Código florestal mais flexível e necessidade de maior envolvimento dos estados no combate à ilegalidade estão entre os motivos citados por especialistas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Desmatamento em área do Cerrado para plantio de soja — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo/17/01/2024 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 12/06/2026 - 21:31 Desmatamento na Amazônia cai 37,5%, menor índice desde 2016 O desmatamento na Amazônia caiu 37,5% entre agosto de 2025 e maio de 2026, o menor índice desde 2016, segundo o Inpe. No Cerrado, a redução foi de apenas 8,2%, devido a um código florestal mais flexível e à predominância de terras privadas, dificultando o combate à ilegalidade. Especialistas destacam a necessidade de maior envolvimento dos estados e apontam o impacto da expansão agrícola no bioma. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O total de áreas sob alerta de desmatamento na Amazônia entre agosto de 2025 e maio de 2026 caiu 37,5% na comparação com o ciclo anterior — de agosto de 2024 a maio de 2025. O número — 2.189 km² de floresta derrubada — representa o menor da série histórica, iniciada em 2016, para o período. A queda no Cerrado, por outro lado, foi mais tímida, de 8,2%. Foram 4.208 km² do bioma impactados pela supressão de vegetação. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que utiliza o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter). A ferramenta permite acesso aos pesquisadores a dados diários de supressão vegetal nos biomas. Se considerado apenas maio deste ano, a Amazônia teve uma redução de 61,4% nas áreas sob alerta de desmatamento em relação ao mesmo mês do ano passado — essa é a maior redução percentual da série histórica. Já o Cerrado apresentou queda de 12,2% na comparação com maio de 2025 e de 25,3% ante o mesmo mês de 2024. Combate ao desmatamento — Foto: Editoria de Arte Diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e coordenadora do MapBiomas Fogo, Ane Alencar avalia que o cenário de redução amazônico decorre de um conjunto de iniciativas de monitoramento da floresta. — Houve operações do Ibama e o uso de imagens de satélite para responsabilização, além da criação do programa União com Municípios, que engaja as cidades no combate ao desmatamento. Essas medidas, em conjunto, explicam a queda do desmate no bioma — afirma Alencar. Para a pesquisadora, a dificuldade em derrubar o desmatamento no Cerrado decorre da estrutura de distribuição de terras no bioma: — Uma grande parcela da Amazônia é composta por terras públicas. Nesses casos, é mais fácil para o governo colocar a força de comando e controle para atuar contra o desmatamento. No Cerrado, é o contrário: são muitas terras privadas. Diferenças de perfis Já Mauricio Voivodic, diretor executivo da WWF-Brasil, destaca que o código florestal do Cerrado é mais flexível no que diz respeito ao desmatamento legal do que o da Amazônia. Esse fator, segundo o especialista, dificulta o combate governamental à ilegalidade. — A atuação do governo federal tem sido muito orientada pela fiscalização e combate ao desmatamento ilegal. No Cerrado, o código florestal permite desmatar até 50% das propriedades rurais. Isso torna mais difícil fazer a distinção do que é o desmatamento legal e ilegal, nesse bioma que vem sendo impactado pela pressão da expansão da produção de alimentos — avalia. Voivodic também ressalta que o combate ao desmatamento no Cerrado depende mais dos governos estaduais, que atuam no licenciamento e fiscalização, o que traz desafios: — O Brasil tem estados muito conectados com a força política do agronegócio. Eles acabam cedendo autorizações para supressão de vegetação em grande escala e não fazem a fiscalização devida. Os resultados apresentados nesta semana são “expressivos”, na avaliação de Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima. — Os dados mostram a tendência de queda do desmatamento no Brasil em 2026. Se isso se confirmar, será o quarto ano seguido de diminuição na devastação dos biomas — ressalta. Astrini destaca a importância da diminuição do desmatamento para o enfrentamento brasileiro às consequências do El Niño. O fenômeno derivado do aquecimento anormal do Oceano Pacífico deve impactar o país neste segundo semestre. — O desmatamento deixa o solo mais exposto e, por consequência, o país mais vulnerável — explica. Justificativa de tarifas Os dados foram apresentados durante uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à sede da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) em Brasília. Na agenda, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, relacionou a queda do desmatamento ao investimento da gestão petista a mecanismos de preservação da natureza. Já Lula usou o evento para retomar as críticas aos Estados Unidos, afirmando que o governo de Donald Trump “mentiu” ao citar questões ambientais entre as justificativas para impor tarifas sobre produtos brasileiros. O petista também disse que o combate ao desmatamento é uma decisão do governo brasileiro e não resultado de pressões externas. — Agora é hora da comparação. Eles mentiram a primeira vez que taxaram o Brasil em 50% e agora com esse negócio que eles falaram da questão do desmatamento. Eles não sabem o trabalho que nós fazemos para fazer com que o desmatamento chegue a zero até 2030 — disse o presidente na quinta-feira.