Os ingressos mais caros para a final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, vencida pelo Brasil eram vendidos por US$ 475. Trinta e dois anos depois, o valor de um bilhete para o último jogo do Mundial de 2026 que começa na quinta-feira subiu pouco mais de 2.000%. Neste ano, os bilhetes para a decisão no MetLife Stadium, em Nova Jersey, estão sendo vendidos por mais de US$ 10 mil, mais de 20 vezes o valor de quem viu o Brasil erguer a taça no Rose Bowl em Pasadena, na região metropolitana de Los Angeles na Califórnia. Mas havia uma razão para os preços serem muito mais baixos. Há mais de 30 anos, as perspectivas para o torneio estavam longe de ser certas. Futebol não era conhecido nos EUA Os EUA, acostumados ao status de superpotência em praticamente tudo, eram, na melhor das hipóteses, um coadjuvante no futebol masculino de seleções. O país sequer tinha uma liga nacional de futebol estruturada. Rose Bowl Stadium, em Pasadena, Califórnia, recebeu a final da Copa do Mundo de 1994 — Foto: Reprodução A antiga North American Soccer League havia encerrado suas atividades após a temporada de 1984, e a Major League Soccer só começou a operar dois anos depois daquela Copa do Mundo, que foi vencida pelo Brasil. — Não tínhamos certeza de quão bem-sucedido seria o evento, mas sabíamos que os americanos adoram um grande espetáculo — disse Alan Rothenberg, presidente do comitê organizador e diretor-executivo do torneio de 1994. Na época, ele também presidia a US Soccer e havia supervisionado as partidas de futebol dos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 1984. Rothenberg também era um advogado que representou equipes como LA Lakers, LA Clippers e Portland Trail Blazers, além dos atletas Bruce (hoje Caitlyn) Jenner e Greg Louganis. Ele aproveitou suas conexões na indústria do entretenimento de Los Angeles. Whitney Houston, os Três Tenores, Robin Williams e outras estrelas foram convocados para ajudar a atrair público aos estádios. “Trouxemos todas as celebridades que você possa imaginar”, disse Rothenberg. Cerimônia foi um desastre Mas a desconfiança de que os EUA não eram realmente uma nação do futebol foi reforçada na cerimônia de abertura. Após dançar por toda a extensão do gramado para cobrar um pênalti, Diana Ross chutou a bola muito à esquerda da meta, impedindo o efeito preparado para simular um gol espetacular. Neste ano, a Fifa e os organizadores decidiram copiar o Super Bowl, principal evento esportivo dos EUA. Pela primeira vez, a final contará com um elaborado show de intervalo com Madonna, Shakira e o grupo sul-coreano BTS. Apesar das dúvidas iniciais, o torneio de 1994 começou a ganhar força. Entre os patrocinadores estavam marcas que permanecem relevantes até hoje — Gillette, McDonald’s e Adidas — e outras que desapareceram, como a Pontiac. Como o futebol tem poucas interrupções, ao contrário do futebol americano, as emissoras de TV dos EUA precisaram encontrar formas criativas de inserir publicidade durante as partidas. ABC e ESPN transformaram o então novo placar eletrônico exibido na tela em espaço publicitário, alternando marcas como Snickers e Coca-Cola. Os torcedores americanos, que costumavam rejeitar partidas com poucos gols, também aprenderam a apreciar a dinâmica do jogo. O futebol era tão novo para os EUA em 1994 que o país foi chamado de a “última fronteira” do esporte. Anúncios em revistas para promover os jogos mostravam um caubói laçando uma bola de futebol. Outro, com o slogan “Em 1994, a temporada de futebol começa em 17 de junho”, trazia a foto de um homem segurando uma bola na mesma pose do Troféu Heisman, símbolo do futebol universitário americano. — Recebi um orçamento para uma campanha de conscientização, como se fosse o lançamento de um novo produto — disse John Kristick, consultor esportivo responsável pela promoção do torneio. — Hoje a realidade é completamente diferente. Somos uma nação do futebol. O bom desempenho da seleção dos EUA em 1994 foi um bônus inesperado. A equipe chegou às oitavas de final, derrotando a poderosa Colômbia por 2 a 1. Andrés Escobar, da Colômbia, que marcou um gol contra, foi assassinado dias depois ao retornar ao país. Em seguida, os EUA enfrentaram o Brasil em 4 de julho, Dia da Independência americana. A torcida local que lotava o estádio em Palo Alto, na Califórnia, estava tão empolgada quanto qualquer outra do mundo, recordou Rothenberg. Os EUA fizeram frente ao Brasil no primeiro tempo, mas perderam por 1 a 0. A seleção brasileira seguiria até a final e se sagraria campeã, derrotando a Itália por 3 a 2 na disputa por pênaltis no Rose Bowl, em Pasadena, Califórnia. O torneio gerou lucro de US$ 40 milhões — cerca de US$ 88 milhões em valores atuais. No geral, o público médio foi de 68.991 espectadores por partida, com ocupação de aproximadamente 96% da capacidade dos estádios, tornando a competição uma das Copas do Mundo mais bem-sucedidas da história