Os melhores ingressos para a final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, foram vendidos por US$ 475. Este ano, os ingressos para a final no MetLife Stadium, em Nova Jersey, estão sendo vendidos por mais de US$ 10.000. Era muito mais barato por um motivo. Há mais de 30 anos, as perspectivas para o torneio estavam longe de ser certas. Os EUA, acostumados ao status de superpotência em tudo, eram, na melhor das hipóteses, um mero figurante no futebol masculino. Nem sequer tinham uma liga nacional adequada. A antiga North American Soccer League havia falido após a temporada de 1984, e a Major League Soccer só começou a jogar dois anos depois da Copa do Mundo. "Não tínhamos certeza do sucesso que teria, mas sabíamos que os americanos adoram um grande evento", disse Alan Rothenberg, presidente e diretor executivo do torneio de 1994, que também era presidente da Federação de Futebol dos EUA na época e supervisionou as partidas de futebol das Olimpíadas de Los Angeles de 1984. Rothenberg — um advogado que também representou times como o Los Angeles Lakers, o Los Angeles Clippers e o Portland Trail Blazers, além dos atletas Bruce (agora Caitlyn) Jenner e Greg Louganis — aproveitou suas conexões com o mundo do entretenimento em Los Angeles. Whitney Houston, os Três Tenores, Robin Williams e outras estrelas foram recrutadas para atrair público aos estádios. "Trouxemos todas as celebridades que você possa imaginar", disse Rothenberg. Mas a suspeita de que os EUA não eram realmente uma nação apaixonada por futebol aumentou na cerimônia de abertura, depois que Diana Ross dançou por todo o campo para cobrar um pênalti e chutou a bola para a esquerda do gol, que, infelizmente, estava preparado para se dividir e simular um golaço. Este ano, a Fifa e os organizadores decidiram copiar o Super Bowl, o principal evento esportivo dos Estados Unidos. Pela primeira vez, a final contará com um show de intervalo impecável com Madonna, Shakira e a boy band sul-coreana BTS. Apesar das dúvidas iniciais, o torneio de 1994 começou a ganhar força. Os patrocinadores incluíam uma mistura de marcas tradicionais — Gillette, McDonald’s e Adidas — e algumas que desapareceram, como a Pontiac. Como o futebolraramente é interrompido durante as partidas, ao contrário do futebol americano, as emissoras de TV americanas tiveram que encontrar maneiras criativas de inserir anúncios nos jogos. A ABC e a ESPN transformaram o novo placar eletrônico em espaço publicitário, exibindo marcas como Snickers e Coca-Cola. Os torcedores americanos, que antes se desanimavam com placares baixos, também aprenderam a apreciar o ritmo do jogo. "Uma jogada genial, uma jogada desastrosa — podia ser a diferença entre o dia e a noite", disse Rothenberg. "Os torcedores ficavam com o coração na boca do início ao fim." O futebol era tão novo nos EUA em 1994 que foi apelidado de "última fronteira" do esporte. Os anúncios em revistas para promover os jogos mostravam um cowboy laçando uma bola de futebol. Outra, com a legenda “Em 1994, a temporada de futebol americano começa em 17 de junho”, ilustrava a foto de um homem segurando uma bola de futebol na pose do Troféu Heisman do futebol universitário americano. “Recebi um orçamento para uma campanha de conscientização, como o lançamento de um novo produto”, disse John Kristick, consultor esportivo que supervisionou a promoção do torneio. “É fundamentalmente diferente agora. Somos uma nação do futebol.” O bom desempenho da seleção americana de 1994 foi um bônus inesperado. Eles chegaram às oitavas de final, vencendo a poderosa Colômbia por 2 a 1. O colombiano Andrés Escobar, que marcou um gol contra, foi assassinado dias depois, ao retornar para casa. Em seguida, os EUA enfrentaram o Brasil em 4 de julho, Dia da Independência. A torcida da casa, lotando o estádio em Palo Alto, Califórnia, estava tão empolgada quanto qualquer outra no mundo, lembrou Rothenberg. Os EUA lutaram no primeiro tempo, mas perderam por 1 a 0. O Brasil venceu a Itália