O sucesso recente dos vinhos produzidos em Espírito Santo do Pinhal, cidade na Serra da Mantiqueira, a 190 quilômetros de São Paulo, tem aquecido o mercado imobiliário da região, onde o custo da terra já foi multiplicado por cinco, e empreendimentos hoteleiros e residenciais começam a surgir na paisagem. O fenômeno teve início há 20 anos, com a introdução da técnica de dupla poda das videiras, o que permite a colheita de inverno — quando as uvas concentram melhor o sabor, têm acidez equilibrada e ficam com as cascas mais grossas, condição ideal para vinhos mais sofisticados. Desde então, os rótulos produzidos ali têm conquistado prêmios internacionais importantes, atraindo turistas e a atenção de investidores. Atualmente, há cerca de 25 vinícolas registradas no município paulista. Em um raio de cem quilômetros, já são quase 90 produtores. Não por acaso, a região tem sido chamada de “Toscana brasileira”. Acima, ambiente da Casa Guaspari: local recebeu 60 mil visitantes no ano passado — Foto: ELIAS GOMES/DIVULGAÇÃO Pioneira nesse processo, mas com origem na cafeicultura, a Guaspari ganhou fama no mundo com vinhos como o Syrah Vista do Chá, condecorado nas competições internacionais “Syrah Du Monde 2021” e “Decanter World Wine Awards”, em 2016. Agora, a empresa se prepara para entrar no ramo hoteleiro: até 2027, entregará as primeiras suítes do Wine Villas, projeto realizado em parceria com a LN Urbanismo. A Casa Guaspari, espaço dedicado ao enoturismo, recebeu cerca de 60 mil visitantes em 2025, o que dá a dimensão do fenômeno que a região está vivendo, segundo Paulo Brammer, CEO da Guaspari. “Nos feriados e na temporada de inverno, a demanda por hospedagem na cidade supera com folga a oferta disponível, o que nos motivou a dar este novo passo”, explica ele, informando que mais de 60% do faturamento da marca é gerado pelas operações de enoturismo. Em Jacutinga (MG), a Fazenda Sede terá módulos rurais com vinhedos já plantados para os clientes — Foto: YGHOR BOY/DIVULGAÇÃO Adrian Estrada, CEO da incorporadora LN Urbanismo, acrescenta que o hotel contará com restaurante, spa, piscina, espaço para eventos e serviço de concierge para agendamento de passeios. O investimento total é de R$ 60 milhões. “É um lugar que reúne vinícola, gastronomia, experiências e natureza, bem perto do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, e a duas horas de carro de São Paulo”, contextualiza Estrada, que aposta no potencial para empreendimentos residenciais no futuro. “Será um destino imobiliário diferente, mais ligado à vida no campo”, diz. O advogado paraibano Napoleão Casado Filho, dono da Vinícola Spirito, concorda. Morador da capital, ele resolveu investir em Espírito Santo do Pinhal após a pandemia, em 2021, quando ficou na cidade por conta de laços familiares da esposa. “Aquele momento me despertou o sentimento de me reconectar com a terra, já que minha família também vem de um ambiente rural”, conta. Vista de um dos quatro bangalôs da Vinícola Spirito: todos com reservas esgotadas até o final de agosto — Foto: VINÍCOLA SPIRITO/DIVULGAÇÃO A Vinícola Spirito nasceu naquele mesmo ano, com a primeira colheita feita em 2024. Atualmente, são 5,5 hectares de uvas tintas e brancas. Com o aumento no volume de visitantes, ele construiu quatro bangalôs em 2025. Até o final deste ano, pretende inaugurar mais dez — todos para locação temporária. “Já temos reservas para os próximos dois meses. O volume de turistas tem crescido a cada ano, atraindo investidores de imóveis também. Algo que vem pressionando, inclusive, o valor da terra: em 2020, um alqueire valia R$ 100 mil. Hoje, não sai por menos de R$ 500 mil”, afirma o advogado. Para ele, o “boom” imobiliário será positivo para a economia local. “Os proprietários das novas casas passarão a frequentar a região, trazendo amigos e familiares que ocuparão as pousadas e visitarão as vinícolas e restaurantes. No final, todos sairão ganhando.”