As civilizações se Desmoronam quando começamos a transformar a morte (dos outros) num grosseiro espetáculo de massas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente dos EUA, Donald Trump, em entrevista coletiva à imprensa durante a reunião da Otan em Ancara, na Turquia — Foto: Saul Loeb/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Donald Trump aplica a doutrina de Khrushchev ao criar problemas reais como resposta a problemas imaginários, exemplificado pela tensão contínua com o Irã. As civilizações emergem quando aprendemos a fazer o luto. Desmoronam-se quando começamos a transformar a morte (dos outros) num grosseiro espetáculo de massas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO 1. Numa recente entrevista ao El País, o cientista político americano Mark Lilla recordou um encontro entre Nikita Khrushchev e Richard Nixon. Khrushchev teria dado um curioso conselho a Nixon: “Se as pessoas lhe dizem que querem um rio imaginário, não diga a elas que não há rio; diga a elas que você vai construir uma ponte imaginária.” Na opinião de Lilla, é isto que explica o sucesso de Donald Trump. O atual presidente americano oferece às pessoas soluções imaginárias para problemas imaginários. Infelizmente, Trump não se limitou a assimilar a doutrina de Khrushchev — expandiu-a! Começou a criar problemas reais como resposta a problemas imaginários. Um bom exemplo é a interminável guerra contra o Irã, que recomeçou com toda a violência esta semana, e está prejudicando não apenas os EUA, mas o mundo inteiro. Hoje ou amanhã Donald Trump anunciará um novo acordo de paz. Numa declaração irônica, Hunter Biden, o problemático filho de Joe Biden, afirmou concordar com a atribuição do Prêmio Nobel da Paz a Donald Trump: “Não por ter acabado com uma guerra, mas por ter acabado dezenas de vezes com a mesma guerra.” Rimos para não chorarmos. 2. Esta manhã despertei com uma terrível algazarra. Saltei da cama e corri para o quintal, onde encontrei um dos meus gatos, o Milo, lutando contra um jovem corvo. Largas dezenas de sólidos pássaros negros tumultuavam o céu. Gritavam enfurecidos. Levei alguns segundos para afastar o gato. Infelizmente, não fui a tempo de salvar a ave. Peguei no pequeno corpo e levei-o até o terraço. Coloquei-o num muro alto, fora do alcance dos gatos, na esperança de que os corvos entendessem o meu gesto como um pedido de desculpa. Não simpatizo com corvos. São um predador terrível, que ataca os outros pássaros, comendo os ovos e destruindo os ninhos. Já vi corvos roubando os ovos da nossa galinha, a Sanji, uma venerável senhora, agora com 11 anos de idade, que até os gatos respeitam. Por outro lado, admiro-os, os corvos, pela inteligência e combatividade. Durante um tempo largo os corvos continuaram gritando. Alguns aproximaram-se do companheiro morto, olhando-o, empurrando-o com o bico. Finalmente, foram-se embora. 3. Ao final do dia retornei ao terraço. O pequeno corpo desaparecera. O céu recuperara a indiferença. Foi então que reparei nos gatos. Mila e Milo observavam o muro à distância, sentados sobre as patas traseiras, naquela espécie de perplexidade que os felinos passaram milênios a aperfeiçoar. Fiquei pensando na manifestação dos corvos. O desespero deles era autêntico, convulso. Tinha asas. Talvez gritassem contra os gatos; talvez gritassem contra mim; talvez gritassem contra o escândalo da morte. Não sei. Se aquele tumulto era um luto, então era também uma forma de celebrar a vida. As civilizações emergem quando aprendemos a fazer o luto. Desmoronam-se quando começamos a transformar a morte (dos outros) num grosseiro espetáculo de massas.
A manifestação dos corvos
As civilizações se Desmoronam quando começamos a transformar a morte (dos outros) num grosseiro espetáculo de massas






