Líder republicano, que prometeu ‘acabar com guerras’, e não iniciá-las, pode ter caído em uma armadilha presidencial já conhecida 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Prédio do Judiciário danificado pela guerra é visto a partir do Palácio Golestan, no centro de Teerã, no Irã — Foto: Emile Ducke/New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/07/2026 - 14:00 Trump Arrisca Conflito Prolongado com Irã Após Romper Cessar-Fogo Donald Trump, que prometeu acabar com guerras, enfrenta o risco de se envolver em um conflito prolongado com o Irã. Após romper o cessar-fogo, os ataques dos EUA não alcançaram os objetivos de mudança de regime ou fim do programa nuclear iraniano, agravando tensões no Estreito de Ormuz. Analistas destacam a "falácia da guerra curta", onde líderes subestimam a duração e impacto dos conflitos, sem estratégia clara para sucesso diplomático. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Ninguém começa uma guerra esperando que ela dure para sempre. Ainda assim, desde a Guerra do Vietnã, presidentes americanos têm repetidamente se envolvido em conflitos que parecem poder se arrastar indefinidamente, pelo menos até que o presidente seguinte — ou o seguinte a ele — decida que o custo financeiro e o desgaste político já não compensam, declare vitória e traga as tropas de volta para casa. No caso do Irã, o presidente Donald Trump pode ter caído na mesma armadilha. Ele fez campanha prometendo encerrar guerras, e não iniciá-las, e afirmou que jamais se envolveria em uma guerra sem fim, muito menos no Oriente Médio. Ainda assim, seus críticos dizem que é exatamente esse o risco que ele corre agora no Irã. A guerra iniciada por Israel e pelos Estados Unidos com tamanha intensidade alternou momentos de negociação e ataques militares. Até agora, ela fracassou em alcançar os objetivos declarados por Trump de promover uma mudança de regime ou pôr fim ao programa nuclear iraniano, ao mesmo tempo em que criou um novo problema, aparentemente insolúvel: o bloqueio do Estreito de Ormuz. Com a diplomacia em um beco sem saída, pelo menos por enquanto, um Trump frustrado se vê novamente em guerra, com o cessar-fogo rompido e o estreito bloqueado. O memorando de entendimento que, segundo ele, “alcança tudo o que nos propusemos a realizar” — apesar das interpretações profundamente divergentes sobre seu conteúdo — virou praticamente letra morta em menos de um mês. — Ambos os lados encararam o memorando de entendimento como a continuação da guerra por outros meios, e não como uma ponte para a paz — afirmou Ali Vaez, diretor do projeto sobre o Irã no International Crisis Group, acrescentando que, sem uma estratégia de longo prazo capaz de produzir um acordo sustentável, existe o risco de criar “as circunstâncias para uma guerra sem fim”. ‘Falácia da guerra curta’ A ideia das chamadas “guerras sem fim” surgiu após os atentados de 11 de setembro e a “guerra global ao terrorismo”, que levou os Estados Unidos a longos envolvimentos militares, com tropas em solo, tanto no Afeganistão quanto no Iraque. Esses conflitos, iniciados com a derrubada de regimes hostis e transformados depois em campanhas de contrainsurgência, terminaram de forma inconclusiva ou em derrota, após enormes gastos e perdas de vidas. Líderes poderosos, à frente de forças armadas poderosas, tendem a cair naquilo que Lawrence D. Freedman, professor emérito de Estudos da Guerra no King's College de Londres, chama de “falácia da guerra curta”. No ano passado, ele publicou um artigo intitulado The Age of Forever Wars (“A Era das Guerras sem Fim”, em tradução livre). — Eles acreditam que podem vencer rapidamente e não sofrer consequências negativas — disse, destacando que, assim como Trump no Irã e Vladimir Putin na Ucrânia, “eles deixam de compreender os limites do poder militar e, por isso, estabelecem objetivos que só podem ser alcançados, se é que podem, por meio de uma luta prolongada”. E mesmo as forças militares mais sofisticadas não bastam quando não existe uma estratégia capaz de transformar a superioridade no campo de batalha em um sucesso político e diplomático duradouro. Trump enfrenta ainda o desafio adicional de tentar vencer utilizando apenas poder aéreo e naval, sem recorrer ao uso politicamente impopular de tropas terrestres em território iraniano. A Guerra do Golfo Pérsico, em 1991, foi rápida e atingiu seus objetivos porque o presidente George H.W. Bush tinha uma meta política limitada: expulsar Saddam Hussein do Kuwait. Essa lição, porém, acabou sendo ignorada por seu filho, o presidente George W. Bush, na segunda guerra contra o Iraque, que terminou fortalecendo o poder do Irã na região. No Afeganistão, depois que Bush derrubou o regime do Talibã, ele e seus sucessores tentaram, sem sucesso, reconstruir a sociedade afegã. Quando Washington perdeu o interesse no esforço, o Talibã voltou ao poder. Nova aposta Há quem argumente — às vezes o próprio Trump faz isso — que ele entrou em guerra contra o Irã para finalmente encerrar o que considera um conflito de 47 anos entre os EUA e o Irã, iniciado com a queda do xá iraniano em 1979 e a tomada de mais de 60 reféns americanos. A “guerra sem fim” entre os dois, argumenta