoais, priorizou candidatos leais e escanteou veteranos que não rezam por sua cartilha. No Texas, Ken Paxton, o polêmico procurador apoiado pelo presidente, venceu as primárias para a disputa a uma vaga no Senado, derrotando o veterano John Cornyn. Thomas Massie, que votou pela liberação dos arquivos de Jeffrey Epstein, foi derrotado por um trumpista nas primárias para uma vaga na Câmara pelo Kentucky. — É uma situação muito sui generis: um presidente que é muito popular dentro de seu partido, que usa isso para selecionar seus candidatos, mas cuja impopularidade no país tende a causar problemas para eles nas eleições — destaca Poggio. — E o caso do Texas (um estado de maioria republicana) pode ser o mais simbólico. Se os democratas levarem, seria muito relevante e ilustraria o problema dessa estratégia. Guindastes na Casa Branca em meio a obras de salão de baile e arena de MMA — Foto: Kent NISHIMURA / AFP — Ele sempre quer cantar vitória. É da personalidade dele. Por mais que as coisas estejam caóticas, ele tentará impor uma outra narrativa — explicou Velasco. Agora, ele usa a celebração dos 250 anos da independência dos EUA para sair das cordas e aplicar algumas ideias. — É uma oportunidade estupenda para para tentar se impor como líder, ou até para ser entrar, na marra, na lista dos grandes presidentes americanos — acrescenta Velasco. — Ele quer colher visibilidade, e isso é importante. E também tem muito da personalidade dele, da vaidade. Ele demoliu parte da Casa Branca para construir um salão de baile, cujo valor supera os US$ 400 milhões. Perto do Memorial a Lincoln, um dos principais pontos turísticos de Washington, quer erguer um arco do triunfo de mais de 80 metros de altura, repleto de detalhes em dourado. As duas obras estão na mira da Justiça. No começo de junho, Trump cancelou shows previstos para Washington como parte dos festejos após uma série de desistências. Ao invés disso, anunciou que fará um discurso aos americanos. Arena de MMA montada nos jardins da Casa Branca — Foto: SAUL LOEB / AFP Neste domingo, dia do aniversário, Trump apadrinhará um evento do UFC nos jardins da Casa Branca, com uma arena para quase 5 mil pessoas. A paixão pelas lutas, o tom agressivo e as celebridades extravagantes ao seu lado evocaram um infame presidente ficcional, Dwayne Camacho, do distópico filme “Idiocracia”, um atleta de luta-livre interpretado por Terry Crews. Ao contrário de Trump, que se autointitula “um gênio muito estável”, comentaristas lembram que Camacho buscou pessoas de fora de seu círculo para resolver os problemas nacionais, e não ouviu apenas aqueles que só lhe dizem "sim, senhor".