A torre imponente está lá. As memórias também. Falta o resto – tudo o resto. O hotel La Torre, em Saltillo, foi a casa da selecção portuguesa no Mundial 86, mas dessa casa só restam paredes, sujidade, chão destruído e portas partidas.Esta é apenas a primeira impressão da “fortaleza”, como lhe chamaram os jogadores portugueses. De “fortaleza” acabou por ter muito pouco em 1986. E 40 anos depois continua a não ter.O edifício está abandonado. Ou talvez não. Há uma residente que controla as entradas: uma boneca sinistra com a cara coberta de sangue (ver fotografia principal). Mas não é ela quem impede um curioso de entrar.O portão estava fechado, mas não foi assim tão difícil aceder com uma pequena acrobacia. Na torre principal não foi possível entrar e não havia binóculo para melhor observação. De qualquer das formas, quem lá dormiu em 1986 foram os dirigentes e jornalistas. Os jogadores ficavam nos apartamentos que rodeavam a torre e esses foi possível visitar.Os antigos quartos onde estiveram os craques estão destruídos (ver fotografias) e nada neste edifício soa ao que descreveram os portugueses há 40 anos. “Este motel La Torre é um autêntico oásis no deserto. Os campos à volta são áridos, mas este pedacinho de La Torre é verdejante, cheio de relva, árvores e pássaros”, pode ler-se no livro “El Portugués”, com Paulo Futre a recordar um texto do Record. “Grandes condições, uma enorme piscina e muitas áreas ao ar livre. A 'fortaleza' parecia uma cidade dentro de outra”.O que o PÚBLICO viu no actual La Torre nada tem que ver com isto. É diferente – para pior. Pusemos um pé – e algo se partiu. A seguir outro. Um suave toque numa janela abanou-a demasiado. Há curiosidade, mas também o receio latente de que aquilo desabe. Mas se não desabou em 40 anos não haveria de ser nesta manhã de sol.Os crimesA história tem contado que por aqui já passaram cadáveres e tortura. Inicialmente, com lendas urbanas, reais ou ficcionadas, sobre crimes de grupos organizados de máfia local na década de 90.Mais consistentes são os relatos na imprensa mexicana que apontam para crimes e a Organização Mundial contra a Tortura apresentou mesmo um relatório em 2013 sobre 35 migrantes hondurenhos terem sido detidos e torturados nas instalações do hotel. Há casos de asfixia, choques eléctricos e violação sexual, com o propósito de os forçarem a confessarem tráfico de droga numa fase em que a cidade procurava combater o crime organizado.O crime era levado a cabo pelo Grupo de Reacção Operativa do Município de Saltillo, milícia municipal que tomou conta do edifício quando este deixou de ser um hotel. O grupo paramilitar terá torturado e matado pessoas no local, com corpos sepultados ali mesmo. Em 2015, um bispo da diocese local, citado num livro sobre Saltillo, dizia “o que outrora foi o motel La Torre é agora um local de tortura”.Luis Ledezma, nascido e criado em Saltillo, confirma os rumores e diz que explorou muito o edifício. “Sempre se falou muito disso. Eu entrei várias vezes, mas nunca encontrei nenhum morto”, aponta ao PÚBLICO, entre risos. Cadáver também não encontrámos nenhum no La Torre. Ou em Saltillo – até ver.Também se falou de eventos a acontecerem neste local famoso – um dos mais famosos da cidade. E houve ali uma das discotecas mais afamadas da região. “Estive várias vezes na discoteca no último andar do La Torre e, no antepenúltimo andar, fui a um casamento. E havia outro salão, onde assisti a um baile de finalistas. No salão principal assisti ao espectáculo da Olga Breeskin”, conta o saltillense Eleazar Garcia.Já Pavido Rodríguez descreve com detalhe o que havia neste hotel: “No topo, eram dois andares que simulavam a torre de controlo de um aeroporto. No último andar era a discoteca, com mesas e poltronas muito luxuosas e confortáveis. Em baixo, o espaço era alugado para reuniões, convenções e eventos privados, também com janelas panorâmicas com vista para Saltillo: o céu, a lua e as estrelas”.Nada de PortugalHá 40 anos, a piscina do hotel era um dos destaques do complexo. Paulo Futre recorda que, à falta de algo mais para fazer, era ali que tudo acontecia. “No jardim à volta da piscina costumávamos estar na companhia dos jornalistas portugueses e outros hóspedes do motel”, conta, sobre poemas declamados, música tocada e banhos de sol.Se os jogadores da selecção nacional quiserem lazer, que a praia privada que têm em Miami não deve ser grande coisa, a piscina do La Torre ainda lá está (ver galeria principal), com o respectivo escorrega. Água não tem, mas esse é um pormenor. Esse e a falta de salva-vidas, como avisa, e muito bem, o letreiro na piscina.Também é perfeitamente identificável o local por onde passaram as mulheres de Saltillo – as companheiras dos jogadores que Paulo Futre chegou a descrever, com legendas bem gráficas, no livro “El portugués”. Os acessos continuam intactos. Se a história se repetisse, as "chicas" que alegraram as noites da comitiva portuguesa não teriam dificuldades em encontrar a entrada.Em Saltillo, pudemos descobrir que o plano para o edifício é, na torre principal, um futuro complexo de escritórios e lojas. E apartamentos privados onde eram os apartamentos dos jogadores. A obra está agendada para arrancar no final do ano e vai prever ainda espaço para publicidade, já que a exposição da torre é tremenda.Um dos donos do hotel explica que “é um hotel com muita história e a ideia não é ser demolido". "Vai manter-se igual, mas remodelado e reparado por dentro e por fora”.E o nome? Tudo igual. O La Torre vai manter-se La Torre até ao fim. Perguntámos se algum escritório ou espaço de reuniões será baptizado com algo alusivo à estadia da selecção portuguesa em 1986. Uma “sala Portugal” ou “Saltillo 86”. Qualquer coisa.Dizem-nos que não está no plano. E talvez seja o desfecho mais coerente para Saltillo: até o hotel parece querer esquecer o que ali aconteceu em 1986.