Vali Nasr, professor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, é apenas mais um capítulo de um conflito que alternou momentos de forte tensão com períodos de entendimento, como ocorreu com o acordo nuclear de 2015, do qual Trump retirou os EUA em 2018. Aaron David Miller, pesquisador sênior da Carnegie Endowment for International Peace, afirmou que Trump, incentivado por Israel, também se inseriu em outra “guerra sem fim”: o conflito entre Israel e Irã, travado por meio dos grupos aliados de Teerã no Líbano, nos territórios palestinos e no Iêmen (Hezbollah, Hamas e Houthis, respectivamente). Trump ainda tem a possibilidade de apresentar essa guerra impopular a sua base política como algum tipo de vitória e se retirar. Mas, para surpresa de muitos, ele parece estar dobrando a aposta, embora sem um caminho claro para um acordo diplomático. E seu compromisso de manter aberto o Estreito de Ormuz, enquanto o Irã insiste em preservar seu controle sobre a área, pode significar um envolvimento militar americano muito prolongado, mesmo com o apoio de aliados. Caso particular Ainda assim, a guerra contra o Irã é diferente, especialmente quando comparada ao Afeganistão e à segunda guerra do Iraque. Em ambos os conflitos, milhares de soldados americanos permaneceram em solo por longos períodos e acabaram combatendo milícias e grupos terroristas que se opunham a governos sustentados pelos Estados Unidos — e não enfrentando diretamente um Estado como o Irã. E, diferentemente do que ocorreu no Vietnã, no Iraque ou no Afeganistão, o Irã pode impor custos econômicos aos Estados Unidos ao bloquear o acesso ao estreito, o que dá a Teerã um instrumento de pressão muito mais eficaz e constitui uma das principais razões pelas quais o país se recusará a abrir mão do controle da passagem. Não haverá retorno à situação anterior à guerra, afirmou Suzanne Maloney, diretora de política externa da Brookings Institution. Assim como ocorreu no Iraque, disse ela, as premissas equivocadas e as percepções erradas dos Estados Unidos alteraram o equilíbrio de poder na região e, agora, os dias em que o Estreito de Ormuz permanecia totalmente livre para o trânsito provavelmente ficaram para trás. Segundo ela, pode surgir “um novo normal”, “mas com uma presença militar americana muito maior na região”, dada a capacidade do Irã de atacar embarcações sempre que desejar. Explosões, fumaça e destruição: as imagens do ataque de EUA e Israel ao Irã 1 de 12 Imagem capturada da televisão estatal iraniana mostra o local que seria da escola da escola primária para meninas na província iraniana de Hormozgan, perto do estreito de Ormuz. — Foto: IRIB TV / AFP 2 de 12 Frame de vídeo mostra pessoas inspecionando os danos em um local atingido após ataques dos EUA e de Israel em Teerã, no Irã — Foto: AFP X de 12 Publicidade 12 fotos 3 de 12 Frame de vídeo de redes sociais mostram explosões em Teerã após EUA e Israel bombardearem a capital em ataque coordenado ao Irã — Foto: AFP 4 de 12 Uma nuvem de fumaça se eleva após uma explosão relatada em Teerã após EUA e Israel bombardearem capital em ataque coordenado. — Foto: ATTA KENARE / AFP X de 12 Publicidade 5 de 12 Projétil iraniano atinge base naval dos EUA no Bahrein — Foto: AFP 6 de 12 Fumaça sobe nos céus de Abu Dhabi em meio a ataque retaliatório do Irã por agressões dos EUA e Israel — Foto: AFP X de 12 Publicidade 7 de 12 O rastro de um foguete do sistema de defesa antimíssil Domo de Ferro de Israel é visível sobre os céus de Jerusalém — Foto: JACK GUEZ / AFP 8 de 12 Fumaça de um ataque aéreo israelense na área sul do Líbano, al-Qatrani. EUA e Israel bombardearem a capital do Irã, Teerã, em ataque coordenado — Foto: Rabih DAHER / AFP X de 12 Publicidade 9 de 12 EUA e Israel lançam ataque coordenado contra o Irã; bombas no Teerã (foto) começaram na manhã deste sábado (28) — Foto: ATTA KENARE / AFP 10 de 12 Pessoas correm para se abrigar ao som das sirenes em Tel Aviv. As Forças Armadas de Israel afirmaram que seus ataques contra o Irã, em coordenação com os Estados Unidos, atingiram dezenas de instalações militares. — Foto: Jack GUEZ / AFP X de 12 Publicidade 11 de 12 Motoristas lotam ruas de Teerã, capital iraniana — Foto: AFP 12 de 12 O rastro de um foguete do sistema de defesa antimíssil Domo de Ferro de Israel é visível sobre os céus de Jerusalém — Foto: JACK GUEZ / AFP X de 12 Publicidade Imagens registram fumaça, danos em áreas urbanas e o clima de guerra que se espalha pela região. Como os interesses de Washington nessa guerra são significativamente menores do que os do Irã, afirmou Nasr, que trabalhou na guerra do Afeganistão, “o ritmo começa a diminuir, enquanto o outro lado está disposto a manter o mesmo nível de intensidade”. À medida que os Estados Unidos começaram a se retirar do Afeganistão, assim como fizeram no Vietnã, “o equilíbrio começou a mudar”. Mas um fim negociado para a guerra no Irã ainda parece distante. Ambos os lados demonstraram que não conseguem sequer cumprir um acordo mínimo que adie as questões substantivas para o futuro, afirmou Vaez. Se não conseguem nem isso, disse, a situação “pode remover a última barreira entre confrontos esporádicos e uma guerra sem fim”.