por 3 a 2 nos pênaltis na final, disputada no Rose Bowl, em Pasadena, Califórnia. O torneio gerou um lucro de US$ 40 milhões — o equivalente a cerca de US$ 88 milhões em valores atuais. No geral, a média de público por partida foi de 68.991 pessoas, e os estádios ocuparam cerca de 96% da capacidade, tornando-se uma das Copas do Mundo mais bem-sucedidas da história. A cantora americana Diana Ross se apresenta na cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 1994 — Foto: Bloomberg Hoje, assim como em 1994, há muitas dúvidas sobre o sucesso da Copa do Mundo. Muitos potenciais visitantes estrangeiros, receosos de uma recepção hostil e dos altos custos nos Estados Unidos, estão evitando o evento. E enquanto os organizadores se preocupavam em 1994 com a possibilidade de estádios vazios devido à ausência de torcedores americanos, neste ano os fãs reclamam que os altos preços dos ingressos tornam os jogos acessíveis apenas para os ultra-ricos. Los Angeles sediará oito partidas da Copa do Mundo, incluindo a estreia da seleção dos EUA contra o Paraguai na sexta-feira. "Infelizmente", disse a prefeita de Los Angeles, Karen Bass, "estes são os jogos da elite mundial". Os preços foram fixados em valores altos para evitar que cambistas lucrem com o mercado, afirmou o presidente da Fifa, Gianni Infantino. A distribuição dos 6,7 milhões de ingressos deste ano para 104 partidas em 16 cidades dos EUA, Canadá e México é eletrônica. Em 1994, os organizadores imprimiram mais de 3,5 milhões de ingressos para 52 jogos em nove cidades americanas, que foram entregues por correio ou outros meios físicos a partir de um centro em Los Angeles. "Nós tomamos posse de um cofre de banco", disse Marla Messing, que gerenciava a distribuição de ingressos na época. Messing mais tarde comandou a seleção feminina da Copa do Mundo da Fifa de 1999, sediada nos EUA, que os Estados Unidos venceram nos pênaltis na final do Rose Bowl, uma vitória imortalizada na foto de Brandi Chastain comemorando ao arrancar a camisa. "Sempre há muita ansiedade antes desses grandes eventos, mas quando as jogadoras entram em campo, tudo o que aconteceu antes desaparece e se torna um dos maiores eventos esportivos de todos os tempos", disse Messing. A Copa de 1994 se tornou um alicerce para a criação da Major League Soccer, que agora conta com 30 times nos EUA e Canadá, com estádios construídos especificamente para o futebol e um contrato de transmissão de US$ 250 milhões por ano com a Apple TV. Mesmo assim, os EUA não corresponderam às expectativas de todos. "Os Estados Unidos da América são o país número um do mundo", disse Infantino, da Fifa, durante uma visita a Beverly Hills em maio. "Não entendo como alguém pode se contentar em ser o número 20 no esporte número um do mundo." Os Estados Unidos perderam amistosos para Bélgica e Portugal em março, em Atlanta, mas uma vitória sobre Senegal e uma derrota apertada para a Alemanha ajudaram a aumentar o entusiasmo. As chances de os EUA se classificarem além da primeira fase são atualmente de cerca de 83%, de acordo com o mercado de previsões Kalshi. Outras ligas esportivas profissionais cresceram mais rapidamente. A valorização das franquias da WNBA (Associação Nacional de Basquete Feminino) e da WNSB (Liga Nacional de Futebol Feminino) está superando a dos times da MLS (Liga Principal de Futebol), segundo a Sportico. E, em outro sinal preocupante, a participação de jovens americanos no futebol caiu na última década, enquanto esportes individuais como golfe e tênis cresceram, de acordo com pesquisa do Aspen Institute. Os veteranos de 1994 esperavam uma trajetória diferente depois de todo esse tempo. "Se você me perguntasse, com toda aquela animação de 1994, como estaríamos no verão de 2026, 32 anos depois, para ser honesto, eu teria pensado que estaríamos muito mais avançados", disse Alexi Lalas, zagueiro da seleção americana de 1994. "Eu imaginava que a conversa seria: 'Vamos ganhar a Copa do Mundo?' Mas essa certamente não é a conversa."