O Banco Central Europeu (BCE) decidiu ontem elevar a taxa de juros em 0,25 ponto percentual, em uma ação que os investidores esperam possa ser disseminada pelas demais autoridades monetárias. A presidente do BCE, Christine Lagarde, definiu uma posição diante de dúvidas que afligem outros BCs: o choque de energia trazido pela guerra de EUA e Israel contra o Irã não é provisório: sem elevar juros, a inflação na zona do euro só voltaria à meta de 2% em ao menos três anos. O contexto que favorece a alta é o mesmo em vários países, como EUA, Japão e Brasil, porém a intensidade da reação e quando ela será executada depende de indicadores de cada um. A Europa foi de longe a mais afetada pelo choque do petróleo, que veio na sequência de uma ainda mal resolvida resposta ao corte do fornecimento de gás pela Rússia, quando a Ucrânia foi invadida. Ela é uma grande importadora de energia, e a inflação ao consumidor em maio, em relação a maio de 2024, foi de 3,2%, na terceira alta mensal consecutiva. As projeções do BCE não deixam dúvida sobre a pressão, com o índice de preços devendo fechar o ano em 3% (2,6% na previsão anterior) e o núcleo de inflação (exclui alimentos e energia), em 2,5%. Pode ser pior: no caso de o petróleo chegar a US$ 165 o barril, a inflação atingiria 4% no corrente exercício e 5,4% em 2027. A ação do BCE era esperada. Os preços subiram mesmo diante de uma economia em ritmo fraco, mais perto da estagnação do que de uma vigorosa expansão — o PIB deve crescer 0,8% no ano e 1,2% em 2027 — e de uma taxa de juros alinhada com tendência de longo prazo, de 2%. O choque do petróleo desalinhou as expectativas, que o aumento dos juros procura corrigir. Pelos sinais dados, e sem surpresas negativas, mais uma elevação dos juros é aguardada até o fim do ano. Até que ponto o BCE antecipa os próximos passos da política monetária de outros países? A tendência é de aperto, mas em graus e timing variados. O nível de aquecimento da economia e o estágio dos juros em relação à taxa de longo prazo definirão o futuro, que depende em boa medida das decisões que o Federal Reserve tomará. Algumas diferenças são importantes. A inflação de serviços subiu na Europa, mas caiu nos Estados Unidos, considerando o índice de preços ao consumidor, de 4,2% em maio (12 meses) e 3,8% em abril. Tanto os preços no varejo como no atacado (ao produtor) se situaram perto dos níveis observados em novembro de 2022, ao fim da pandemia da covid-19, levantando temores de uma disparada inflacionária similar. O paralelo não procede: os juros estavam então próximos de zero ou negativos, ao contrário de hoje. Na Europa, estão no nível de equilíbrio, e nos EUA ainda são levemente contracionistas. Europa, EUA e Brasil estão com desemprego nas mínimas históricas, mas a pressão salarial decorrente é distinta. Na zona do euro, os salários crescem à frente dos preços, enquanto nos EUA passaram a correr atrás deles e no Brasil começam aos poucos a ficar defasados. O consumo europeu, por outro lado, está em queda, enquanto o americano exibe boa forma e o brasileiro está muito mais forte do que seria compatível com juros exorbitantes como os atuais, devido às ações do governo para estimulá-lo. O crédito recuou 11% em um ano na zona do euro, mantém-se em ritmo compatível com o avanço da economia nos EUA, e está completamente fora de esquadro no caso do Brasil. O hiato de crédito (diferença positiva ou negativa em relação à tendência histórica), segundo o BCB, era de 8% no início do ano e deve ter crescido bastante após o festival de iniciativas do governo, com objetivo eleitoral, do primeiro semestre. Os investimentos caem na Europa e no Brasil, mas nos EUA há um boom puxado pela inteligência artificial, que sustenta o crescimento americano e do comércio global. Nessas circunstâncias, o novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, escolhido pelo presidente Donald Trump, terá contrariedades em sua primeira reunião no comando do banco. Nada hoje é mais contraindicado que seu desejo (e o de Trump também) de cortar os juros e é possível que tenha de elevá-los até o fim do ano, como indicam as projeções de juros futuros. Mas há ainda um bom espaço para manter as taxas dos fed funds onde estão (3,5% a 3,75%) à espera da definição do conflito com o Irã, que elevou os preços dos combustíveis em 50% e os dos fertilizantes em 28% na comparação anual. O aquecimento dos investimentos em IA acrescenta ímpeto à alta dos preços, com variação de 19%, por exemplo, nos equipamentos de armazenamento de dados e computadores, segundo o índice de preços ao produtor de maio. O BC do Brasil mantém uma política duríssima de juros, que nem o BCE e o Fed têm, mas com respostas muito menos favoráveis da economia e da inflação, pelos estímulos na direção dados pelo Executivo. Possivelmente terá de pausar a já contida trajetória de corte das taxas, à espera de tempos melhores para continuá-la, e com ameaça, ainda remota, de ter de elevá-las de novo. O que o BCE mostrou ontem, e que os demais bancos centrais podem acompanhar no futuro, é que a política monetária terá de ser contracionista no curto prazo.
BCE é o primeiro a subir juros e indica tendência
A ação do BCE era esperada diante da alta dos preços, apesar do fraco ritmo de crescimento econômico da zona do euro













