Em resposta à subida da inflação trazida pelo actual conflito no Médio Oriente, o Banco Central Europeu (BCE) decidiu esta quinta-feira subir as suas taxas de juro de referência em 0,25 pontos percentuais, um agravamento dos custos de financiamento na zona euro que já não acontecia há quase três anos e que tem um impacto negativo nas contas de muitas famílias e empresas portuguesas.Indo ao encontro das expectativas generalizadas dos analistas, os membros do conselho de governadores da autoridade monetária europeia (de que faz parte Álvaro Santos Pereira, o governador do Banco de Portugal) passaram a taxa de juro de depósito do BCE - que é actualmente a principal referência para os custos de financiamento na zona euro - dos 2% em que já se encontravam há precisamente um ano para 2,25%.É preciso recuar até Setembro de 2023 para encontrar a última subida de taxas de juro feitas pelo BCE. Nessa altura foi de 3,75% para 4%, o que constituiu o fim do ciclo de subidas realizadas para fazer face à escalada da inflação registada na sequência da guerra na Ucrânia.Agora, o que os responsáveis do BCE tentam fazer é controlar, logo ao início, a aceleração dos preços registada a seguir ao início da guerra no Irão no final de Fevereiro. A taxa de inflação subiu de 1,9% em Fevereiro para 2,6% em Março e manteve uma trajectória ascendente a seguir, cifrando-se em 3,1% em Abril e 3,2% em Maio.No comunicado em que anunciou esta quinta-feira a decisão de subir as taxas de juro, os responsáveis do BCE explicam que “a guerra no Médio Oriente está a gerar pressões inflacionistas” e defendem que “a decisão de subir as taxas é robusta face a um conjunto de cenários que mapeiam como o choque poderá evoluir e afectar as perspectivas a médio prazo para a zona euro."O BCE ainda assim reviu em alta as suas previsões para a inflação tanto este ano como no próximo, devido, afirma o comunicado, “a uma trajectória mais elevada para os preços da energia, que, até certo ponto, se prevê que se repercuta na inflação dos alimentos, bens e serviços”.A autoridade monetária antecipa agora que a inflação se cifre em 3% em 2026 e em 2,3% em 2027, regressando apenas em 2028 para o objectivo de 2% definido pelo BCE para si mesmo.Impacto na economiaMas se o objectivo é controlar a inflação, um dos riscos que uma subida das taxas de juro nesta altura comporta é o de fazer abrandar ainda mais uma economia que já está a dar sinais de redução do seu ritmo.Uma das formas como a subida das taxas de juro de referência chega à actividade económica é pela influência imediata que tem em taxas de juro de mercado como as Euribor. Estas taxas, que servem de referência para a maior parte dos empréstimos à habitação contraídos pelas famílias portuguesas, já têm estado a subir com a antecipação deste movimento do BCE e depois da decisão desta quinta-feira poderão reforçar esta tendência.As taxas Euribor mais altas reflectem-se, não só no custo dos novos créditos obtidos, mas também no valor das prestações dos créditos a taxa variável que têm as Euribor como indexante.Por causa deste efeito no rendimento disponível das famílias, a subida dos juros pode conduzir assim a um arrefecimento do consumo e do investimento que, ao mesmo tempo que pode ajudar a controlar a inflação, também pode conduzir a níveis de actividade económica e emprego mais baixos.Talvez por isso, esta quinta-feira o BCE reviu igualmente em baixa as suas previsões de crescimento económico na zona euro para este ano e o próximo. Se em Março antecipava variações do PIB de 0,9% e 1,3% para 2026 e 2027, respectivamente, agora a nova previsão aponta para taxas de crescimento ligeiramente inferiores, de 0.8% e 1,2%.Ainda assim, os responsáveis do BCE alertam que “as perspectivas continuam incertas, com riscos ascendentes para a inflação e riscos descendentes para o crescimento económico”. “As implicações totais da guerra para a inflação e o crescimento a médio prazo dependerão da intensidade e duração do choque dos preços da energia, bem como da escala dos seus efeitos indirectos e de segunda ronda”, acrescenta o comunicado. A presidente do BCE, Christine Lagarde, irá ainda esta tarde explicar em conferência de imprensa a decisão tomada.