O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu combates de artes marciais mistas (MMA) no relvado da Casa Branca no domingo, 14 de Junho, num espectáculo sem precedentes que evidenciou a sua predisposição para misturar o lado cerimonial do cargo que ocupa com o seu estilo brutal de política e os interesses empresariais da sua família. Os sete combates do Ultimate Fighting Championship (UFC) constituem o primeiro evento desportivo profissional alguma vez realizado na Casa Branca.Integra-se nas celebrações da administração Trump do 250.º aniversário da nação e é peça central do “Verão do desporto” do Presidente. O evento, realizado no 80.º aniversário de Trump, começou horas depois do anúncio de um acordo de paz para pôr termo à guerra de quatro meses entre os Estados Unidos e o Irão, a qual fez subir os preços ao consumidor para o nível mais elevado em três anos, inquietando os eleitores. Coincide também com os seus esforços para contrariar a percepção de que se está a tornar um Presidente em fim de mandato.Minutos depois de se dirigir ao seu lugar junto ao ringue — enquanto a banda do corpo de fuzileiros navais (os marines) tocava ao vivo Thunderstruck, dos AC/DC — Trump já publicava pormenores sobre o acordo com o Irão nas redes sociais e falava ao telefone com jornalistas.Dentro da jaula octogonal, cercada por uma rede metálica, patrocínios de grandes empresas norte-americanas e de alguns aliados políticos de Trump — incluindo a plataforma de vídeo em streaming Rumble, a empresa tecnológica de envios EasyPost e o grupo conservador Turning Point USA — alinhavam-se na lona.Alguns dos lutadores vitoriosos cumprimentaram Trump após os combates. O lutador norte-americano Bo Nickal, após vencer por KO, trepou a vedação da jaula para apertar a mão de Trump. O Presidente segurou nas luvas vermelhas do pugilista e deu-lhe uma palmada no ombro suado em sinal de felicitação.“Isto é inacreditável”, disse Nickal depois, apontando para Trump numa entrevista pós-combate ao podcaster Joe Rogan, comentador televisivo de longa data do UFC. “É preciso ser alguém muito especial para ter a coragem de fazer algo assim.”Outro lutador vencedor, o peso-pesado Josh Hokit, entregou a Trump um objecto que colocou ao pescoço do Presidente antes de proferir um discurso recheado de palavrões, que incluiu elogios a Trump e terminou com uma farpa misógina dirigida à ex-primeira-dama Michelle Obama.O recinto temporário, alcunhado The Claw, com 20 filas de profundidade em todos os lados e estruturas que se elevavam acima do telhado da Casa Branca, proporcionou um ambiente íntimo para os combates de domingo, em comparação com as arenas habitualmente usadas pelo UFC.Os lutadores aqueceram num espaço no edifício Eisenhower Executive Office, ao lado, e fizeram a sua entrada para os combates a partir do interior da própria Casa Branca. O som do sistema de áudio repercutia-se na fachada da varanda Truman da Casa Branca, fazendo vibrar as paredes da residência executiva.Socos e poder económicoDecorridos 17 meses do seu segundo mandato, Trump tem repetidamente esticado os limites da presidência para captar a atenção e projectar força.Em Março, comunicou a compra de até 50.000 dólares em acções da TKO Group Holdings, a empresa-mãe do UFC cotada em bolsa. O circuito de combates afirmou que gastaria 60 milhões de dólares para suportar o custo do evento, mas nem a empresa nem a Casa Branca forneceram pormenores dos acordos financeiros.“A esmagadora maioria dos norte-americanos não está a celebrar 250 anos da América a ver um combate do UFC”, disse Dan Rayburn, analista independente de streaming. “Isto é, na realidade, um evento privado.”As legendas do evento, transmitido na Paramount+, foram patrocinadas pela Trump Coin, as moedas de ouro e prata com o perfil do Presidente vendidas pela família Trump. A World Liberty Financial, uma empresa de criptomoedas apoiada por dois dos filhos do Presidente e pelo filho do seu principal negociador diplomático, contribuiu para o fundo de prémios distribuídos aos lutadores que impressionassem os responsáveis do UFC.Os bilhetes não foram vendidos ao público. A Casa Branca recrutou militares para ocupar parte dos 4000 lugares da arena. Outros bilhetes foram controlados pela administração Trump. O UFC ofereceu ainda alguns a convidados que pagaram mais de um milhão de dólares, disse à Reuters uma pessoa com conhecimento do assunto.A Casa Branca rejeitou alegações de conflito de interesses e afirmou que a família Trump gere os assuntos empresariais do Presidente.Taxa de aprovação baixaTrump invocou amplos poderes executivos para realizar o evento de uma empresa privada em terrenos federais, rompendo com normas e levantado até uma ordem judicial contra o espectáculo (que não teve consequência), bem como preocupações quanto ao custo do evento e a potenciais conflitos éticos. Numa sondagem online da Reuters/Ipsos a 4531 adultos norte-americanos, realizada de 3 a 8 de Junho, apenas 16% consideraram apropriado que Trump realizasse o evento. Um juiz recusou, na sexta-feira, bloquear o evento no âmbito de uma acção judicial movida por autores que alegavam que a administração excedera a sua autoridade ao organizá-lo.Trump, cujo envolvimento ocasional com as artes marciais mistas remonta a décadas, mantém proximidade com o director executivo do UFC, Dana White, e com a família Ellison, cuja Paramount tem um acordo de 7,7 mil milhões de dólares para transmitir combates do UFC até 2033. Trump fez do desporto um elemento recorrente da sua presidência, intervindo em questões como atletas transgénero e remuneração de jogadores de futebol universitário, e tem assistido a vários grandes eventos desportivos, incluindo diversos espectáculos do UFC.A França adiou a cimeira do G7, que começa na segunda-feira, para acomodar a presença de Trump no evento do UFC de domingo.Cerca de um quinto dos norte-americanos diz ser fã de MMA. Segundo os resultados da sondagem Reuters/Ipsos, os adeptos de combates não têm, em geral, uma opinião particularmente favorável sobre o desempenho de Trump no cargo.
UFC na Casa Branca: jaula, AC/DC, socos, poder, negócios familiares e happy birthday, Trump
Decorridos 17 meses do seu segundo mandato, Trump tem repetidamente esticado os limites da presidência para captar a atenção e projectar força.












