A Federação de Futebol dos Estados Unidos (US Soccer) será a primeira federação do mundo a igualar a premiação em dinheiro da Copa do Mundo concedida às seleções feminina e masculina pela participação em seus respectivos mundiais. Essa mudança aconteceu em maio de 2022, após um longa disputa judicial promovida pelas atletas femininas. Na prática, isso significa que os EUA não remuneram os seus jogadores de futebol com base no valor de mercado ou nas premiações isoladas da Fifa, mas sim de forma igualitária. Como funciona? Hoje, existe uma grande diferença entre as premiações pagas pela Fifa para os torneios masculinos e femininos. Assim, a US Soccer criou um “mecanismo de compartilhamento”, conhecido como “pooling”. A US Soccer recolhe as premiações pagas pela Fifa e soma todo o dinheiro em um único fundo de pagamento. A Federação retira, então, a sua porcentagem sobre o valor, que gira entre 10% e 20%, e depois divide o restante igualmente entre os jogadores de ambos os times. Na prática, tanto homens quanto mulheres recebem as mesmas taxas de participação e os mesmos bônus de desempenho em amistosos e competições oficiais, independentemente de quanto a Fifa pague individualmente por cada torneio, o que unifica os interesses das duas seleções americanas. Com isso, a Federação é obrigada a fornecer condições idênticas de viagem, hospedagem, equipe técnica e infraestrutura de treinamento para ambas as seleções. Esse acordo tem validade até 2028 e também garante que parte das receitas de direitos de transmissão, patrocinadores e venda de ingressos de jogos organizados pela US Soccer seja compartilhada igualmente. Seleção feminina de futebol dos EUA em amistoso em 2026 — Foto: U.S. Women's National Soccer Team O que motivou essa decisão? A batalha pela igualdade salarial entre as equipes ganhou força em 2016, quando a seleção feminina processou a Federação por discriminação de gênero. O argumento principal era que as mulheres tinham um desempenho superior aos dos homens, mas recebiam bônus e taxas de participação drasticamente menores. De fato, quando se considera apenas a Copa do Mundo, a seleção feminina dos EUA é tetracampeã, com vitórias em 1991, 1999, 2015 e 2019, enquanto o melhor resultado que os homens já tiveram no campeonato foi um terceiro lugar em 1930. O processo movido pelas americanas foi resolvido apenas em 2022, com uma decisão favorável ao pagamento de US$ 24 milhões em compensação retroativa às jogadoras. Desigualdade de gênero Em escala global, a Fifa já declarou publicamente que deseja alcançar a igualdade de premiação entre as Copas do Mundo masculina e feminina até a edição de 2027. A entidade está aumento os investimentos nos campeonatos femininos e mudando as regras para incentivar a remuneração direta aos atletas. Ainda assim, esse caminho parece ser longo. Um levantamento feito pelo Valor, considerando notícias da época e relatórios da Associação de Jogadores de Futebol Profissionais da Austrália, mostra como as premiações da Copa do Mundo Feminina foram significativamente inferiores à dos homens nos últimos três campeonatos. Até 2019, o prêmio total da Copa do Mundo feminina era inferior à recompensa individual recebida apenas pelo time vencedor do campeonato masculino. Já nos últimos jogos, de 2023, a Fifa elevou a premiação feminina, apesar do valor ainda ser quatro vezes menor à do masculino. Para melhor compreensão da tabela, vale lembrar que os jogos femininos acontecem no ano seguinte aos dos jogos masculinos, por isso há dois anos indicados. Prêmios distribuídos pela Fifa nas Copas do Mundo Masculino Feminino Anos Prêmio total (US$) Prêmio do vencedor (US$) Prêmio total (US$) Prêmio da vencedora (US$) 2014/2015 358 milhões 35 milhões 15 milhões 2 milhões 2018/2019 400 milhões 38 milhões 30 milhões 4 milhões 2022/2023 440 milhões 42 milhões 110 milhões 4,29 milhões