Quando não está bombardeando o distante Irã, Trump está insultando os repórteres que cobrem o governo americano 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca — Foto: KENT NISHIMURA / AFP A gente vive dizendo que o mundo anda estranho. Não pretendo dissecar toda a estranheza do mundo, apenas afirmar que parte dela vem do norte, onde vive o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump. Quando não está bombardeando o distante Irã, está insultando os repórteres que cobrem a Casa Branca. É nossa ração quase diária de amargor. Trump tem problemas cognitivos. Mas talvez essa seja a parte mais amena de seu embate com a imprensa. Está ficando gagá, e sua sobrinha, Mary Trump, psicóloga, acha que é Alzheimer, escorando-se no histórico familiar, com base na doença do avô. É impossível diagnosticar dessa forma, mesmo porque os escorregões de Trump não têm um padrão. Podem ser influenciados pela agenda intensa. Em maio deste ano, em discurso na Academia da Guarda Costeira, ele tropeçou na palavra strength (força) e teve dificuldades em pronunciar outras palavras. Em julho, durante a Cúpula da Otan, cometeu três erros em dez minutos. O último deles é inesquecível. Referindo-se ao Irã, chamou o país de República Islâmica do Japão. O inventário é longo. Tropeçou nas palavras stock market (mercado de ações), anonymous (anônimo), confundiu nomes de líderes estrangeiros e chamou o TikTok de TicTac. Claro que isso traz uma discussão permanente sobre seu poder cognitivo. Mas as coisas ficam pesadas mesmo quando os repórteres na Casa Branca fazem perguntas diretas sobre suas incongruências, sobre o caso Epstein, sobre o perdão a criminosos próximos à família. Quase diariamente, Trump chama um repórter de estúpido, de pessoa horrível. Não contente em processar empresas e ameaçar cancelar licenças de emissoras de TV, se esforça por humilhar os outros. Recentemente, em discurso no jantar dos correspondentes, resolveu virar sua metralhadora verbal contra a repórter Kaitlan Collins, da CNN. Ela seria premiada, e Trump a associou a fake news, dizendo que era uma pessoa que nunca sorria. O que Collins faz com Trump para ele odiá-la? Apenas faz perguntas diretas, ouve todos os insultos e registra tudo com acuidade: — A pergunta mesmo o senhor não respondeu. Ao mesmo tempo que Trump se vangloria da grandeza da América, diz que um país civilizado não pode ter a imprensa que os Estados Unidos têm. Fica furioso com perguntas elementares. Um dia diz que os dirigentes iranianos são racionais; no outro diz o contrário e os animaliza. No meio dessas contradições, distribui insultos aos jornalistas que as apontam. É desolador ver e ouvir tudo isso. Lembra-me um filme de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, em que um casal pede carona de carro e passa um trecho da estrada brigando. Quando sai do carro, leva consigo todo o astral pesado. O problema é que a Casa Branca não pode sair do carro. Nem os repórteres, presos a seu dever profissional, podem deixar Trump falando sozinho. Estamos condenados às baixarias, e elas contribuem para a sensação de estranheza do mundo. Sem falar na produção nacional ou mesmo nos algoritmos que adoram uma baixaria.